Estava prevista uma entrevista por telefone. Mas os compromissos marcados em várias cidades do país, ao longo da semana, congestionaram a agenda de Daniel Filho adiando a conversa para um tSte-a-tSte amanhã em Londrina.
No corre-corre, nem sua assessoria soube informar com precisão quem viria acompanhá-lo ao Paraná, onde vem promover o filme ‘‘A Partilha’’ e lançar o livro ‘‘O Circo Eletrônico – Fazendo TV no Brasil’’ (Jorge Zahar Editor).
A programação vai ser intensa. Amanhã, ele participa da pré-estréia do longa no Cine Catuaí e de uma sessão de autógrafos na livraria Bom Livro. No dia seguinte, participa de um debate com a comunidade universitária no Anfiteatro Maior do CCH, na UEL.
Na quarta, junta-se ao elenco do filme em Curitiba, onde também participa de um debate na Universidade Tuiuti. A pré-estréia do longa acontece um dia antes na Capital, com a presença confirmada da atriz Glória Pires. As duas exibições fazem parte do projeto Sessão Brasil, idealizado com o objetivo de divulgar e debater o novo cinema nacional.
Mas para muitos, os motivos da viagem fogem do perfil do visitante, mais conhecido como homem de televisão e figura de proa do departamento ficcional da Globo. O fato é que, aos 64 anos, Daniel Filho parece querer diversificar cada vez mais suas atividades. Além do filme e do livro, ele acaba de produzir o novo disco da cantora Gal Costa, em parceria com o maestro Wagner Tiso.
‘‘Gal de Tantos Amores’’ chega às lojas este mês. O cinema, todavia, nunca lhe foi estranho. Ele foi ator em filmes importantes como ‘‘Os Cafajestes’’ (de Ruy Guerra), ‘‘Boca de Ouro’’ (Nelson Pereira dos Santos), ‘‘Os Herdeiros’’ (Cacá Diegues) e ‘‘Beijo no Asfalto’’ (Bruno Barreto). Só depois foi trabalhar na TV, consagrando-se como diretor da Globo a partir de 1966, após passagens pela emissoras Excelsior e Tupi.
Com fama de arrogante e prepotente, renovou o padrão dramatúrgico com sucessivas novelas e minissérie ajudando a transformá-los nos principais produtos de exportação da indústria audiovisual do país. Foi o idealizador das minisséries ‘‘Malu Mulher’’, ‘‘Carga Pesada’’, ‘‘Mulher’’ e da novela ‘‘Dancin’Days’’.
Desligou-se há dez anos da Central Globo de Produções para dirigir a Globo Filmes, materializando um antigo sonho de fazer cinema. É o universo da telinha, contudo, que recheia as 360 páginas de seu livro ‘‘O Circo Eletrônico’’. Sem apelos bombásticos, do tipo ‘‘acerto de contas’’, o volume não traz nenhuma revelação de bastidores recusando o caminho sempre esperado pelos detratores da Globo.
Organizado em 15 capítulos, trata com didatismo dos mais variados assuntos ligados ao mundo da TV como produção, direção, escalação de atores, iluminação, trilha sonora, audiência e concorrência. Sobre este último tópico, diz sem meias palavras que as emissoras rivais da Globo padecem de desorientação.
‘‘Não que as outras estações não sejam profissionais, mas a gente sente que os objetivos não são os mesmos. Não se vê nas outras emissoras a mesma intenção de criar produtos para o mercado. O que se vê é uma incerteza total na programação. Cada dia, uma coisa. Ou então é a história do dono, sozinho, que manda na programação. Ou estações que servem a fins políticos ou religiosos. Tudo é coisa que nasceu pequena, para ser pequena’’.
Com prosa fluente, o autor dá uma aula de como fazer televisão. Conta como são feitos os programas, quem são os profissionais envolvidos, o que fazem, o que é um trahalho de equipe e como funciona a engrenagem dessa máquina tão poderosa e influente. Dedica um capítulo à Janete Clair, incluindo um fac-símile e análise do primeiro capítulo da novela ‘‘O Pecado Capital’’.
A edição é ilustrada com centenas de fotos, storyboards, plantas de cenários e desenhos de figurinos. Mestre indiscutível da carpintaria televisiva, Daniel Filho ambiciona estabelecer reputação também na sétima arte, deslanchando suas idéias como diretor artístico da Globo Filmes. Está envolvido em vários projetos.
‘‘A Partilha’’, o longa que tem estréia oficial na próxima sexta-feira, é baseado na peça homonônima de Miguel Falabella. Conta a história de quatro irmãs que confrontam suas vidas, emoções e afetos após a morte da mãe. Enquanto aguardam a divisão dos bens, elas viverão intensamente suas afinidades, problemas e diferenças. É um filme sobre dramas e comédias do cotidiano.
O elenco traz Glória Pires (‘‘Selma’’), Andréa Beltrão (‘‘Regina’’), Paloma Duarte (‘‘Laura’’) e Lilia Cabral (‘‘Lúcia’’) nos papéis principais. Daniel Filho e Miguel Falabella assinam o roteiro ao lado de João Emanuel Carneiro e o norte-americano Mark Haskell Smith. Orçado em R$ 3 milhões, é uma co-produção entre Globo Filmes, Columbia Pictures e Lereby Produções.
A direção musical é de Nelson Motta e trilha de Ed Motta. Além de ‘‘A Partilha’’, Daniel Filho toca as adaptações cinematográficas de ‘‘O Caramuru’’ e ‘‘A Vida Como Ela ɒ’ e levanta a produção dos filmes ‘‘Carandiru’’, de Hector Babenco, ‘‘O Redentor’’, de Cláudio Torres, e ‘‘Cidade de Deus’’, de Fernando Meireles. Anuncia ainda a compra dos direitos do livro de Lucinha Araújo, ‘‘Só as Mães são Felizes’’, sobre Cazuza.
É esse sujeito incansável que chega a Londrina amanhã para cumprir a estafante mas necessária agenda de lançamento de suas mais recentes criações.

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