LANÇAMENTO 'Onze minutos' é consagrado ao sexo
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sexta-feira, 18 de abril de 2003
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
Tão comum quanto o nome é a história de Maria. Seria ela uma Maria ninguém ou a mais não tivesse sua trajetória servido de base para a literatura fast-food de Paulo Coelho. Biografia não. Digamos um romance repleto de clichês em que o autor até convence que a prostituição pode ser tratada com isenção de ânimos e julgamentos em alguns casos. Em ''Onze Minutos'', 11º livro, Paulo Coelho quis abordar o lado sagrado do sexo. ''Sagrado é a comunhão do corpo e da alma. Todo o resto é profano'', disse ele em entrevista exclusiva à Folha2
A personagem central, escondida sob o fictício nome de Maria, é, em breves palavras, mais uma das tantas mulheres que ilustram a vergonhosa situação de exploração sexual de brasileiras no exterior. O tema já rondava a mente de Paulo Coelho. A semente foi plantada na Itália, em 2000, quando uma prostituta de nome Sônia lhe entregou os manuscritos de suas aventuras e desventuras. Encantou-se, mas foi numa sessão de autógrafos em Genebra, Suíça, que Maria o arrebatou com suas histórias de vida repassadas a um diário.
Pronto, surgia a fio condutor de ''Onze Minutos'', título inspirado no romance ''Sete Minutos'', de Irving Wallace, lançado nos anos 70. No material de divulgação, Paulo Coelho faz questão de frisar que o livro, seríssimo canditato a best seller, com exceção em países de origem muçulmana, não se propõe a ser um estudo profundo sobre sexo. ''O que me interessa, verdadeiramente, é a abordagem das pessoas com relação ao sexo'', informa.
O escritor diz que se situou o mais próximo da realidade para tratar a vida de Maria, descrita como ''bela morena de olhos claros e cabelos escuros como as asas da graúna''. Nascida no interior nordestino, Maria conhece o amor em seu estado mais puro e também as frustrações. Dá duro na vida, consegue um emprego e tem como meta conhecer o Rio de Janeiro. Consegue chegar à Cidade Maravilhosa onde sua beleza desperta a atenção de um empresário suíço que a convence ir à Europa para transformar-se numa grande estrela do show biz. Vai. É uma armadilha. O estrelato, na verdade, é um trabalho semi-escravo de dançarina-prostituta.
O que diferencia Maria de outras mulheres é, pelo menos no livro de Paulo Coelho, a consciência de que apesar dos pesares ela não pode vacilar. E o processo de embrutecimento paralisa-se quando conhece e deixa-se conhecer por um certo Ralf Hart. Enfim, mais um livro de Paulo Coelho, cujo conteúdo se salva pela inserção de fragmentos do diário de Maria. Nada mais que com conto de fadas moderninho.
Confira os principais trechos da entrevista de Paulo Coelho.
As cartas de Maria são muito bem escritas. A personagem em si não merecia uma biografia?
Biografia não é a minha. As idéias que eu abordo nas cartas de Maria são baseadas num livro de Antonella Zara, chamado ''A Ciência da Paixão''. Não queria escrever uma biografia e sim escrever as coisas mais sintomáticas no percurso de Maria e desenvolver um livro que tratasse da aproximação do corpo e da alma, que ainda é muito confusa.
Que ponto a personalidade da Maria te pegou?
É uma pessoa brilhante eu diria e o que me cativou foi justamente o atravessar dela por essas zonas sem amor... Num primeiro contato ela se deteve muito pouco em sexo e na vida pessoal. Falou muito de como as pessoas condenadas a viver sem amor são realmente mais pobres que aquelas que não têm o que comer, beber ou dormir. A partir daí veio uma segunda conversa e começamos a abordar mais o tema do corpo e da alma e a coisa começou a caminhar por aí.
Para abordar a prostituição, você seguiu que ponto de vista: pessoal, editorial ou mercadológico?
Não existe um ponto de vista mercadológico porque se eu escrevesse sobre guerra iriam dizer que isso é mercadológico. Então essa idéia 'mercadológica' não se sustenta. Editorial tampouco porque tenho liberdade para escrever o que quero. É intuição pessoal mesmo.
Você transpôs o início da vida da Maria para o Nordeste. É uma metáfora para falar sobre aridez de sentimentos?
Não. Nesse ponto eu fui mais próximo da realidade. É que a Maria nasceu no Nordeste.
O que há mais, digamos, de referências verdadeiras?
A ida para a boate, a primeira noite, entre outras coisas.
Tudo bem. Seu livro é baseado em fatos reais, então de zero a dez quanto há de realidade...
O que você entende por realidade?
Até que ponto Maria de fato passou pelo o que está descrito no livro?
Você está descontando algumas mudanças para proteger a identidade dela?
Pode ser...
Eu diria uns sete
No livro você se isenta de julgamentos pessoais sobre prostituição. Não teria romanceado demais o assunto?
Eu fiz a coisa mais próxima da realidade possível.
É?
É. No caso, a personagem que escolhi passou por tudo aquilo que está no livro.
Onze Minutos. É ao seu ver ou ao ver de Maria o tempo de uma relação consumada seja ela em que condições forem?
Exatamente.
Você diz, no material de divulgação, que se propôs a escrever sobre o lado sagrado do sexo. Que lado sagrado especificamente é esse?
O que entendo por lado sagrado é a comunhão do corpo e da alma. Todo o resto é profano. Acho que existe todo um apredinzado e acredito que esse aprendizado é em direção ao sagrado. E esse processo em si não é condenável.
Lá pelas tantas, aparece Ralf Hart, uma espécie de salvador de Maria. E tem como pano de fundo o caminho de Santiago...
Eu faria uma pequena correção. O Ralf não é o salvador porque ambos se salvam. No fundo quem vai pedir ajuda é ele. Ele tem muito de autobiográfico.
Autobiográfico?
Sim.
Daí a co-relação com o caminho de Santiago?
Se o caminho de Santiago passa por Genebra por que mudar?
Você tem livros publicados no mundo inteiro, inclusive em países muçulmanos em que sexo e prostituição são tabus. Como fica com ''Onze Minutos''
Eu acho que em alguns países o livro será censurado. Eu não quero cair em detalhes, mas já recebemos informações a respeito. O que eu posso fazer? Eu não escrevo um livro pensando em agradar a ninguém. Eu tenho que escrever livros que expressem minha alma.
Maria leu?
Ela leu os manuscritos em outubro.
Atualmente ela faz o que?
É casada, dona-de-casa. O marido é piloto de avião. Mora em Lausanne, perto de Genève
Pergunta pessoal, responda se lhe convier. Sexualmente você já destrambelhou muito?
Muito. Principalmente na chamada geração hippie.
E atualmente?
Depois dessa fase, veio o equilíbrio, o equilíbrio ativo.
Academia Brasileira de Letras. Você se sente confortável lá?
Muito. São pessoas que têm idéias divergentes e a maior riqueza que podemos ter é poder conviver com gente que não pensa exatamente como a gente. Isso acrescenta.
E os hábitos, como o chazinho...
Aliás o chazinho é uma delícia. Mas não posso frequentar tanto porque viajo muito. Mas sempre que posso eu vou.
E essa guerra, que coisa não?
Patética, não?
Bill Clinton leu um livro seu. Bush leria?
(rindo). Não sei...
A pergunta é idiota mesmo. Na verdade o que eu quero de você é uma análise sobre o que acontece.
Fiz um artigo chamado ''Obrigado, presidente Bush'' que circulou pela internet de uma maneira bárbara. (NR) (O artigo pode ser lido na página paulocoelho.com.br). Eu acho que a guerra é a pior de todas as escolhas. O que me assusta é que quem mais sofre é a população civil.


