Marcelo Negromonte
Agência Folha
Nenhum aparelho de som está seguro para suportar ‘‘Rythm and Stealth’’, segundo álbum - em quatro anos (!) - da dupla inglesa Neil Barnes and Paul Daley, o Leftfield. Assim como o teto da Brixton Academy não suportou incólume a turnê de ‘‘Leftfism’’ (95), álbum de estréia e êxtase da música eletrônica, ‘‘Rythm & Stealth’’ é grave, overdose de woofer, de minimalismo cintilante.
Eletrônica fausta.
O álbum percorre uma floresta densa e negra, que por vezes escapa do objetivo da dupla de fazer tudo novo de novo, como em ‘‘Leftfism’’ - o que não é demérito e não importa muito.
E em outras tantas o monstrinho amigável da capa do disco seduz pelo volume. ‘‘Afrika Shok’’ revolve as raízes do electro com o criador dele, Afrika Bambaataa, com baixos pulsantes o suficiente para o coração bater junto, uma ultra-sonografia do mais tenso funk.
Apesar de suas mais recentes e fracas participações e singles, Bambaataa incorporou um exu, e o Leftfield balanceou as equações entre funk, house, electro, peso e um teco de psicodelia. Os ‘‘ah, ah, ah, ah’’, bafejados com escárnio, e as risadas malignas do homenzarrão dizem muito mais do que as letras referentes a Zulu Nation, electro-funk e a ele próprio. Mais funk e dub em ‘‘Phat Planet’’, gorda, cheia. Um som tribal e atual, ritmado e brocado, com nuances pouco digeríveis. O diálogo é feito aqui com ‘‘6/8 War’’, de doses cavalares de minimalismo e psicodelia, com bases reggae - mas a anos-luz da Jamaica, que está mais evidente em ‘‘Chant of a Poor Man’’, moderna.
‘‘Swords’’ é uma pérola de negritude à Massive Attack, com a belíssima voz de Nicole Willis que passeia sobre os overdubs da floresta - numa madrugada fria.
Com a revelação do hip hop inglês, Roots Manuva, a dupla branca apresenta um rap com brilho espumante e ácido. Visual.
Leftfield ainda espanta pela densidade, muito mais do que pela aparência, como o monstro. Assim, ‘‘Rythm and Stealth’’ é passo à frente de ‘‘Leftfism’’.
Disco: Rythm and Stealth, do grupo Leftfield. Lançamento: Sony (importado) Onde encomendar: London Calling (11/223-5300), Bizarre
(11/220-7933), Indie Records (11/816-1220), www.cdnow.com

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