Lascividade e talento em cena
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segunda-feira, 29 de julho de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém. A frase, de Nelson Rodrigues (1912-1980), ilumina como poucas a tensão psicólogica vivida pelos personagens de suas peças.
Uma mostra das ''tragédias cariocas'' do autor poderá ser apreciada a partir dessa semana na Globo, com a exibição de adaptações cinematográficas e televisivas de sua obra. O ciclo é uma homenagem ao escritor, que estaria completando 90 anos em agosto.
O tributo começa hoje com o filme ''Traição'', de 1997, completando-se com a reprise da minissérie ''Engraçadinha'', exibida pela emissora em 1995. ''Traição'' foi rodado pela produtora Conspiração Filmes, integrada por jovens vindos do mercado publicitário que têm testado sua força no cinema.
O filme reúne três episódios livremente baseados nos contos de Nelson Rodrigues. Os três irão ao ar separadamente no horário do ''Brava Gente'', sempre às terças-feiras, após o ''Casseta & Planeta Urgente''. Hoje vai ao ar ''O Primeiro Pecado'', dirigido por Arthur Fontes e que conta um caso de adultério ocorrido nos anos 50.
É a história de Mário Brandão (Pedro Cardoso), que conhece Irene (Fernanda Torres) em um ponto de ônibus. A moça se diz casada, mas garante que está disposta a trair o marido com ele. No dia 6, será a vez de ''Diabólica'', dirigido por Cláudio Torres, que mostra Geraldo (Daniel Dantas) seduzido pela futura cunhada Alice (Ludmila Dayer), de 13 anos, às vésperas do casamento.
No dia 13, a Globo mostra ''Anemia Perniciosa'', dirigido por José Henrique Fonseca. Neste terceiro episódio, o próprio diretor encarna um personagem flagrado num hotel com a mulher (Drica Moraes) de seu melhor amigo (Alexandre Borges). Os três episódios têm participação de Fernanda Montenegro. Fechando o ciclo, ''Engraçadinha'' será pinçada dos arquivos da emissora sete anos depois de sua estréia.
A minissérie vai ao ar de 20 de agosto a 13 de setembro, de terça a sexta-feira, às 22h30. ''Engraçadinha'' lançou a atriz Alessandra Negrini ao estrelato. Foi adaptada por Leopoldo Serran, com colaboração de Carlos Gerbase. A direção ficou nas maõs de Denise Saraceni. O elenco reuniu ainda Cláudia Raia, Maria Luísa Mendonça, Paulo Betti, Arlete Salles, Angelo Antônio e Pedro Paulo Rangel.
A história da menina desinibida que fica aparentemente recatada na fase adulta foi o primeiro folhetim que Nelson Rodrigues assinou com o próprio nome, de agosto de 1959 a fevereiro de 1960, nas páginas do extinto jornal carioca Última Hora. Na primeira parte da trama, a personagem (Alessandra Negrini) aparece com 18 anos incendiando a libido masculina e dando dor de cabeça à família, que mora no Espírito Santo.
Na segunda parte, ela ressurge (na pele de Cláudia Raia) como uma protestante batista morando num subúrbio do Rio de Janeiro, sem o fogo da juventude e (mal) casada com Zózimo (Pedro Paulo Rangel). Mas a filha do casal, Silene (Mylla Christie), herdou da mãe o mesmo comportamento lascivo passando a atrair também a tia lésbica (Maria Luíza Mendonça), que assediou Engraçadinha no passado.
A obra teve também duas versões levadas à tela grande, dirigidas respectivamente por J.B.Tanko e Haroldo Marinho Barbosa. Nelson Rodrigues talvez seja o autor brasileiro que mais atenção mereceu do cinema até hoje. Pelo menos 20 longas-metragens já foram rodados, baseados em suas peças, romances ou contos. O primeiro foi ''Meu Destino é Pecar'', dirigido por Manuel Peluffo em 1952.
O mais recente foi ''Gêmeas'', de Andrucha Waddington. Críticos costumam destacar ''Boca de Ouro'' (dirigido por Nelson Pereira dos Santos), ''A Falecida'' (Leon Hirszman), ''Toda Nudez Será Castigada'' (Arnaldo Jabor) e ''A Dama do Lotação'' (Neville D'Almeida) como as adaptações mais bem-sucedidas de seus textos. Em todas, com maior ou menor densidade, sobressai o fundo corrosivo tramado pelo escritor. Bem que a Globo poderia beber mais da fonte.


