LANÇAMENTOS - Herdeiros musicais
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terça-feira, 22 de outubro de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Os sobrenomes ilustres pesam. Mas a antes insistente comparação com os pais já não alimenta mais as implicâncias da crítica, nem parece incomodar os próprios filhos dos famosos.
Simoninha é filho de Wilson Simonal, Beto Lee é filho de Rita Lee e Davi Moraes é filho de Moraes Moreira. Os três estão lançando discos nesta temporada. ''SambalandClub'' (Trama) é o segundo trabalho de Simoninha. Com timbre de voz semelhante ao do pai, segue a tradição da black music tropical resgatando o samba jazz e outras fusões rítmicas sacolejantes.
O álbum reúne 13 faixas, sendo nove de sua autoria. Nas parcerias, divide a assinatura com Marcelo Yuka (em ''Essência''), Bernardo Vilhena (''Rei de Maio'') e Jair de Oliveira (''Saudade Machuca''). Entre os destaques do repertório consta um pout-pourri de ''Samba Carioca'' e ''Ela é Carioca'', clássicos da Bossa Nova de autoria de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, revisitados aqui com participação do lendário Jongo Trio em sua formação original.
O pai é homenageado duplamente com a inserção de uma vinheta garimpada nos arquivos da TV Record (na qual fala do líder negro Martin Luther King) e com a regravação de ''Tributo a Martin Luther King'', que Wilson Simonal compôs nos anos 60 em parceria com Ronaldo Bôscoli. A canção recebe uma citação de ''Cordão'', de Chico Buarque, e a participação do coral ''Just Sing Choir''.
Simoninha fez quase tudo no disco. Assinou a produção, os arranjos e ainda tocou violão, piano, órgão e baixo acústico. Em boa parte do material, tentou restaurar o clima dos anos 60 valorizando a seção de metais com técnicas de gravação da época, embora as bases soem contemporâneas. Ao final de ''Seja bem-vindo'', a faixa instrumental de encerramento, o CD embute um bônus trazendo uma entrevista de 10 minutos com Miéle.
De outra escola, Beto Lee também está pulando do estúdio com um disco debaixo do braço. Em ''Todo Mundo é Igual'' (Abril Music), o filho de Rita e Roberto de Carvalho estréia no mercado com um trabalho datado, recheado de riffs de guitarra hard anos-70. Aqui e ali, chega a lembrar Tutti Frutti, a banda que acompanhou a mãe em seus anos heróicos pós-Mutantes.
A vocação rock'n'roll não o impediu de recrutar parceiros de outras áreas. ''Paulista tem mania de virar a mesa / Bater na ponta da faca / Nadar contra a correnteza / Paulista tem mania de fazer tudo ao contrário...'' canta o garoto em ''Maníaco'', a faixa de abertura, uma das duas parcerias com Itamar Assumpção.
Na faixa-título, musicou letra de Gabriel O Pensador, cuja voz aparece num sampler gravado durante as conversas dos dois ao telefone. Autor de nove das 12 faixas do CD, Beto incluiu no repertório uma canção de Roberto de Carvalho (''Porta da Perdição''), uma versão do sucesso popularesco ''Fuscão Preto'' (Atílio Versutti e Jeca Mineiro) e uma composição do baterista de sua banda, Edu Salvitti (''Me diz''). Ouvido com atenção, ''Todo Mundo é Igual'' sugere que o menino não fez as lições de casa. Acabou legando para a posteridade um dos piores discos de 2001.
Desse vexame, pelo menos, Davi Moraes se livrou com o lançamento de ''Papo Macaco'' (Universal). Misturando percussão baiana com timbres inclassificáveis de guitarra, que soam a Arto Lindsay, o filho de Moraes Moreira e marido de Ivete Sangalo revela-se um multiinstrumentista respeitável. Além da guitarra, toca baixo, teclados, vocoder e percussão acústica e eletrônica.
De sonoridade contemporânea, o disco não oculta as influências do artista: lembra Caetano Veloso em ''Ça Va'', remete a Talking Heads em ''Na Massa'' e ecoa Lenine em ''Favela''. O caldo de referências resulta em momentos interessantes e passagens dispersivas. Mas Davi merece um desconto. Ouvido sem pressa, revela-se um artista promissor.


