LANÇAMENTO Diário manchado de sangue e vinho
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 28 de maio de 2003
Célia Musilli<br> Reportagem Local 
No ano passado, entre pilhas de textos que renderiam muitos livros, a jornalista Maria Angélica Abramo garimpou relatos de Antonio Saperas Espasa - um catalão que viveu em Londrina do início dos anos 50 até os anos 80 - sobre sua participação na 2 Guerra Mundial. Os textos fazem parte de um amontoado de obras acabadas e inacabadas encontradas numa velha biblioteca de uma residência no Jardim Califórnia, na zona leste da cidade. Até a organizadora de parte das memórias de Saperas debruçar-se sobre esses arquivos, só se sabia que o catalão havia sido uma figura emblemática em Londrina, onde muitos estrangeiros desembarcaram trazendo na bagagem histórias silenciosas que vêm sendo descobertas aos poucos.
Saperas, além de combatente da 2º Guerra, tinha como ofício a marcenaria e era um exímio artesão da madeira. E foi também como uma artesã que Maria Angélica resgatou suas memórias de guerra, relatadas primeiro num manuscrito em catalão e depois vertidas para o português nas letras de uma velha máquina Olivetti. O texto é um testemunho das agruras e desilusões do jovem que se alistou no exército do general Francisco Franco (1892-1975) também para comer, num tempo em que os alimentos eram escassos na Espanha.
Os relatos de guerra de Saperas, agora compilados no livro ''Diário de uma Contraguerrilha Catalã'' - publicado pela editora Letra D' Água , com recursos do Promic - Programa Municipal de Incentivo à Cultura - , poderiam ainda estar dormindo no tempo, mas tomaram forma na obra que será lançada hoje, simultaneamente, em Londrina e Curitiba.
Em Londrina, na Biblioteca Pública, às 20 horas, a viúva de Saperas, Maria Cândida, e os seus seis filhos apresentam a obra. Em Curitiba, a convite do Centro Cultural Brasil-Espanha, Maria Angélica Abramo faz o lançamento às 19h30. Um pouco antes, às 18 horas, participa de um bate-papo juntamente com o artista plástico Edilson Viriatto que também abre exposição, com obras da Série MS, no local. As atividades no Centro Cultural vão contar com a presença do embaixador da Espanha no Brasil, José Coderch, que fará a abertura do evento.
O livro organizado por Maria Angélica Abramo demandou um trabalho de seis meses de pesquisa e redação - de julho a dezembro de 2002 - consumindo de 6 horas a 12 horas diárias de trabalho para redundar num texto em ''português coloquial''. O diário de Saperas começa em 1944, mais precisamente no dia 2 abril. A essa altura, então com 21 anos, ele alista-se no exército e é enviado para a fronteira da Espanha com a França, onde Hitler, aliado de Franco, temia as infiltrações da Resistência Francesa.
Neste contexto, a Espanha já havia sido esfacelada pela Guerra Civil que teve sua sangria evidenciada na Catalunha, norte do país, onde o sindicalismo e outras organizações político-sociais floresciam como contraponto natural na região mais industrializada da Espanha.
No fim dos anos 40 Franco, já vitorioso contra as guerrilhas internas, é um aliado de Hitler e Mussolini que se aproveitam da situação frágil e depauperada da nação espanhola para fincar seus tentáculos ainda mais sobre a Europa. Em outras palavras a Espanha era um ''prato feito'' para a consolidação da extrema-direita. Segundo Maria Angélica, neste período, o que os jovens vão buscar no exército é, antes de mais nada, a sobrevivência.
No diário de Saperas, num registro de 16 de abril de 1944, lêem-se as frases emblemáticas do jovem se integrando ao comando: ''...mais alegria sobre comestíveis, pois entregam-nos vários pães (VIVA!), várias latas de sardinhas em conserva, uma lata de carne congelada (carne de cavalo vinda da Argentina) Viva Perón! Tudo isso é demais, sobretudo na Espanha, país onde os produtos enlatados sempre foram artigo de luxo!''
Numa mistura de perplexidade e subserviência forçada, o catalão Antônio Saperas, testemunha de tempos difícieis, dá tom ao diário cujos originais se encontram respingados de sangue e vinho. Um mapa, que desenhou a bico de pena, é capa do livro que está sendo lançado e traça suas andanças pela Espanha como integrante de uma tropa melancólica e quase sempre faminta. Arma nos ombros, como registram várias fotografias, o jovem chegou a fazer parte de uma companhia de escaladores e esquiadores de elite que atuava nos Pirineus. Ao longo de um ano, perambulou como soldado de Tarragona a Barcelona, de Barcelona a Gerona. À medida em que o diário se desenrola, a fascinação pelas fartas rações diárias oferecidas aos jovens combatentes transforma-se em desilusão frente à hierarquia que prevalece no exército espanhol. As vistosas latas de sardinha vão aos poucos escasseando, a isca inicial de Franco transforma-se em rara ou nenhuma refeição ao dia para os soldados. No Natal de 1944, o desânimo já é claro como Saperas relata: ''O acabrunhamento, o nervosismo é geral entre toda a tropa. Também pudera: sem correio, quase sem comida, sem cigarros. A tudo isso chamam 'defender a pátria''. Nesse contexto, muitos espanhóis desertaram indo bater na França como personagens de uma guerra da qual sairiam vitoriosos os aliados. Saperas continuou na Espanha até o início dos anos 50, quando, a exemplo de outros cidadãos, se tornou perigosa e insustentável sua convivência com a ditadura.
Ao resgatar essa arquitetura política, Maria Angélica Abramo deixa inalterada a decepção de Saperas com a situação do país. Num texto, ele tece comentários situados entre o fim de 1943 e o ínício de 1944, onde trata de um momento de enfrentamento com a tirania de Franco: ''Aos poucos o poder da Falange diminuía, era hora de começar a pensar em oposição e na Catalunã, em termos de catalunidade,... desde o idioma, o folclore, o teatro, a poesia, o rádio, a imprensa, tudo, até conversar pelo telefone tinha sido proibido''. As marcas dessa censura acompanhariam Saperas pelo resto da vida.
Quase dez anos depois do fim da Segunda Guerra, em 1953, o catalão Antônio Saperas sairia para sempre de seu país vindo desembarcar no Rio de Janeiro. Dois anos depois chegou a Londrina. Sobre sua escolha, ele conta: ''Naquela época, se ouvia falar muito no progresso de três cidades brasileiras: Bauru, Presidente Prudente e Londrina, fui para a estação com bagagem e tudo e quando cheguei lá nem sabia para onde ir. Mandei despachar a bagagem para Londrina e aqui estou até hoje''.
Saperas morreu em Londrina em 1983, onde ficou conhecido como marceneiro, entalhador de madeira e diretor de teatro (leia texto nesta página). Aqui teve seis filhos a quem nunca ensinou a língua catalã, também não falava de suas atividades na Espanha, onde chegou a montar espetáculos de teatro em Barcelona. O trauma da perseguição política o acompanhou até o fim de seus dias. A impressão é que mal podia acreditar que havia cruzado o oceano.
Serviço - Lançamento do livro ''Diário de Uma Guerrilha Catalã'', de Antonio Saperas Espasa, organizado por Maria Angélica Abramo, editora Letra d'Água, 100 páginas. Em Londrina, na Biblioteca Pública Municipal, às 20 horas. Em Curitiba, no Centro Cultural Brasil Espanha, av. Silva Jardim, 2.186, às 19h30. Os livros estarão à venda a R$ 10,00.


