Lavagem cerebral
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 12 de dezembro de 2012
Luana Borges<BR>TV Press 
Basta uma combinação de poucos acordes e versos de rimas fáceis para que a música de algum personagem de novela grude na cabeça das pessoas. Foi assim com "Cheias de Charme" e seu tecnobrega, e "Avenida Brasil", repleta de forró e sertanejo universitário. E "Salve Jorge" segue o mesmo caminho, explorando ao máximo uma trilha sonora tão popular e "chiclete" como a de sua antecessora.
Toda vez que o casal protagonista Théo e Morena, interpretados por Rodrigo Lombardi e Nanda Costa, aparece em cena, a música "Esse Cara Sou Eu" embala exaustivamente os beijos ou brigas dos personagens. Especialmente feita por Roberto Carlos para a trama de Glória Perez, a canção descreve aquilo que seria o homem com que toda mulher sonha. "Eu sei que a trilha da novela anterior caiu na boca do povo. Mas não me senti responsável por selecionar músicas na tentativa de obter a mesma repercussão. Sempre falei com a classe C, não só nas minhas histórias, mas também na música que está no pano de fundo das cenas", esclarece a autora.
Uma trilha sonora marcante também foi a aposta de "Avenida Brasil". Muitas das músicas, inclusive, acabavam se misturando com o próprio texto dos personagens. Volta e meia, Diógenes, vivido por Otávio Augusto, cumprimentava os frequentadores do baile charme com o tão escutado "oi, oi, oi" da abertura do folhetim. Ou Carminha, a vilã de Adriana Esteves, cantava a pegajosa "Eu Quero Tchu, Eu Quero Tchá". Mas a música que mais estourou foi a versão da personagem Zezé, vivida por Cacau Protásio, do forró "Correndo Atrás de Mim". Depois que ela cantarolou, de improviso, "eu quero ver tu me chamar de amendoim" ao mesmo tempo em que a personagem dançava e aspirava o sofá sua vida mudou. Vários vídeos da cena e de versões remixadas foram colocados na internet. Alguns atingiram mais de 900 mil acessos. O sucesso, no entanto, não foi premeditado. "As pessoas quando me encontram pedem para eu cantar. A gente fez sem pretensão de ter esse 'boom'. Óbvio que queríamos, mas não imaginávamos que fosse dar tão certo", conta Cacau.
A Record também embarca na mesma onda de adotar trilhas sonoras populares. "Balacobaco", atualmente única novela da emissora no ar, é repleta de canções que tocam nas rádios e grudam na mente, como "Ela Pode Meter Gaia", da dupla sertaneja Nildo Reis e Cristiano. Mas a busca por uma música "chiclete" nem sempre é o primordial, apesar de ajudar a identificar um personagem. "O importante é a música contar a história do personagem, ter a ver com o núcleo e ser boa", assegura o produtor Marcelo Cabral, que cuida da trilha de "Balacobaco".
O diretor Edson Spinello também fez questão de se envolver nas escolhas das músicas do folhetim escrito por Gisele Joras. "Procuro sempre músicas que tenham ligação com o que público está ouvindo ou gostando. Em 'Bela, A Feia', já tinha experimentado nesse sentido. Fui o primeiro a tocar tecnobrega em novelas", gaba-se Spinello.
Mas o tecnobrega ganhou evidência mesmo quando "Cheias de Charme" colocou Gaby Amarantos a Beyoncé do Pará em seu tema de abertura. Assim como aconteceu em "Avenida Brasil", "Ex My Love" acabou se misturando com a história, deixando de ser um mero cenário musical, nas inúmeras vezes em que as personagens cantoras interpretavam a música, fazendo com que ficasse difícil esquecê-la. "O que aconteceu em 'Avenida Brasil' e 'Cheias de Charme' foi uma aposta no popular que se revelou certeira. Fora que, por serem tramas muito populares, podemos escolher artistas sem tanto reconhecimento para brincar com o que toca realmente nas regiões periféricas do país", explica o diretor musical Mariozinho Rocha.
Na contramão dos forrós e sertanejos universitários, "Carrossel", do SBT, também tem uma trilha sonora "chiclete" a seu modo. Além das músicas cantadas pelos personagens, há canções de artistas já conhecidos, como Restart, banda cujos integrantes se vestem com roupas bem coloridas.
A escolha das canções, feita pelo produtor musical Arnaldo Saccomani, foi pautada no que poderia ser atraente para o público infantil. "O mercado da música atualmente no Brasil é feito de música para chorar ou para dançar, não é mais para ouvir. A gente foi atrás de canções bem tristes, no caso de 'Fico Assim Sem Você', quando o Cirilo chora por causa da Maria Joaquina, ou para dançar, como tem a 'Mexe-Mexe' e várias outras", explica, referindo-se aos personagens de Jean Paulo Campos e Larissa Manoela. "Nessa trilha, as canções ficam na cabeça porque os personagens são fortes e as música são boas", completa.


