Francisco de Assis França, Chico Science para o Brasil, morreu em um acidente de carro no Recife, em fevereiro de 1997. Nestes cinco anos, completados no último dia 2, ficou comprovado que a herança musical de Science era grande demais para ficar limitada apenas a estampas em camisetas ou ao nome de uma ponte na capital pernambucana. O som de Science continua fazendo escola.
Dez anos depois de seu nascimento, o mangue beat cresceu, criou raízes profundas e hoje assiste ao surgimento de uma surpreendente terceira geração de frutos musicais.
Surgido de um manifesto assinado pelos amigos Chico Science e Fred Zero Quatro em 92, o mangue beat prova que realmente tinha conteúdo. A sétima edição do festival ‘‘Rec Beat’’, realizado em pleno carnaval do Recife, serviu de termômetro para mostrar que o movimento mantém vivas as lições de Chico Science e continua revelando ótimos nomes como ‘‘Cordel do Fogo Encantado’’ e ‘‘DJ Dolores & Orchestra Santa Massa’’.
‘‘Com toda a tradição e o número de ritmos do Recife, não dá para a cena daqui se estagnar’’, diz Antônio Gutierrez, organizador do ‘‘Rec Beat’’. ‘‘Essas novas bandas que estão surgindo retomam a idéia original de Chico, que era aliar a independência com a qualidade artística e profissionalismo.’’
O movimento mangue nasceu do encontro de pessoas apaixonadas por hip hop e punk, mas que cresceram ouvindo maracatu e ciranda. O tambor tribal feito artesanalmente por descendentes de escravos, associado à guitarra e aos amplificadores americanos, anunciava mais do que apenas um novo estilo musical. Era um conceito, uma filosofia.
O movimento elaborou manifestos de caráter social, que buscavam a reflexão sobre uma sociedade que perde progressivamente suas raízes culturais. No coração do Nordeste brasileiro, criou-se um brilhante trabalho de incorporação de elementos genuinamente brasileiros a elementos pop globais. Surgia uma mistura entre rap e repente, hip hop e maracatu.
Antes de virar Science, Francisco trabalhava na área de recursos humanos de uma empresa de informática. Com amigos músicos resolveu, no início dos anos 90, balançar a cena cultural do Recife. Redigiram o manifesto ‘‘Caranguejos com Cérebro’’, que avisava: ‘‘Somos interessados em quadrinhos, TV, antipsiquiatria, Bezerra da Silva, hip hop, John Coltrane, sexo não-virtual, conflitos étnicos e todos os avanços da tecnologia.’’
A maior glória de Chico Science não reside na simples teimosia de evitar a arte fácil. Ao lado da Nação Zumbi, o músico continuou a lição do ponto onde os tropicalistas tinham parado e fincou uma antena parabólica no costumeiro lamaçal do Recife.
Mas, durante a segunda dentição do movimento, bandas como ‘‘Cascabulho’’ e ‘‘Mestre Ambrósio’’ perderam o conceito original. A pressão por novidades e os indícios de que a cena recifense desmoronaria sem uma liderança levaram o movimento a repensar suas intenções. Felizmente, a cena musical pernambucana provou que não teria o mesmo fim de Seattle, nos EUA, que sumiu do mapa musical quando o grunge, que nasceu ali, saiu de moda. ‘‘A falta de um líder teve seu lado bom, pois deu mais liberdade às novas bandas’’, explica Gutierrez. ‘‘Virou heresia repetir fómulas, e a criatividade só aumentou.’’
A terceira geração do mangue parece ser a mais variada que já surgiu. O movimento voltou a ter o conceito original de integrar todas as culturas e ritmos, sem ter vergonha de assumir a regionalidade. Uma dessas surpresas é DJ Dolores & Orchestra Santa Massa. Dolores, a persona inventada por Élder Aragão, e sua ‘‘orchestra’’ misturam sanfona com guitarra wah wah, bateria hardcore com rabeca sertaneja, canto de aboio com hip hop e surf music. Tudo costurado com muita música eletrônica.
‘‘O mangue é uma alegoria do que acontece no Recife’’, explica o músico Otto, que foi percussionista do mundo livre s/a e hoje já está com dois discos solos. ‘‘Nessa nova geração, não são só os caranguejos que têm cérebro. As outras espécies estão surgindo cada vez mais antenadas. E essas novas espécies lembraram que o mangue beat não é um estilo, é um estado de consciência.’’

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