LANÇAMENTO Talento revisitado
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sexta-feira, 04 de abril de 2003
Beatriz Coelho Silva<br> Agência Estado 
O compositor Humberto Teixeira, parceiro mais conhecido de Luiz Gonzaga na maioria dos clássicos do rei do baião, não precisou esperar uma data redonda para ter uma homenagem à altura de seu talento e importância. Já está nas lojas o disco ''O Doutor do Baião'', da gravadora Biscoito Fino, com o registro de seus principais sucessos, interpretados por uma constelação de nordestinos, aos quais se misturou o carioquíssimo Zeca Pagodinho, o não menos mineiro Wagner Tiso, autor dos arranjos, e Chico Buarque, descendente de nordestinos, mas nascido e criado entre São Paulo e Rio.
Das 18 faixas, 14 foram gravadas no show do Prêmio Rival-BR de Música, que entregou o troféu Humberto Teixeira a oito categorias. A festa, em agosto do ano passado, foi uma confraternização de executivos e artistas à parte das grandes gravadora, com homenagens ecléticas: da veterana Elza Soares (melhor cantora) ao mais que alternativo Jongo da Serrinha (o jongo é um antepassado do samba, ainda cultuado em Madureira, zona norte do Rio, e no interior dos Estados do Rio e de São Paulo; o prêmio foi pela resistência), sem esquecer a estrela Zeca Pagodinho (na categoria atitude), o jovem grupo Cordel do Fogo Encantado e o mentor das idéias que se premiavam, Hermínio Bello de Carvalho (melhor produtor).
O show permeou as premiações, com a veterana Carmélia Alves (que cantou ''Baião'', antigo sucesso dela) abrindo espaço para a novata Rita Ribeiro (''Sinfonia do Café''), mais Elba Ramalho terçando vozes com Fagner (''Légua Tirana'') ou sozinha (''Paraíba'' e ''Assum Preto''). Fagner solou ''Dono dos Teus Olhos'' e ''Xanduzinha''.
Houve ainda Lenine suingando ''Respeita Januário'' e ''Qui nem Jiló'' e o ministro da Cultura, Gilberto Gil, com ''No Meu Pé de Serra'' e ''Juazeiro'' (ecos da sua penúltima turnê, que resultou no documentário ''Viva São João''). A Zeca Pagodinho coube o samba ''Deus me Perdoe'', parceria de Humberto Teixeira com Lauro Maia, pouco identificada com os autores, por sair do estilo que os consagrou.
Só aí já estava bom, mas tem mais. As faixas gravadas em estúdio trazem Maria Bethânia numa delicada versão de ''Asa Branca'' (canção que encerrou o show, com todos os participantes), Caetano Veloso, malicioso, em ''Baião de Dois'', Gal Costa e Sivuca em ''Maria Fulô'' (parceria dele com Humberto Teixeira) e Chico Buarque cantando ''Kalu'', chorosamente. Tudo com arranjos de Wagner Tiso, que atualizou os arranjos e, ao mesmo tempo, permaneceu absolutamente fiel ao Doutor do Baião.
O apelido surgiu nos anos 40, quando Humberto Teixeira, cearense (Gonzaga era pernambucano), também advogado e político (foi deputado federal), começou a fazer sucesso. Ele era músico desde a adolescência, mas o curso de Direito no Rio quase interrompeu a carreira.
Em 1943, gravaria a primeira música, a ''Sinfonia do Café''. A parceria com Luiz Gonzaga começou em 1945. Os dois queriam divulgar a música do Nordeste e logo fizeram sucesso com ''Baião'', gravada pelo grupo vocal Quatro Ases e um Coringa. A partir de então, viraram estrelas pois Gonzaga, até então só instrumentista, decidiu cantar as composições da dupla.
Na época do show, a Biscoito Fino prometeu lançar também um DVD, mas o projeto cresceu e será documentário, dirigido pela atriz Denise Dummont, filha do compositor, e por Ana Lontra Jobim. O espetáculo é apenas um quarto do filme, que ainda capta recursos para produção, mas terá entrevistas com gente que conviveu com Humberto Teixeira e imagens dele (que são raras) para contar uma história que não terminou com o fim da parceria com Luiz Gonzaga, em meados dos anos 50.
Eleito deputado pelo Ceará (tendo o parceiro como cabo eleitoral), Humberto batalhou pelos direitos autorais e pela divulgação da nossa cultura no Brasil e no exterior. A bossa nova ignorou sua música, mas a Tropicália a reabilitou, para torná-la clássica.
Ao morrer, em 1979, com 63 anos, Humberto Teixeira era pouco lembrado, mas suas músicas estavam consagradas. O disco ''O Doutor do Baião'' vai reavivar a memória nacional.
O próximo Prêmio Rival-BR vai homenagear o cantor Jamelão com um show nos mesmos moldes e troféus para oito categorias, no dia 4 de junho. ''Vai ser gravado, mas ainda não negociamos seu lançamento'', adiantou a diretora do Rival-BR, Ângela Leal, mentora intelectual do prêmio e do disco de Humberto Teixeira.


