Um pungente testamento musical chega às lojas. Uma despedida em tom memorialista na qual músicas que marcaram a infância e a formação de Baden Powell (1937-2000) são rebobinadas em interpretações magistrais. O disco ‘‘Lembranças’’ (Trama), lançamento da gravadora Trama, foi gravado cinco meses antes da morte do violonista.
Baden entrou no estúdio de gravação levado pelo produtor Fernando Faro, cujo projeto incluia uma série de três CDs abrangendo um disco de chorinhos e outro de temas inéditos acompanhados de composições antigas do músico. Só deu tempo para gravar ‘‘Lembranças’’. Baden morreria em setembro, aos 63 anos, deixando uma discografia tão imensa quanto pouco conhecida no Brasil.
O CD, masterizado por Carlos Freitas, é uma tentativa de restaurar a lacuna. Reúne 11 faixas, apenas duas de sua autoria – ‘‘Falei e Disse’’ (em parceria com Paulo Sérgio Pinheiro) e ‘‘O Astronauta’’ (com letra de Vinícius de Moraes). No disco, ressurgem em versões instrumentais. As demais recebem tratamento pessoalíssimo do violonista, cuja genialidade se manifesta particularmente na marcha-rancho ‘‘Pastorinhas’’ (Noel Rosa-João de Barro) e no samba-canção ‘‘Molambo’’ (Jaime Florence-Augusto Mesquita).
A primeira foi lançada um ano antes do nascimento de Baden. Campeã do carnaval de 1938, era cantarolada por ele quando criança em sua cidade natal Varre-e-Sai (RJ). A segunda foi uma sugestão de Faro, que queria prestar uma homenagem a Florence, o primeiro e grande professor de Baden. ‘‘Eu me recordo do Meira (como eu costumava chamar o Florence) na minha casa, com cigarrinho de palha na boca e corrigindo o violão do Baden, dizendo: ‘Não, menino, não é isso’’ – conta o produtor num texto-entrevista distribuído à imprensa.
Faro sugeriu também a gravação da já citada ‘‘Falei e Disse’’, que se tornaria um sucesso de rádio na voz de Elis Regina. As dicas foram acatadas, mas a seleção final e a ordem das faixas foram de Baden. Músicas incidentais aparecem aqui e ali entre uma faixa e outra do repertório. Se ‘‘Dora’’ (Dorival Caymmi) cita ‘‘O Mar’’ (do próprio Caymmi), ‘‘Maria’’ (Ary Barroso-Luiz Peixoto) faz menção a ‘‘Arrependimento’’ (Cristovão de Alencar-Silvio Caldas) e ‘‘Por Causa dessa Cabocla’’ (Ary Barroso-Luiz Peixoto).
O disco repassa as memórias musicais da dupla de amigos. É o primeiro trabalho que Baden registra no Brasil, em quase duas décadas. Teve melhor acolhida no exterior conquistando reputação já nos anos 60 em viagens pela Europa, onde chegou a gravar mais de 40 álbuns e morado na França e Alemanha.
Sua fama desembarcou também no Japão, onde fez incontáveis shows e deixou outros tantos títulos gravados. Nos Estados Unidos, da mesma forma, foi reverenciado por instrumentistas de renome. A maestria do brasileiro, que combinava elementos virtuosísticos da técnica clássica com suingue e harmonia populares, provocava impacto.
No texto de apresentação do CD, o crítico Sérgio Cabral conta que certa vez ao homenagear o guitarrista Barney Kessel, dizendo ter sido influenciado por ele, Baden ouviu o seguinte: ‘‘– O que é isso, Baden Powell? Eu é que sou influenciado por você!’’. Por terras americanas, o violonista faria ainda apresentações históricas ao lado de Stan Getz, de quem se tornaria grande amigo.
‘‘Lembranças’’ foi gravado em maio desse ano, mas seu teor já vinha sendo planejado pelo músico e pelo produtor desde a gravação de um programa com a mesma concepção para a TV Cultura em que o artista desfilara recordações de sua infância, do pai e de um flautista de sua cidade. No vídeo de divulgação da gravadora Trama, que traz sua última entrevista, ele lembra: ‘‘Tinha uma senhora dos seus 70 anos que queria aprender violão comigo. Eu tinha 9 anos e ela ia me buscar na praça com os bolsos cheios de bola de gude’’.
Apesar da saúde debilitada em decorrência da diabetes, descoberta em 1972, Baden trabalhou sem problemas durante as sessões no estúdio Daja Artistas Reunidos, em São Paulo. Faro lembra que ele ‘‘chegava antes da hora marcada e tentava se superar a cada arranjo. Não pegou nem gripe. Chegávamos a gravar uma faixa por dia’’. Um mês após as gravações, voltando de um show em Belo Horizonte, o violonista entraria em coma para se despedir pouco depois no dia 26 de setembro. Curiosamente, o primeiro tributo chega às lojas trazendo a assinatura do próprio homenageado.

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