''Laura'': uma catarse musical
Laura: uma catarse musical
Paulo Polzonoff Jr
Quando L.V., a protagonista de Laura - A Voz de Uma Estrela (Little Voice, 1998) sai de sua gaiola cênica e encarna as vozes das divas Judy Garland, Shirley Bassey e Marilyn Monroe, pode-se experimentar duas artes atuando catártica e simultaneamente sobre o espectador: a grande atuação de Jane Horrocks e a música insana que ela evoca ao ressuscitar os mitos de um passado cujo glamour insiste em ecoar até os dias de hoje.
Não é só Jane Horrocks que se destaca em Laura. Aliás, as grandes atuações são o sustentáculo e maior trunfo de um filme cujo enredo nada tem de especial. Laura Hoff (Jane Horrocks), a quem todos chamam L.V., é uma menina tímida e calada que passa seus dias no quarto ouvindo os velhos discos de seu pai morto. Ela mora com a mãe, Mari (Brenda Blethyn), uma mulher verborrágica e vulgar, que tem a filha como um empecilho na sua vida de lantejoulas em bares decadentes e casos esporádicos com homens nada exemplares, como Ray Say (Michael Caine), um aspirante a empresário que está à caça de novos talentos. L.V., num ataque de fúria, começa a cantar e Ray Say, como não poderia deixar de ser, pensa em ganhar milhões com o talento dela em imitar as vozes e trejeitos de Garland, Bassey e Monroe. Perdido neste joguete de interesses está o introspectivo Billy (Ewan McGregor), um instalador de telefones apaixonado por pombos-correio e que acaba também por se apaixonar por L.V.
A fragilidade do enredo torna o filme uma sequência de acontecimentos previsíveis, entremeados pela música, sempre ela, que de certo modo camufla os defeitos de uma obra que não se sustenta nem como musical, nem como drama, nem como comédia. O desentendimento entre L.V. e sua mãe é muito mal explorado, reduzido a um ódio com raízes mal esclarecidas que se cura com a voz e com a esperança de um futuro milionário. Tampouco a paixão de Billy por L.V. empolga o espectador, que ali vê apenas a tentativa mal sucedida de uma pretensa poesia cinematográfica, cujas metáforas referentes a pássaros, gaiolas e pombos-correio que sempre voltam para a proteção de seu lar por vezes resvalam na pieguice descabida. O humor é o que o filme tem de mais consistente, com personagens caricatos como a balofa Sadie (Anette Badland) e o patético comediante stand-up Mr. Boo (Jim Broadbent), responsável por bons momentos de humor negro.
Há quem veja razões existenciais povoando a hora e meia do filme. E é possível que o diretor Mark Herman, que também é roteirista, juntamente com Jim Cartwright, autor da peça na qual o filme é baseado (The Rise and Fall of Little Voice), tenha querido transformar a simples história da aurora e ocaso de L.V numa defesa apaixonada do direito do indivíduo de abdicar daquilo que lhe parece mais precioso. Ou então tenha ele pensado na construção de uma personagem complexa, à beira do autismo, cuja única conexão com o mundo real seria a música - e não qualquer música -, a música da Era Dourada do Cinema. Ou ainda tenha interligado a vida de seus personagens de modo a mostrar toda a frustração deles escorada no dom de uma menina que até aquele instante mágico em que sua voz eclodiu lhes era um estorvo.
Nada disso, porém, vinga ao som dos saxofones e clarinetas da banda que acompanha L.V. E é impossível pensar em algo tão profundo ao sair do cinema sob os ecos de Judy Garland cantando Over the Rainbow e de Marilyn Monroe se desmanchando na maliciosa My Heart Belongs to Daddy.





