Uma rainha e seu pífano encantado. Zabé da Loca, a benfazeja do sertão, pôs medo na mãe da sede e da fome: a miséria. Com sua arte divinatória - a música - ela agradou o destino, que a tirou do exílio numa fenda na rocha, a tal loca onde viveu quase 30 anos, para que o País conhecesse a maestrina de pés rachados, mãos miúdas e um talento que tem o poder de fazer brotar água no mais árido dos sentimentos.
Aos 83 anos, Zabé ainda é uma das paisagens mais bonitas do assentamento Santa Catarina, a 319 quilômetros de João Pessoa (PB). A soleira da porta de casa é a janela de onde Zabé vê passar sempre as mesmas pessoas e bem longe, a pelo menos uns 40 minutos de caminhada, a antiga moradia na gruta.
Muito mais longe, a sertaneja, que aprendeu a tocar pífano com um irmão aos sete anos de idade, também viu passar o reconhecimento tardio como pifanista, reinando sobre um repertório que passa pelo folclore brasileiro.
A visagem seduziu alguns amigos e familiares, que formam uma pequena banda de pífanos ao redor de mulher, tendo entre os mais fiéis seguidores, Antônio Soares da Silva, o Pitó. Ele conhece como a palma da mão as muitas histórias de Isabel Marques da Silva, a Zabé, que na época da loca, costumava cavar buracos na pedra para armazenar água da chuva.
Descoberta em 1995 pelo produtor Ricardo Paixão, Zabé chega ao segundo disco, ''Bom Todo'', lançamento inaugural da Crioula Records, selo da produtora dedicado à música brasileira sem espaço no mercado. Com patrocínio do Programa Petrobras Cultural, o disco nasceu por sugestão de Lu Araújo, ex-dona de uma loja de LPs independentes e, atualmente, à frente da empresa Lume Arte.
Lu criou o projeto de shows ''Da Idade do Mundo'', em Brasília, responsável por apresentar ao país, os cafundós dessa música brasileira - uma paisagem de beleza infinita e que não por acaso pára nos olhos verdes cheios de musicalidade de Zabé.
O CD foi gravado em um estúdio de Recife (PE), com direção musical de Carlos Malta, músico que tocou durante anos com Hermeto Pascoal, fundador do grupo Pife Muderno. Malta foi parar no assentamento Santa Catarina onde fez os arranjos musicais do disco.
No CD, a mulher que nasceu em Buíque, no agreste pernambucano, e que foi morar na loca logo depois que o marido morreu de enfarto, quando procurava água estocada nas rochas, faz brotar da flauta com nove orifícios a rainha do pífano encantado.
Ela duela com outro grande parceiro, Manoel Leite de Melo, o Beiçola, na faixa ''Queima''. O músico de mãos tortas morreu em 2006, deixando no CD um dos seus últimos registros. ''Limoeiro'' e ''Pifada da Loca'' trazem a participação especial de Maciel Salu, filho do mestre Salustiano.
A extensão da qualidade musical de Zabé é traduzida em ''Caboré'', de Sebastião Biano, da Banda Pífanos de Caruaru, faixa que confunde os ouvidos desacostumados, que chegam a pensar tratar-se de uma levada de música eletrônica. ''Esse é o segredo do disco: uma música sem tempo, sem espaço, que faz sentido tanto para os tradicionalistas quanto para o povo jovem, que não cansa de lotar os shows de Zabé e de reverenciar seu trabalho. Aliás, nos últimos tempos, a pifanista serviu de inspiração em discos de artistas que vão do percussionista argentino Ramiro Mussato ao grupo paraibano Cabruêra'', comenta o crítico musical Silvio Essinger.
Zabé não é de muita conversa, mas a sua música fala alto em faixas como ''Veja a Vida Como Ela É'', ''Xote Arrumadinho'', ''Baleio de Onça'', ''Vai Minininho'' e duas recriações para ''Sala de Reboco'', de Luiz Gonzaga, e do ''Hino Nacional''. Mais livre em seu sertão - mesmo depois de conquistar Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro - Zabé diz que ama o mundo, mas não gosta de ficar por ele, não. ''Gosto de ficar no meu puleirinho mesmo'', diz a rainha do pife encantado.

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