São Paulo - Adrian Kojin e Flávio Gomes são viajantes especiais - quando afivelam as malas, não saem em busca do tradicional, do amplamente conhecido, mas procuram o inusitado, recantos que não figuram em nenhum roteiro turístico. Seguindo a Fórmula 1 desde 1988, Gomes colecionou inúmeras histórias, algumas engraçadas, outras comoventes, e reuniu as melhores no livro ''O Boto do Reno'', recentemente lançado pela LetraDelta Editora. Já Kojin, também jornalista, cortou a América Latina em busca de experiências humanas para escrever ''Alma Panamericana'', que a Gaia acaba de publicar.
Kojin pode ser definido como um turista nada convencional. O jornalista percorreu 25 mil quilômetros em oito meses por 14 países da América Latina a bordo de uma moto Honda XL 600. Em 1987, quando partiu da Califórnia em direção a São Paulo, Kojin não conhecia o livro ''Diários de Motocicleta'', de Ernesto ''Che'' Guevara, mas afirma que sentiu a mesma emoção, a mesma descoberta da identidade latino-americana que o Che tanto defendia. Não por acaso, o livro que resultou desta aventura se chama ''Alma Panamericana'' (200 páginas).
''Quando a idéia da viagem surgiu, eu já tinha realizado o 'sonho americano', vivia bem nos Estados Unidos, mas aquilo não me satisfazia mais. Juntei a paixão por viajar com o sentimento nômade que todo surfista tem e caí na estrada'', conta Kojin, que hoje é diretor de redação da revista ''Fluir''. Mas o surfe, apesar de ser parte importante na viagem, não foi o seu maior prazer.
''Eu surfei muito em praias maravilhosas. Até batizei uma onda na Nicarágua, mas conhecer outros povos, passar por muitos países em guerra civil, como El Salvador e Equador; perceber o quanto nós, brasileiros, somos ao mesmo tempo tão diferentes e tão parecidos com o restante dos latinos foi revelador.''
O mesmo vale para ''Alma Panamericana''. ''Não é um livro para surfistas. É um relato de viagem que todos podem ler. Fiquei especialmente feliz quando descobri que tanto meu sogro, de 72 anos, quanto os amigos da minha filha, de 15 anos, contaram que adoram as histórias.'' Assim como a viagem, a idéia de escrever suas memórias surgiu por acaso. ''Costumo brincar que é fruto de um terremoto'', relata.
Depois de terminar a viagem, Kojin foi morar na Costa Rica, onde sua filha nasceu. ''Mas a vila em que morávamos foi literalmente partida ao meio. Então, decidi voltar para o Brasil.''
Desempregado, ele propôs para Sidão Tennuci, que comandava a marca de surfe OP, patrocinar o livro. ''Eu não sabia escrever tão bem, mas fui em frente. E deu certo.''
Já para Flávio Gomes, a descoberta de novos horizontes surgiu como consequência de seu trabalho de cobertura da Fórmula 1. Primeiro para a ''Folha de S.Paulo'', depois para mais de 60 jornais brasileiros por meio da Warm Up, agência que montou em 1995, mas sempre com um texto fluente, característica de seu trabalho.
A referência a motores é quase inevitável em todas suas crônicas, mas Gomes consegue cavar não apenas furos automobilísticos, mas também detalhes curiosos dos lugares que visitou, mesmo que rapidamente. Como a improvável cidade chamada Brazil, em pleno estado norte-americano de Indiana, até a descrição de turistas em diversas cidades, mostrando como os brasileiros se orgulham sempre de revelar (às vezes, escancarar) seu país de origem.

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