"Latitude Zero" vai em busca da desolação
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domingo, 28 de novembro de 1999
Por Luiz Zanin Oricchio 
São Paulo, 28 (AE) - Coerente com sua proposta de produção, Toni Venturi filmou "Latitude Zero" rapidamente: tudo se resolveu em meras quatro semanas. Mas isso só foi possível porque houve, antes, sete semanas de pré-produção. "Durante esse tempo, os atores ensaiaram exaustivamente seus papéis em um galpão de São Paulo", informa. Desse modo, quando chegaram à locação para rodar, todas as condições cênicas já tinham sido exaustivamente testadas. Para garantir realismo ao ensaio, Venturi mandou que fosse construída, no estúdio, uma réplica bastante aproximada de um bar sertanejo, como aquele que o elenco iria encontrar na Rondônia ficcional. Aliás, a "Rondônia" de "Latitude Zero" foi reproduzida a 30 quilômetros de Paconé, uma cidade de Mato Grosso.
Foi feito, também, um story board prévio -aquele estudo com desenhos que reproduz as cenas, o movimento dos atores, a posição da câmera, etc. "Todas essas medidas contribuem para encurtar o tempo de filmagem, mas os ensaios ajudam também a aprofundar o tônus dramático da situação", analisa. Venturi insiste em dizer que pesquisou a fundo a atmosfera dramática que iria utilizar nesse huis-clos ambientado nas quebradas do Brasil.
No entanto, alguns diretores se queixam de que o excesso de ensaios pode tirar a naturalidade da interpretação, conduzindo a filmes excessivamente teatrais. Venturi conhece o risco e procura evitá-lo, contornando o psicologismo dos personagens. "Toda a ação dramática decorre das ações dos envolvidos", diz. Outra opção é pela linguagem realista. "Não quis fazer literatura e nem mesmo um tipo de cinema poético, como o de "Um Copo de Cólera" ou "Outras Estórias"."
Na verdade, diz o diretor, o filme é quase como uma tese: "Uma maneira de mostrar que é possível pensar uma estética mais adequada ao País, à realidade da captação de recursos." Depois de pronto, "Latitude" Zero custará R$ 900 mil.
Mas o baixo custo não é o único item desse manifesto. Venturi trabalha próximo de um grupo de criadores, interessados em produzir obras contundentes, coladas à realidade nacional, críticas, afiadas, na contra-mão do cinema de entretenimento em estado puro. Ele lembra alguns nomes afinados com esse tipo de proposta: Tata Amaral, Lili Caffé, Philippe Barcinski, Francisco César Filho, Rogério Correa, Renato Tapajós, Fernando Bonassi, Roberto Moreira, Marcelo Masagão.
Não se trata exatamente de um grupo ou de um movimento formalmente constituído. Mesmo porque, esses amigos e colegas de profissão tinham planejado divulgar um manifesto, que acabou não saindo por falta de consenso quanto ao texto final. De qualquer forma, com manifesto ou sem, ficam alguns pontos comuns a esse grupo de autores. Quanto à temática: "Temos propostas mais radicais, contundentes, preocupadas em refletir a realidade sociocultural do País", informa Venturi. Além disso, há uma clara opção preferencial: "Gostamos de trabalhar com personagens periféricos", diz.
O "grupo" também se interessa em reviver momentos traumáticos da história recente. Fernando Bonassi, por exemplo, tem um projeto chamado de "O Homem Fechado", sobre um militante da luta armada, enclausurado em seu "aparelho", do qual não pode sair sem correr risco de prisão. Renato Tapajós tenta levantar a produção de No Olho do Furacão, doumentário sobre o mundo interior da luta armada. Vai entrevistar as pessoas que estiveram na linha de fogo durante os anos mais violentos da ditadura militar como Fernando Gabeira, José Genoíno e José Dirceu, entre outros.
Alternativa - Toni Venturi faz questão de ressalvar que ele e seus amigos não estão propondo uma receita de produção - e sim uma alternativa. Não quer, em especial nessa época de dificuldade de captação de recursos para o cinema nacional, se confrontar com aqueles que optam por produções mais caras, como "Orfeu" ou "Mauá". A opção de Venturi e seus amigos é clara: "Queremos fazer um cinema de qualidade, baixo orçamento e preocupação social, buscando a diversidade cultural do País e, sobretudo, chamando a atenção para pessoas que em geral não são retratadas pelos filmes". Se não é um manifesto, é quase isso.


