Basta uma combinação de poucos acordes e versos de rimas fáceis para que a música de algum personagem de novela grude na cabeça das pessoas. Foi assim com "Cheias de Charme" e seu tecnobrega, e "Avenida Brasil", repleta de forró e sertanejo universitário. E "Salve Jorge" segue o mesmo caminho, explorando ao máximo uma trilha sonora tão popular e "chiclete" como a de sua antecessora.
Toda vez que o casal protagonista Théo e Morena, interpretados por Rodrigo Lombardi e Nanda Costa, aparece em cena, a música "Esse Cara Sou Eu" embala exaustivamente os beijos ou brigas dos personagens. Especialmente feita por Roberto Carlos para a trama de Glória Perez, a canção descreve aquilo que seria o homem com que toda mulher sonha. "Eu sei que a trilha da novela anterior caiu na boca do povo. Mas não me senti responsável por selecionar músicas na tentativa de obter a mesma repercussão. Sempre falei com a classe C, não só nas minhas histórias, mas também na música que está no pano de fundo das cenas", esclarece a autora.
Uma trilha sonora marcante também foi a aposta de "Avenida Brasil". Muitas das músicas, inclusive, acabavam se misturando com o próprio texto dos personagens. Volta e meia, Diógenes, vivido por Otávio Augusto, cumprimentava os frequentadores do baile charme com o tão escutado "oi, oi, oi" da abertura do folhetim. Ou Carminha, a vilã de Adriana Esteves, cantava a pegajosa "Eu Quero Tchu, Eu Quero Tchá". Mas a música que mais estourou foi a versão da personagem Zezé, vivida por Cacau Protásio, do forró "Correndo Atrás de Mim". Depois que ela cantarolou, de improviso, "eu quero ver tu me chamar de amendoim" – ao mesmo tempo em que a personagem dançava e aspirava o sofá – sua vida mudou. Vários vídeos da cena e de versões remixadas foram colocados na internet. Alguns atingiram mais de 900 mil acessos. O sucesso, no entanto, não foi premeditado. "As pessoas quando me encontram pedem para eu cantar. A gente fez sem pretensão de ter esse 'boom'. Óbvio que queríamos, mas não imaginávamos que fosse dar tão certo", conta Cacau.
A Record também embarca na mesma onda de adotar trilhas sonoras populares. "Balacobaco", atualmente única novela da emissora no ar, é repleta de canções que tocam nas rádios e grudam na mente, como "Ela Pode Meter Gaia", da dupla sertaneja Nildo Reis e Cristiano. Mas a busca por uma música "chiclete" nem sempre é o primordial, apesar de ajudar a identificar um personagem. "O importante é a música contar a história do personagem, ter a ver com o núcleo e ser boa", assegura o produtor Marcelo Cabral, que cuida da trilha de "Balacobaco".
O diretor Edson Spinello também fez questão de se envolver nas escolhas das músicas do folhetim escrito por Gisele Joras. "Procuro sempre músicas que tenham ligação com o que público está ouvindo ou gostando. Em 'Bela, A Feia', já tinha experimentado nesse sentido. Fui o primeiro a tocar tecnobrega em novelas", gaba-se Spinello.
Mas o tecnobrega ganhou evidência mesmo quando "Cheias de Charme" colocou Gaby Amarantos – a Beyoncé do Pará – em seu tema de abertura. Assim como aconteceu em "Avenida Brasil", "Ex My Love" acabou se misturando com a história, deixando de ser um mero cenário musical, nas inúmeras vezes em que as personagens cantoras interpretavam a música, fazendo com que ficasse difícil esquecê-la. "O que aconteceu em 'Avenida Brasil' e 'Cheias de Charme' foi uma aposta no popular que se revelou certeira. Fora que, por serem tramas muito populares, podemos escolher artistas sem tanto reconhecimento para brincar com o que toca realmente nas regiões periféricas do país", explica o diretor musical Mariozinho Rocha.
Na contramão dos forrós e sertanejos universitários, "Carrossel", do SBT, também tem uma trilha sonora "chiclete" a seu modo. Além das músicas cantadas pelos personagens, há canções de artistas já conhecidos, como Restart, banda cujos integrantes se vestem com roupas bem coloridas.
A escolha das canções, feita pelo produtor musical Arnaldo Saccomani, foi pautada no que poderia ser atraente para o público infantil. "O mercado da música atualmente no Brasil é feito de música para chorar ou para dançar, não é mais para ouvir. A gente foi atrás de canções bem tristes, no caso de 'Fico Assim Sem Você', quando o Cirilo chora por causa da Maria Joaquina, ou para dançar, como tem a 'Mexe-Mexe' e várias outras", explica, referindo-se aos personagens de Jean Paulo Campos e Larissa Manoela. "Nessa trilha, as canções ficam na cabeça porque os personagens são fortes e as música são boas", completa.

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