LANÇAMENTO Inventário intelectual
PUBLICAÇÃO
sábado, 25 de setembro de 2004
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Ele era uma pessoa tímida, não queria reunir seus artigos, publicados nos principais jornais do País, em livro por acreditar que a iniciativa soaria como autopromoção. O advogado, professor e escritor Manoel de Oliveira Franco Sobrinho, morto em 2002, escreveu mais de 2 mil artigos. Chegou a publicar 50 livros jurídicos, além das crônicas sobre as questões políticas e sociais do Brasil. Agora, 154 crônicas escritas entre as décadas de 70 e 90 ganham espaço numa única obra: ''O Cidadão'', com lançamento independente da fundação que leva o nome do autor.
O material foi selecionado pela família do advogado, com ajuda de amigos que conviveram com o intelectual. São artigos que, apesar de datados, continuam extremamente atuais. ''Esse foi o critério de seleção para escolhermos os textos'', conta Manoel Antônio de Oliveira Franco, filho do autor. ''A idéia era reunir artigos cuja temática não ficou no passado.'' Partindo desse conceito, o livro traz opiniões de situações que já se tornaram característica do povo brasileiro e, infelizmente, não ganharam desfecho favorável. A crise da educação, a moeda brasileira e a paranóia política (como ele mesmo definiu) do País são alguns dos temas abordados.
Manoel Antônio, um dos três filhos do advogado, revela que teve dificuldade em selecionar os artigos diante da vasta produção do pai. ''Eu encontrei mil artigos publicados desde a década de 30 em um livro de recortes'', conta. São textos publicados em revistas como a extinta ''Manchete'' em jornais paranaenses e nacionais. Outros mil artigos jurídicos também foram selecionados, mas a escolha do também advogado Manoel Antônio foi por uma temática que não se perdesse no tempo.
Um exemplo é a crônica intitulada ''O presente de hoje e o futuro de amanhã'', escrita há quase dez anos, em que o escritor diz: ''Sejamos sinceros: no Brasil que estamos vivendo, desemprego e aposentadoria fazem o destino da grande maioria dos brasileiros. Quanto aos velhos, estão excluídos do mercado de trabalho. Também velhos, os aposentados, depois de anos de atividades constantes, se vêem sujeitos a um salário de fome, que não paga o simples ato de existir.''
Franco Sobrinho tinha fama de pessimista, mas o próprio autor reitera o título em outro dos seus artigos (''Crônica da desesperança'', 1998): ''Não digo que me faltem esperanças. Ainda sou um bom ingênuo, pois acredito em milagres. Sofro, porém, quando vejos desvios de conduta administrativa. Quando sei que esta nação ainda está sendo violentada. Quando assisto, sem nada poder fazer, à ignorância ditando decisões autoritárias (...)''
Manoel de Oliveira Franco Sobrinho foi jurista e professor de Direito. Foi, aliás, o professor mais novo nomeado na década de 30, aos 27 anos, perdendo apenas para Assis Chateubriand, que já tinha se aposentado quando ele começou a lecionar. Além de contribuir para os mais importantes jornais do País (como a ''Folha da Manhã'', atual ''Folha de São Paulo''; ''O Globo'' e ''O Estado de São Paulo'') também atuou na política, sendo deputado estadual por duas legislaturas.
''O Cidadão'' é o segundo livro publicado pelo Instituto Manoel de Oliveria Franco Sobrinho. O próximo lançamento deve ser uma biografia do advogado, que já está sendo escrita pela professora paranaense Etelvina Trindade. Já as obras ainda inéditas do advogado, como uma vasta produção literária, deve permancecer desconhecida do público. A intenção da família, no entanto, é publicar parte da obra do autor em um site do instituto, que ainda está fora do ar. ''Não queremos publicar os artigos em livro, mas queremos que os interessados tenham acesso à obra. Nossa intenção não é o lucro'', justifica Maneol Antônio.
A renda obtida com a venda do livro ''O Cidadão'' será doada para a Fundação Pró-Renal, entidade filantrópica que ajuda doentes renais.
Serviço:
- Lançamento do livro ''O Cidadão'', de Manoel de Oliveira Franco Sobrinho, amanhã, às 19 horas, na Livrarias Curitiba do ParkShopping Barigui.


