O dramaturgo Plínio Marcos (1935-1999) é, invariavelmente, lembrado pelas peças que escreveu em suas duas primeiras décadas de atuação. Pouco ou quase nada se fala sobre o ciclo posterior de sua produção, quando o autor voltou-se para as soluções místicas, chegando inclusive a colocar em cena um Cristo-homem.
O livro ''Plínio Marcos Coleção Melhor Teatro'' (editora Global) não foge à regra reunindo os textos das peças ''Barrela'' (1958), ''Dois Perdidos Numa Noite Suja'' (1966), ''Navalha na Carne'' (1967), ''Abajur Lilás'' (1969) e ''Querô, Uma Reportagem Maldita'' (romance de 1976 adaptado para o teatro em 1979).
A antologia recobre a fase mais importante de sua trajetória, aquela marcada pelo escândalo, perseguição da censura e reconhecimento de seu nome como um renovador dos padrões teatrais. A seleção foi feita pela crítica Ilka Marinho de Andrade Zanotto, a convite de Sábato Magaldi, responsável pela coleção Melhor Teatro, que já publicou ''O Melhor do CPC da UNE'' e ''O Melhor de GianfraNcesco Guarnieri''.
Os textos escolhidos são justamente os que garantiram a pecha de ''maldito'' ao autor. ''Barrela'', a obra inaugural, deu a tônica de sua dramaturgia narrando em ritmo vertiginoso a noite trágica de uma curra numa cela de cadeia. Plínio inspirou-se em um caso verídico, transportando para o palco a linguagem dos presidiários.
A peça é recheada de palavrões e de violência gratuita. Escrita em um ato, é curta e certeira como um soco no estômago. Na época, provocou reações apaixonadas na platéia. Estreou no 2º Festival de Teatro do Estudante, em Santos, em 1959, para depois amargar 21 anos na censura. O texto já apresentava uma das características recorrentes na dramaturgia de Plínio: a agudização do conflito desde a primeira cena e o desenlace brutal que beira o insuportável.
Com a proibição de ''Barrela'', coube a ''Dois Perdidos Numa Noite Suja'' difundir o universo dos marginalizados desbravado pelo autor. Aqui, Plínio desce aos infernos para flagrar o convívio tenso entre dois farrapos humanos hospedados num quarto de hotel vagabundo. Com diálogos contundentes, a trama progride numa espiral de violência verbal até o assassinato de um sujeito pelo outro.
A atmosfera sufocante, o mundo sem horizontes, a linguagem crua e a solidão dos personagens anunciam as peculiaridades exploradas em suas peças seguintes. Ilka Marinho assinala que, com ''Navalha na Carne'' e ''O Abajur Lilás'', Plínio introduziu personagens femininos à sua galeria de gente maltratada pela vida. A primeira peça é ambientada num bordel onde a prostituta ''Neusa Sueli'', o cafetão ''Vado'' e o criado homossexual ''Veludo'' se estraçalham mutuamente por causa de um cigarro de maconha e um punhado de notas de michês.
Em ''Abajur Lilás'', considerado por Sábato Magaldi o texto mais politicamente engajado do dramaturgo, surgem em cena o dono de um bordel, o ajudante de ordens e três prostitutas. Cada uma das prostitutas encarna uma forma de comportamento. ''Dilma'', por ser mãe, acomoda-se frente aos problemas: ''Eu só tou com meu filho. O resto não conta. Eu quero que tudo se dane'' diz.
''Leninha'', com medo do castigo físico, mente que foi ''Célia'' quem destruiu os objetos no quarto. ''Célia'', a revoltada, paga por uma culpa que não tem, sendo alvo de fúria homicida de ''Oswaldo'', o truculento ajudante de ordens de ''Giro'', proprietário do mocó. Os fatos aparentemente corriqueiros ganham nova dimensão nas mãos do autor, que transforma os protagonistas em arquétipos humanos.
Fechando a antologia, ''Querô'' conta a trajetória de um menino-bandido criado por uma cafetina sádica que o explora e o espanca. A infância brutalizada o conduz a passagens por reformatórios e encontros com habitantes da escória um gringo turista sexual, um alcaguete e policiais do esquadrão da morte. Ilka observa que, ao serem lidas, as peças atingem o leitor como estilete.
Assinala ainda que Plínio Marcos ''não era explicitamente engajado, embora sua obra fosse a mais revolucionária entre todas as assumidamente militantes de seus contemporâneos''. O livro inclui dados biográfios do dramaturgo, relação de suas peças, bibliografia e pequenas textos de apresentação assinados por críticos de renome como Décio de Almeida Prado, Anatol Rosenfeld, Mariângela Alves Lima e Yan Michalski.
A obra chega às prateleiras num momento em que o legado do autor parece atrair a atenção dos diretores de cinema. O cineasta José Joffily rodou recentemente uma versão para as telas de ''Dois Perdidos numa Noite Suja''. A história já tivera uma primeira adaptação em 1971, sob a direção de Braz Chediak, com Emiliano Queiroz e Nelson Xavier nos papéis principais.
Três décadas depois, Joffily e o roteirista Paulo Halm ousaram mudar o sexo de um dos personagens ''Paco'', vivido agora pela atriz Débora Falabella e transferiram o drama para os dias de hoje, em Nova York, cidade em que tantos imigrantes brasileiros procuram o sonho de uma vida melhor. O longa já foi exibido em festivais. E agora aguarda a entrada no circuito comercial.
Quem também buscou inspiração no dramaturgo foi o diretor Carlos Cortez, que vai filmar ''Querô'' com participação no elenco do ator Marco Ricca e das atrizes Maria Luisa Mendonça e Walderez de Barros (que foi mulher de Plínio durante 20 anos). Os outros atores sairão de bateria de testes realizados com integrantes de grupos teatrais da Baixada Santista.
O projeto do filme obteve aprovação pelas leis Rouanet e do Audiovisual. As filmagens devem começar no próximo ano.

Serviço:
Livro: ''Plínio Marcos Coleção Melhor Teatro''. Editora Global (tel. 11/3277-7999). Total de páginas: 288. Preço: R$ 30,00.

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