Nunca houve cineasta mais perfeccionista, ao lado de Orson Welles, o maior gênio do cinema americano. A obsessão criativa que tornou Stanley Kubrick (1928-1999) um dos grandes do século 20 pode ser revisitada pelos amantes do cinema em diversas facetas. São quatro lançamentos que mostram aspectos até então ignorados ou esquecidos do autor de ‘‘2001 – Uma Odisséia no Espaço’’. Um pacote de 8 DVDs, um documentário sobre a vida do cineasta, um livro de fotos realizadas pelo próprio Kubrick e a tão esperada estréia nos EUA do que seria o último filme de Stanley – ‘‘Inteligência Artificial’’ –, eis o presente aos cinéfilos.
A caixa de DVDs lançada pela Warner Home Video contém alguns de seus maiores clássicos: ‘‘Barry Lyndon’’, ‘‘Lolita’’ (esses dois permaneciam inéditos em vídeo no Brasil), ‘‘Laranja Mecânica’’, ‘‘Nascido para Matar’’, ‘‘O Iluminado’’, ‘‘2001: Uma Odisséia no Espaço’’, ‘‘Dr. Fantástico’’ e ‘‘De Olhos Bem Fechados’’. O lançamento do pacote nos EUA foi simultâneo ao reconhecimento do trabalho do cineasta em uma lista do American Film Institute, esquentando mais as vendas por lá.
Outro lançamento em DVD é ‘‘Stanley Kubrick: A Life in Pictures’’, documentário de 2 horas e meia dirigido pelo cunhado do cineasta, um alemão de 64 anos – Jan Harlan. Ele é irmão de Christiane, a esposa do diretor que soube defini-lo como ninguém à época de sua morte: ‘‘Seus filmes falavam sobre o medo’’, sentenciou a viúva, dizimando as especulações sobre as reais pretensões de ‘‘De Olhos Bem Fechados’’.
Com total apoio da família, Harlan devassou a vida particular do cineasta em entrevistas com seus parentes e com vídeos caseiros cedidos por eles. Kubrick, que não gostava de comentar suas obras com jornalistas, é registrado em toda a sua energia, seu processo criativo e sua relação com o cinema. O documentário também traz informações importantes sobre a realização dos filmes e revela pela primeira vez os projetos que o diretor tinha em andamento. Além de ‘‘A.I.’’, ele queria rodar ‘‘Aryan Papers’’ e acalentava desde os anos 70 uma cinebiografia de Napoleão Bonaparte.
‘‘Stanley Kubrick: A Life in Pictures’’, que está sendo lançado diretamente em DVD, sem passar pelas telonas, traz entrevistas com nomes importantes do cinema, como Steven Spielberg, Woody Allen, Martin Scorsese e o casal ‘‘antes da separação’’ Nicole Kidman e Tom Cruise.
Mas Spielberg não está junto a Kubrick só no documentário. Eles se uniram em 1998 para realizar o que pode se tornar o filme do ano: ‘‘A.I.’’, que estreou nos EUA na última sexta-feira e deve pousar por aqui em 7 de setembro. Kubrick fez o proprietário da DreamWorks instalar uma máquina de fax particular em seu quarto só para receber correspondências vindas de Londres. Até a sua morte, Kubrick enviou para Spielberg um tratamento de 90 páginas da história desenvolvida por Ian Watson e cerca de 600 desenhos conceituais que havia criado para o filme. Spielberg reuniu todas essas informações e montou seu primeiro roteiro-solo desde 1977, quando havia escrito ‘‘Contatos Imediatos do Terceiro Grau’’.
Mas a trama não é totalmente original. Kubrick ficou encantado com o tema quando se deparou com o conto de ficção-científica ‘‘Supertoys Last All Summer Long’’ (Superbrinquedos duram durante todo o verão), escrito por Brian Aldiss e publicado originalmente na revista ‘‘Harper’s Bazaar’’, em 1969. O conto de Aldiss é sobre um urso de estimação capaz de andar, falar e demonstrar emoção. Kubrick transformou esse enredo em uma história de um robô que tem sentimentos. Haley Joel Osment (o garotinho de ‘‘O Sexto Sentido’’) faz o papel desse robô, que é adotado por uma família depois que perdem um filho em acidente. Seu personagem fica amigo de um andróide interpretado por Jude Law, que tenta ficar cada vez mais parecido com um humano e satisfaz as necessidades sexuais dos humanos.
Os efeitos especiais têm surpreendido nos trailers de cinema e comerciais de TV, que já podem ser acessados pelo site oficial da produção: www.aimovie.com. Com a estréia, apareceram as primeiras críticas na Internet. Uma está no site Drudge Report e diz que o filme dividiu a platéia de uma sessão especial. Alguns consideraram o filme uma ‘‘obra-prima’’, como o empresário David Geffen, parceiro de Spielberg no estúdio DreamWorks, que chegou a chorar durante a projeção. Outra crítica positiva é de David Ansen, do site da revista Newsweek: ‘‘fascinante rico, estranho, cheio de mudanças de tom e feito com muita bravura’’. Mas para Matt Drudge, ‘‘A.I.’’ rendeu uma dor de cabeça, pois é uma ‘‘overdose de tecnologia’’. ‘‘Há muita interferência digital, na minha opinião. Haley Joel Osment é simplesmente fantástico, mas Steven Spielberg parece estar em uma corrida contra George Lucas para ver quem faz o filme mais barulhento.’’ sentenciou.
Se houve divisão entre os críticos, o público foi unânime. ‘‘A.I.’’ ficou no topo da bilheteria americana este fim de semana faturando US$ 30,1 milhões de sexta-feira a domingo. O orçamento oficial não foi divulgado, mas estima-se que ‘‘A.I.’’ tenha custado US$ 100 milhões para ser produzido.
Mas a criatividade de Kubrick não se limitava à sétima arte. Ele, que costumava dizer que a essência do cinema é o processo de montagem, seguindo os conceitos dos mestres russos Serguei Eisenstein e Dziga Vertov, adorava na verdade a imagem pictórica. O mestre do enquadramento – seus filmes sempre primaram pelo requinte na luz e na angulação de cada cena, antes de se tornar cineasta era fotógrafo. O livro ‘‘Stanley Kubrick – Photographies 1945-1950’’ traz fotos feitas pelo próprio Kubrick reunidas por Rainer Crone e Petrus Graf Schaesberg, pesquisadores do International Center for Curatorial Studies (Iccarus), de Munique, em parceria com a editora alemã Schnell & Steiner e (para a edição francesa) com a Fnac.
Aos 17 anos, em 1945, Kubrick se tornava o fotógrafo prodígio da Look, a revista semanal ilustrada mais prestigiada nos EUA. Antes, aos 16, ainda estudante num colégio no Bronx, em Nova York, já vendia suas primeiras fotos para a revista. As fotos, até hoje conhecidas por poucos fãs, pertenciam à revista e estavam enterradas com ela na Biblioteca do Congresso Americano. Seu estilo era próximo de mestres como Steichen, Moholy-Nagy e Gary Winogrand.
Mendigos, modelos, favelas, restaurantes, boxeurs, bebês, animais, celebridades – toda essa variedade compreendia a pauta habitual da Look na época. Suas fotos deviam contar uma história, realizar um ensaio sobre um objeto, não apenas retratá-lo, como dita o fotojornalismo. Algo como retratar a alma, não simplesmente a matéria. Os interessados podem ligar para a Fnac, que irá distribuir o livro no Brasil: (11) 3819-2119.

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