LANÇAMENTOS Telejornalismo em xeque
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 18 de outubro de 2002
Luiz Claudio Oliveira<br> Equipe da Folha 
Curitiba - O livro ''Telejornalismo e Violência Social'' é o primeiro produto do recém criado Instituto Cultural de Jornalistas, que promete lançar um livro a cada dois meses pela editora Pós-Escrito. O instituto surgiu em forma de cooperativa por professores da área de Comunicação do Centro Universitário Positivo (Unicemp) e a maioria dos livros traz reflexões sobre Jornalismo e Comunicação Social, mas também há espaço para ficção.
A primeira publicação do Instituto é da professora Zaclis Veiga, mestra em Multimeios pela Universidade Estadual de Campinas (SP) e analisa como as imagens são construídas dentro do telejornalismo. O livro é uma adaptação da tese de mestrado de Zaclis, que é professora de Jornalismo da Unicemp.
Ela adotou a expressão violência social para designar aquela violência que não é física, necessariamente, mas que mostra a ausência de ações governamentais ou da própria comunidade que retira ou dificulta o direito de ser cidadão a alguns membros da população brasileira.
Para aumentar a reflexão sobre violência social dentro da área de multimeios, ela decidiu analisar como as imagens são construídas e como interferem nas reportagens televisivas. Para isso, escolheu, naturalmente, o Jornal Nacional, da Rede Globo, como alvo de análise e destacou três reportagens específicas.
A primeira, na verdade duas seguidas, aborda a luta pela terra. A segunda, mostra uma nova destinação social de ex-votos de uma importante romaria. A terceira, sobre a abertura de poços artesianos no Nordeste para combate à seca. Escolhidas as matérias, ela passa a decupar as reportagens cena a cena para ter uma idéia de como foram construídas. Nisso foram consumidos quase dois anos de pesquisa e redação.
Zaclis mostra que na reportagem dos sem-terra a escolha foi feita pela edição dando preferência a uma informação em detrimento da outra, não menos importante. Neste caso houve a deliberação na escolha de imagens e texto para um posicionamento contrário à ação dos sem-terra.
No segundo caso, embora não tenha havido intenção de escolher um lado, a reportagem faz uma abordagem superficial e não contextualiza as informações, deixando-as soltas. A terceira seria um exemplo de reportagem mais completa, que permite a reflexão por não ser conclusiva.
''As três são da mesma rede de televisão, a Globo, e têm qualidade técnica dentro do padrão que prima pela estética, mas o tratamento é que difere'', explica Zaclis. Ela critica o fato do jornalismo televisivo, por muitas vezes, estar travestido como um espetáculo ao priorizar a forma. ''O Jornal Nacional está colocado entre duas novelas e entra na programação como mais um espetáculo, confundindo ficção e realidade'', afirma.
Ela defende que o Jornalismo televisivo tem que permitir a reflexão, o que provocaria o receptor da informação a lutar por uma sociedade mais justa. ''A imprensa pode contribuir para a ampliação da reflexão, o que levaria a atitudes novas, diferentes, em termos mais fraternos e mais justos, exterminando o pessimismo e a passividade, retomando a confiança da humanidade em si mesma e instaurando novos sistemas de valoração'', escreve a professora em suas conclusões. Porém, ela notou que isto ainda não é feito.
''Por questões técnicas, estéticas, políticas ou econômicas, o jornalismo, travestido de espetáculo, exime-se'', escreve a professora Zaclis Veiga, que conclui: ''A partir do saber que a informação jornalística, comprometida com o receptor, pode possibilitar, inicia-se a evolução do pensar social''.
SERVIÇO: Telejornalismo e Violência Social - A construção de uma imagem'' - livro de estréia da editora Pós-Escrito, escrito pela professora Zaclis Veiga, que pertence ao Instituto Cultural de Jornalistas do Paraná, ligados ao Centro Universitário Positivo (Unicemp). Maiores informações ou mesmo encomendas podem ser feitas pelo e-mail [email protected] ou pelo telefone (41) 317-3025.


