Quem pensa que já viu tudo sobre o modernismo brasileiro ainda pode se deleitar. Seja por entrar em contato com alguma coisa inédita, seja por ver reunidas de forma criativa algumas preciosidades do movimento cultural que ainda dá o que falar. Será lançada hoje na Pinacoteca do Estado, em São Paulo, a ''Caixa Modernista'', concebida e organizada pelo professor de Letras Modernas da USP, Jorge Schwartz. O que ele fez, ao longo de três anos de trabalho, foi garimpar fac-similes de livros, postais, fotografias, reunindo-os numa ''caixa'' que deve chegar às livrarias nos próximas semanas. Entre as reproduções de obras modernistas há também um CD com músicas significativas do movimento, mas que às vezes antecedem a Semana de 22, como é o caso de uma composição de Ernesto Nazareth de 1905. Entre os inéditos está um datiloscrito do programa da Semana - encontrado por Carlos Calil, professor da USP, no acervo de Paulo Prado - que, sem dúvida, pode ser visto como um biscoito fino da caixinha de surpresas.
Quem se depara com o conteúdo dessa mini ''galeria'', recheada de objetos artísticos, tem a impressão de ter encontrado uma relíquia cuidadosamente guardada pelos avós e que, resgatada no tempo, traz para os dias de hoje peças muito caras à memória nacional. Na ''caixa'' concebida por Schwartz, destacam-se os fac-similes dos livros ''Paulicéia Desvairada'', de Mário de Andrade, e ''Pau Brasil'', de Oswald de Andrade, uma cópia integral do primeiro número da ''Revista Antropofágica'' (1928), a reprodução do catálogo da célebre exposição de Tarsila do Amaral em Paris (1928). Entre as fotografias, o retrato da visita do futurista Marinetti a uma favela do Rio, em 1926, aparece como raridade escolhida a dedo.
Para reunir os objetos numa única embalagem - a ''caixa'' na verdade é um grande envelope - Jorge Schwartz inspirou-se em projetos como as ''boites-en-valise'' do francês Marcel Duchamp (1887-1968) e a box art do norte-americano Joseph Cornell (1903-73). Mas o seu conteúdo é genuinamente brasileiro, com aquele viés de sofisticação próprio do modernismo tupiniquim trés chic. A tiragem inicial é de 3 mil exemplares, mas novas edições devem vir por aí. O banquete antropofágico ainda alimenta projetos culturais e suas variações parecem não ter fim.

Serviço:
- Lançamento da Caixa Modernista, concebida e organizada por Jorge Schwartz. Projeto conjunto da Edusp, Editora da Universidade Federal de Minas Gerais e Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Hoje, às 11 horas, na Pinacoteca do Estado (Praça da Luz, 2) em São Paulo.

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