LANÇAMENTO Aventuras libertinas
PUBLICAÇÃO
sábado, 02 de novembro de 2002
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Giacomo Casanova, o célebre libertino do século 18, não descansou nem na hora do adeus. Com a ajuda de uma serviçal, obteve seu último momento de prazer antes de partir desta para outra. Foi o que imaginou o roteirista e desenhista inglês Hunt Emerson para colocar ponto final na história em quadrinhos ''A Última Noite de Casanova'', que chega ao Brasil em lançamento da editora Conrad.
A obra narra as peripécias do cavaleiro de Seingalt em busca de sua derradeira conquista amorosa. Publicada originalmente em 1993, a graphic novel obteve o troféu de ''Melhor Álbum de Quadrinhos'' da Inglaterra numa premiação da Comics Creators Guild. Nas páginas, Casanova está com 73 anos e ainda com fome de sexo. Ao lado de seu assistente, trama um plano para tentar impressionar uma condessa de nome sugestivo: Lascivia von Luszchuss.
Mas o plano desanda numa cena de pastelão (numa solução, aliás, pouco inspirada do autor). Enquanto a narrativa se desenvolve, o herói recorda suas antigas paixões, retratadas em episódios divertidos e picantes. Na introdução, Hunt confessa que não leu os 12 volumes do livro de memórias ''Minha Vida'', de Casanova. Para criar as situações da graphic novel, especialmente as sequências em flash-back, usou como fontes o filme de Fellini e duas biografias.
Seu traço sobressai pelo detalhismo de cada quadro, quase sempre apinhado de minúsculos intrusos, como traças cafungando sobre montanhas de livros. ''A Última Noite de Casanova'' reforçou a reputação de Hunt como artista notável da HQ britânica. Ele começou a publicar na década de 70, sob influência das clássicas histórias de Krazy Cat e do quadrinho underground de Robert Crumb e Gilbert Shelton.
Nos anos furiosos do punk e da new wave, ajudou a moldar a linguagem visual dos dois movimentos musicais criando pôsteres e capas de discos para nomes como Sex Pistols, Elvis Costello e The Beat. Em 2000, entrou na lista dos ''Maiores Mestres Europeus dos Quadrinhos do Século XX'', divulgada pelo Centre National de la Bande Dessinée et de I'Image, da França.
Nesta graphic novel, preferiu o humor à tentação dos óbvios apelos eróticos alimentados pelo personagem. Mas, na verdade, Casanova teria sido menos um garanhão priápico do que um andarilho romântico que apreciava a companhia das mulheres e do amor. É o que afirmam muitos estudiosos do personagem. Casanova teria transportado para a alcova sua auto-educação sentimental.
É o sujeito que se apaixona, possui a amada, mas depois volta o seu interesse para outra sem perder o desejo pela anterior. Formula uma espécie de bom uso dos prazeres levando-os ao máximo causando o mínimo de inconvenientes.
Não é um destruidor de corações. Busca organizar o seu desejo e a satisfação das parceiras. Depois de fugir da prisão Dei Piombi, de Veneza, em 1756, circula pela Europa em busca de prazer frequentando as melhores mesas, as melhores camas, sempre sob a proteção dos mais sofisticados príncipes. Não tinha fortuna nem era um plebeu. Para viver, vendia suas idéias.
Foi sábio, charlatão, médico, retratista, jogador, polígrafo, trapaceiro, poeta, cientista do oculto, gerente de uma casa de costura, embaixador, fomentador de intrigas, espião da Inquisição, gerente de uma loteria do Estado Parisiense, bibliotecário e secretário do mitológico Castelo de Dux (na Bavária).
Foi uma noite de tédio no Castelo que o levou a escrever suas ''memórias''. Mas a edição disponível do relato pouco oferece de sua versão original. Os 12 volumes foram reescritos por um professor de francês, que teria expurgado os trechos mais apimentados censurando as audácias verbais e sexuais do texto. Para completar o arrastão puritano, os tchecos queimaram os arquivos do conquistador em 1945, ao fim da Segunda Guerra.
Além das memórias, ele legou outros escritos obscuros à posteridade: a peça de teatro ''A Calúnia Desmascarada'', um romance sobre ''habitantes aborígenes do protocosmo no interior do nosso globo'', uma tradução da ''Ilíada'' em octassílabos, além de algumas ''considerações sobre a medida de nosso ano, de acordo com o calendário gregoriano''. Hunt Emerson faz uma bem-humorada introdução ao universo do sujeito, um figuraça.


