LANÇAMENTOS - Anita Malfatti em dose dupla
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 26 de outubro de 2006
Antonio Gonçalves Filho<br> Agência Estado 
Quatro décadas de pesquisas da professora Marta Rossetti Batista, do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, resultaram na mais ampla investigação sobre os antecedentes do modernismo brasileiro, a biografia da pintora Anita Malfatti (1889-1964), que chega às livrarias na segunda quinzena de novembro. ''Anita Malfatti no Tempo e no Espaço'' (Editora 34/Edusp) é a primeira edição completa da longa pesquisa que Marta Rossetti empreendeu sobre a artista da Semana de 22, orientada pelo professor Flávio Motta. Ela começou quando Anita estava viva, morando em Diadema e afastada do circuito de arte. Dessa pesquisa, resultados parciais foram divulgados há quase 30 anos na retrospectiva da pintora e finalmente publicados em 1981 pela IBM. Editada a parte monográfica, ficou faltando o catálogo da obra da pintora, que aparece agora num segundo volume acoplado à sua biografia.
São 1.262 obras catalogadas até o momento, entre esboços, desenhos e pinturas. Algumas delas tiraram o sono da pesquisadora. Ela custou a aceitar que o mergulho de Anita no universo acadêmico, após a crítica de Monteiro Lobato à exposição de 1917, tenha resultado numa paisagem da ilha de Monhegan, pintada em 1919 à maneira de Pedro Alexandrino, seu mestre. Como se sabe, são as paisagens da ilha de Monhegan, nos EUA, realizadas entre 1914 e 1915, que constituem o ''ano zero'' da modernidade de Anita, então livre para se entregar a gestos expansivos e pinceladas expressionistas.
Marta Rossetti privilegiou, desde o início de suas pesquisas, coleções específicas como as da família, alunos e amigos da artista, além, é claro, do acervo da própria Anita, que ela conservou consigo até a morte, transferido depois à irmã Georgina Malfatti e, após seu falecimento, às mãos de cinco sobrinhas. A pesquisa envolveu ainda a documentação de coleções de parentes e entrevistas com contemporâneos da artista, levantando um total de 235 óleos, 914 desenhos, 23 pastéis, 62 aquarelas e 28 gravuras. Em muitos casos, a pesquisadora não teve sucesso em localizar as pinturas ou seus colecionadores. A contribuição da pesquisadora para os estudos sobre Anita Malfatti e o modernismo brasileiro é inestimável. Graças a ela, caíram por terra muitos mitos sobre os modernistas. Na biografia, revista e atualizada pela autora, ela percorre meio século da trajetória artística da pintora para concluir que existiram, de fato, três Anitas: a primeira, dos anos de formação (1914/15, nos EUA), expressionista e à vontade com sua vocação moderna; a segunda, pressionada e contida após as críticas de Lobato à exposição de 1917; e, finalmente, a terceira, em paz consigo mesma, afastada das polêmicas modernistas e em busca de suas raízes ingênuas, período em que produziu obras quase primitivas.
Isso não significa que Anita tenha abdicado de complexas questões formais. Apenas que estava mais interessada numa relação simbiótica entre arte e natureza. De qualquer modo, a biógrafa classifica como seu melhor período o da fase americana, em que, desvinculada da academia, tomou contato com a pintura de Homer Boss (1882-1956) e teve a liberdade para exercer com força seu lado expressionista. Canhota por necessidade (ela nasceu com defeito no braço direito), Anita viu-se livre e sem limitações para pintar homens amarelos, mulheres de cabelos verdes e paisagens antinaturalistas com invejável liberdade.
''O defeito na mão direita explica muita coisa'', garante Marta Rossetti, atribuindo parcialmente o gesto expansivo dessas paisagens a uma necessidade íntima de superar suas limitações físicas. Sobre o período alemão, em que descobriu o expressionismo em sua fase embrionária, a incógnita permanece. ''São raras as obras produzidas durante o período em que foram localizadas'', revela a pesquisadora. Anita chegou a Berlim em setembro de 1910, teve aulas com Fritz Burger e Lovis Corinth.
Voltando ao Brasil em 1916, Anita já estava formada com 27 anos, ao preparar a exposição que tanto choque provocou na sociedade burguesa paulistana da época. ''Sempre se diz que o modernismo começou com essa exposição, mas não é bem assim'', garante a biógrafa. A pintora passou três anos traumatizada, até ser convencida pelos modernistas a abraçar a causa. ''Mais que revolucionária, ela queria ser uma profissional e viver da pintura, temendo que as críticas afastassem os colecionadores'', analisa a pesquisadora, derrubando outro mito: a da vocação transgressora de Anita.


