Carmela, uma mulher grávida e prestes a dar à luz, vive em um bairro periférico na fronteira entre o Brasil e a Argentina. Em extrema vulnerabilidade, é com ajuda da vizinha Juana, que também está grávida, que ela busca socorro em hospitais da região - até esbarrar na falência do sistema de saúde e a falta de solidariedade.

Esse é o ponto de partida do longa-metragem “Las Preñadas”, uma coprodução internacional entre a Kinopus Audiovisual, de Londrina, e a Mesa Latina, da Argentina. O filme já teve sua estreia no circuito comercial argentino e uma pré-estreia brasileira em Santo Antônio do Sudoeste, Foz do Iguaçu, Maringá e Londrina, em abril. Também passou por festivais do Equador e da Colômbia e agora será exibido nesta quinta-feira (28), às 16h30, na “Mostra Continente” do 17° CineBH (Mostra Internacional de Cinema de Belo Horizonte). No dia 2 de outubro, fará parte do festival de cinema de Monterrey, no México.

LEIA TAMBÉM:

Festival de Música de Londrina continua com "Uma Noite na Broadway"

Benelli comemora 70 anos com arte no Espaço Cultural AML

O produtor Guilherme Peraro, da Kinopus, explica que “Las Preñadas” é resultado de um projeto que já dura cerca de seis anos, e que o roteiro - escrito pelo também diretor argentino Pedro Wallace - evidencia a precariedade do sistema de saúde, sobretudo no atendimento às mulheres grávidas em situação de vulnerabilidade.

A história acompanha Carmela e Juana no que pode ser descrito como um “road movie a pé”, passando entre hospitais da fronteira e esbarrando no descaso. Essa situação dramática é marcada pela amizade construída entre as duas personagens. “O ‘Preñadas’ vem mostrar que é possível fazer cinema no interior do país, principalmente aqui em Londrina”, acrescentando que a equipe de produção teve 65 técnicos - 35 brasileiros e 30 argentinos.

A participação no CineBH é importante, continua Peraro, porque se trata de um festival tradicional e com uma forte abordagem latino-americana. “Temos muitos temas em comum com a América Latina e são cinematografias que estão no mesmo padrão de profissionalismo. Essa troca é muito importante, até para se conhecer melhor. O CineBH é uma janela onde a gente pode exibir o trabalho e tentar colocar o filme comercialmente”, completa.

Assista ao trailer de Las Preñadas:

‘DIREITOS VIOLADOS’

O diretor Pedro Wallace ressalta que o longa “traz uma problemática muito comum de algumas mulheres da América Latina”, que é justamente a falta de assistência médica. É por isso que Carmela e Juana podem ser vistas como aliadas, cuja sororidade fica evidente nos desafios que enfrentam nesse espaço de fronteira entre o Brasil e a Argentina.

“São mulheres que muitas vezes se veem no cinema, que estão à margem, com poucos recursos e com seus direitos violados”, explica o diretor. A primeira ideia ocorreu em 2012, ainda pensando em um curta-metragem; a versão inicial do roteiro data de 2013, com uma história que ainda se passava inteiramente em solo argentino.

Para Wallace, a exibição no festival de Belo Horizonte é importante e motivo de orgulho, tendo as atuações de Marina Merlino (Carmela) e Ailín Salas (Juana) como destaques.

“É o primeiro festival no Brasil então, para mim e para todos que fizeram parte do filme é muito emocionante ele está sendo apresentado em BH. É uma surpresa cada festival em que nos escolhem”, completa.

‘PERSONAGEM DESAFIADORA’

A atriz Marina Merlino estará em Belo Horizonte representando a equipe do filme durante o festival. Ela ressalta que a participação no longa “foi uma mudança de vida” e que respeita as mulheres que são representadas pela personagem Carmela.

“A Carmela é uma personagem desafiadora porque ela é muito forte em uma situação de muita fragilidade. Era um equilíbrio constante entre a vulnerabilidade e a firmeza”, afirma a atriz, que cita o desafio de “não cair em uma esparrela didática ou condescendente com essas pessoas”. “É uma mulher que tem um conhecimento e uma sabedoria de mundo que poucas pessoas têm. E com isso quero dizer que a precariedade não faz das pessoas fracas. Acho que o filme retrata uma coisa importante que é essa precariedade do sistema de saúde no que diz respeito à obstetrícia, porque a violência obstétrica é muito comum.”

No seu ponto de vista, “Las Preñadas” já teve uma “vida muito feliz” na Argentina, ficando em cartaz mais semanas do que era previsto. Com as mostras, espera-se a criação de um espaço de diálogo sobre a obra e a entrada nas salas de cinema do Brasil.

“Para mim, é um antes e depois [de fazer o filme]. Não só pela experiência no sentido da carreira, de ter feito esse longa, mas porque foi desafiador. Estava falando o filme em outro idioma, uma mulher grávida, andando na rua com muito calor. Tínhamos muitos desafios simultâneos, mas posso dizer que foi uma delícia. Sou muito grata por ter dado corpo à Carmela”, completa.

"Las Preñadas", coprodução Brasil-Argentina, que será exibida nesta quinta-feira (28) na Mostra CineBH,  também conta com um elenco infantil
"Las Preñadas", coprodução Brasil-Argentina, que será exibida nesta quinta-feira (28) na Mostra CineBH, também conta com um elenco infantil | Foto: 27-09-2023 Divulgação

SITUAÇÃO PARECIDA

Outra personagem importante no longa-metragem é a médica brasileira que atende as mulheres grávidas, que foi interpretada pela atriz londrinense Jackeline Seglin. As duas já passaram por uma profissional do lado argentino e recebem um atendimento automático, de uma média “anestesiada” pelo sistema em que está inserida.

Apesar de não ser uma figura afável no filme, ela ressalta que a cena é importante no roteiro “porque mostra que, seja lá de qual lado da fronteira você está, a situação é parecida”.

A atriz londrinense Jackeline Seglin interpreta uma médica que atende as grávidas em situação de vulnerabilidade
A atriz londrinense Jackeline Seglin interpreta uma médica que atende as grávidas em situação de vulnerabilidade | Foto: Divulgação

Além da sua atuação, Seglin trabalhou como assistente de produção, participando da escolha das locações e da seleção dos atores infantis, e ajudou como segunda assistente de direção, trabalhando com as crianças que entraram em cena.

“Era um trabalho que não estava previsto inicialmente, mas como eu já havia trabalhado no casting e conhecia algumas crianças, já tinha conversado, no set foi um trabalho meio que contínuo que aconteceu”, explica.

O filme ainda conta com mais dois atores londrinenses: Pedro José, que interpreta Aldo, marido de uma das protagonistas, e Eddie Mansan, que interpreta Cristian, dono de um prostíbulo e pai de uma das crianças do filme.