'Lavoura Arcaica', a poesia radical no cinema
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quinta-feira, 13 de junho de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha 2 
Quando Esperança, a nova novela das 8, estrear na segunda-feira, os habituais milhões de fregueses da dramaturgia do horário vão admirar mais uma vez imagens cuidadosamente elaboradas, coisa de cinema, dirão muitos. Nenhum segredo. Pois é exatamente isto que estará na telinha: planos, enquadramentos iluminação, cortes cinematográficos, a forma preferida do diretor Luis Fernando Carvalho desde Renascer e O Rei do Gado. Carvalho, 42 anos, é artista de formação híbrida, cria do cinema e também da televisão, simbiose entre duas linguagens específicas, a cinematográfica e a televisiva, e consequentemente responsável pela mais enriquecedora fase do núcleo global de produções, seja como diretor de novelas ou de especiais. E quem se interessar, entre outras preciosidades, em saber de onde vem este olhar de cinema incorporado pela televisão, e vice-versa, tem um encontro marcado a partir de hoje com Lavoura Arcaica, em exibição somente em Londrina (veja a programação de cinema na página 2).
Baseado na novela do paulista Raduan Nassar, Lavoura Arcaica começou a ser realizado no segundo semestre de 1998, mas somente estreou no Brasil e no exterior em 2001, depois de um longo processo de criação. O filme conta a história de André (Selton Mello), o filho que retorna à fazenda onde foi criado, reencontrando-se com o pai (Raul Cortez), a irmã, Ana (Simone Spoladore), por quem nutria imensa paixão, a mãe, o irmão encarregado de buscá-lo, a mãe e a própria infância, num permanente confronto entre passado e presente. É também a volta do filho pródigo - assim como o diretor, que se reencontrou com o cinema, após muitos anos.
Em 1986, Luis Fernando Carvalho, carioca então com 23 anos, co-dirigiu com Maurício Farias um instigante e belo curta-metragem, A Espera, premiado no Festival de Gramado daquele ano. O filme, um dos melhores nacionais da década de 80, é inspirado nos Fragmentos de Um Discurso Amoroso, de Roland Barthes, e tem no elenco Marieta Severo, Diogo Vilela e Malu Mader. A Espera traduzia, de maneira muito acentuada, a busca do diretor iniciante por uma linguagem no cinema. Doze anos mais tarde, depois de ter desenvolvido uma bem-sucedida carreira na tevê, marcada justamente pela inovação da linguagem, Luis Fernando voltou ao cinema, de novo empenhado em experimentar, em abrir novos caminhos. Segundo ele, Lavoura Arcaica vem responder a todas as inquietações dos anos em que ficou fazendo televisão.
Mais do que uma história narrativa - o que de fato não é -, o livro de Raduan Nassar oferece um elaborado trabalho de construção de linguagem, o que fascinou o diretor. O que eu prezo demais na literatura do Raduan é que não se trata da linguagem pela linguagem, mas da linguagem como morada do ser, enquanto necessidade de sobrevivência, a linguagem como um grito, observa Carvalho.
Lento, pausado e belo em sua proposta de poética universal, Lavoura Arcaica é uma fiel adaptação do texto homônimo de Raduan Nassar, escritor fascinante não apenas pela qualidade superior do pouco que escreveu e publicou (somente três livros), mas por seu perfil fugidio e misterioso - aos 66 anos, há mais de duas décadas afastado da literatura, se refugiou em sua fazenda no interior de São Paulo.
Com enfoque sobre liberdade, tradição, família patriarcal, amor incestuoso e até com um toque político na visão da autoridade sobre o oprimido, o filme é uma experiência muito mais visceral do que exercício de cabeça, uma obra corajosa e radical sem se nunca se tornar hermética, abrindo-se em muitos caminhos para o espectador que disponibilizar sensibilidade e inteligência para ir de encontro ao rico painel de conflitos morais e psicológicos. Selton Melo, como o herói trágico, domina absoluto um elenco onde ainda pontificam Raul Cortez e a novata Simone Spoladore. Pictórico pela própria natureza, e pela natureza humana, Lavoura Arcaica deve muito de sua eficácia narrativa ao fotógrafo Walter Carvalho.


