O baú do The Doors foi devassado outra vez. Mais uma série de lançamentos está prevista para chegar ao mercado nesta temporada intensificando o culto à banda, agora com a mãozinha providencial dos próprios músicos remanescentes.
Se Jim Morrison foi habitar outras dimensões, Ray Manzarek (o tecladista), Robbie Krieger (guitarrista) e John Densmore (baterista) continuam por aqui vasculhando seu espólio. Eles acabam de lançar o CD ‘‘The Bright Midnight Sampler’’, que reúne gravações ao vivo dos Doors nunca apresentadas ao público.
Por enquanto, o disco está à venda apenas na Internet (www.thedoors.com) pelo selo Bright Midnight, criado pelo trio para lançar exclusivamente material inédito da banda. O próximo lançamento será o CD ‘‘The Doors Live in Detroit’’, que registra um dos shows mais blueseiros da carreira da banda.
Ainda este mês deve sair dos fornos o álbum-tributo ‘‘Stoned Immaculate’’, gravado pelos três em companhia do escritor William Burroughs e dos artistas Marilyn Manson, The Cult, Aerosmith, Stone Temple Pilots, Bo Didley, John Lee Hooker, Creed, Chryssie Hynde, Smash Mouth e Exene Cervenka (do grupo X). Esse mesmo elenco está presente em um documentário que a rede de televisão VH1 gravou para ser exibido até dezembro.
A doorsmania atinge também o mercado brasileiro. A gravadora Warner colocou recentemente nas lojas a caixa ‘‘The Doors: The Complete Studio Recordings’’ contendo os seis CDs oficiais do grupo (faltou apenas ‘‘Absolutely Live’’, o álbum ao vivo de 1970). A caixa foi lançada no ano passado nos Estados Unidos com o disco-bônus ‘‘Essencial Rarities’’, omitido no pacote brazuca, reunindo 14 canções raras e uma performance ao vivo.
Curioso notar que todos esses lançamentos ameaçam já empaturrar os fãs antes da celebração dos 30 anos da morte de Jim Morrison, figura central da mítica em torno dos Doors. Morrison foi a encarnação máxima do herói romântico rebelde. Foi um demônio como vocalista de rock e um poeta herdeiro da linhagem dos malditos franceses Baudelaire, Verlaine e Rimbaud.
Já em 1967, ano do lançamento de seu primeiro disco à frente da banda, ele foi preso em New Haven por ‘‘atitude obscena em público’’. No meio do ano seguinte, nova prisão em Phoenix, Arizona, desta vez por desordem a bordo de um avião. Em março de 1969, durante um concerto em Miami, saiu do palco arrastado por policiais sob acusação de atentado à moral e aos bons costumes por ter abaixado as calças e simulado sexo oral.
No final da vida, deixou a barba crescer e descuidou da aparência desapontando os leitores da revista ‘‘Cosmopolitan’’, que o haviam eleito o rosto mais belo da América. Inchado e bebendo todas, Morrison mudou-se para Paris declarando aos amigos que queria largar a música pela literatura e pelo cinema.
Tornou-se fonte de inesgotável anedotário, que não poupou sequer sua morte, especulada até hoje como uma farsa. O motivo é que ninguém viu seu corpo no fatídico dia 3 de julho de 1971, quando teria sido encontrado numa banheira, vítima de um ataque cardíaco. A única testemunha, sua mulher Pamela Courson, morreria três anos depois de overdose de heroína.
Na ocasião, ela e os amigos do cantor só comunicaram a morte seis dias após o ocorrido. Para alguns, ele estaria vivo e anônimo trabalhando para a CIA. A piada já rendeu centenas de páginas de mau-gosto na imprensa mundial – e agora na Internet. No mês passado, o nome do cantor voltou ao noticiário com a possibilidade da transferência de seu túmulo do Pére Lachaise, o cemitério de Paris onde descansa ao lado de ossadas de gente ilustre como Oscar Wilde, Balzac, Moliére, Edith Piaf e Chopin.
A remoção foi cogitada em virtude das arruaças feitas por seus fãs, que já pilharam incontáveis vezes o famoso busto grafitado do ídolo. Como todo mito que se preza, Morrison renova seu público a cada temporada. Estima-se que os discos do The Doors vendam cerca de 3 milhões de cópias por ano, motivo suficiente para aguçar o apetite da indústria fonográfica.
Mas, paradoxalmente, há pouco de apelo comercial na música da banda, definida certa vez como ‘‘uma espécie de blues branco’’ pela crítica Ana Maria Bahiana. Sem Morrison, Manzarek, Krieger e Densmore tentaram em vão manter os Doors. Chegaram a gravar dois discos repelentes. Depois partiram para trabalhos-solo. Manzarek foi o que mais esteve em evidência, e fiel a sua trajetória, atuando em parceria com o poeta beat Malcoln McClure.
Nada do que fez, porém, sequer roçou a aura do legado dos Doors. O grupo estreou em 1967 com um disco homônimo combinando rock, blues, jazz e pitadas de folk. Trazia o hit ‘‘Light My Fire’’ (que alcançou o topo da parada americana de singles), a poderosa ‘‘Break on Through (To the Other Side)’’, a bela ‘‘The Crystal Ship’’ e a dramática ‘‘The End’’.
Incluía ainda as versões de ‘‘Alabama Song’’ (de Kurt Weill e Bertolt Brecht) e ‘‘Back Door Man’’ (Howlin’ Wolf e Willie Dixon). O álbum seguinte, ‘‘Strange Days’’ (também de 1967), dava continuidade ao anterior reunindo faixas como ‘‘Love Me Two Times’’, ‘‘People Are Strange’’, ‘‘Lost Little Girl’’ e ‘‘Moonlight Drive’’ (esta foi a primeira música que Morrison mostrou a Manzarek antes de fundarem os Doors).
No terceiro trabalho, ‘‘Waiting for The Sun’’ (1968), despontou o hit ‘‘Hello, I Love You’’ (que se tornaria hino do amor livre) e composições de cunho social como ‘‘Five to One’’ e ‘‘Unknown Soldier’’ (esta sobre a morte de 40 mil soldados no Vietnã, isso até 1968). O quarto disco, ‘‘Soft Parade’’ (1969), é o mais experimental do grupo.
‘‘Touch Me’’ e ‘‘Wild Child’’ são os destaques de um repertório cuja execução privilegiou metais e cordas nos arranjos. Na sequência veio ‘‘Absolutely Live’’ (1970), registro de uma apresentação no Madison Square Garden, com o vocalista mais contido cantando com menos displicência do que vinha fazendo no palco nos últimos anos.
No álbum posterior, ‘‘Morrison Hotel’’ (1970), o quarteto retoma as raízes do rock e do blues. ‘‘Roadhouse Blues’’, a faixa de abertura, consagrou-se como uma das prediletas dos integrantes em shows ao vivo. O disco traz ainda ‘‘You Make Me Real’’, ‘‘Queem of The Highway’’ e ‘‘Blue Sunday’’. O último disco com Jim é ‘‘L.A.Woman’’ (1971), lançado três meses antes de sua morte e no qual sua voz soa arranhada e quase irreconhecível.
Mas faixas como ‘‘Riders on the Storm’’, ‘‘Love her Madly’’ e a que dá título ao álbum garantem alguns minutos de vigor. A banda lançaria ainda ‘‘An American Prayer’’ (1978) com poemas de Jim musicados pelos demais componentes. Esse projeto, um suicídio comercial, está chegando por via indireta à geração clubber.
Das sobras da gravação desse material, o produtor e DJ inglês Fatboy Slim sampleou um trecho para a faixa ‘‘Sunset (Bird Of Prey)’’, incluída em seu recém-lançado CD ‘‘Halfway Between The Gutter and The Stars’’. É a voz de Morrison revivida por um dos papas da eletrônica. Nada mais contemporâneo.

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