Não se reprima caso venha a incontrolável vontade de bater palmas. Ora, ora, Bibi Ferreira está espetacular interpretando canções de Edith Piaf tanto em CD quanto em DVD já disponíveis nas lojas. Se ouvir já impressiona, ver a grande senhora dos palcos brasileiros em cena é muito mais impressionante. É um projeto cercado por muito esmero pela gravadora Biscoito Fino que registrou em disco e filme digitalizado um dos mais emblemáticos e bem-sucedidos musicais montados no Brasil. As gravações exclusivas ocorreram nos dias 27 e 28 de janeiro deste ano, no Teatro Maison de France, no Rio de Janeiro e tem como gancho duas datas especiais e redondas: os 40 anos de morte da cantora francesa e os 20 anos da primeira encenação do espetáculo ''Bibi canta Piaf''.
E pensar que Bibi Ferreira titubeou quando foi convidada para protagonizar Edith Piaf (1915-1963). O motivo: a atriz achava o texto original muito fraco, além da prevenção em encenar um ''espetáculo triste'', em se tratando da homenageada, que talvez não agradasse ao público brasileiro. Quem a fez mudar de idéia foi uma amiga particular que lhe mostrou discos e mais discos em que a diva francesa não se entregava apenas ao amor e desamor. Coube a Millor Fernandes fazer a tradução do texto em inglês e à própria Bibi assumir a direção geral e também verter alguns trechos do repertório para o português revela-se aí uma excelente letrista capaz de versos geniais como (''E enquanto eu vou contando, relembrando nosso amor/ Que foi tão grande e foi tão simples/ Quanto rima de oração'')
''Bibi canta Piaf'', enfim, estreou. E fez sucesso. Muito sucesso. Passou por 53 cidades brasileiras, algumas visitadas mais de uma vez, além de França e Portugal. Além do show, o DVD traz making of e entrevista eis alguns momentos saborosos como Bibi explicando que fez questão de compreender as músicas para depois entender e cantar num ''francês decente''. Por muitas vezes, a artista está visivelmente emocionada no palco sem perder, no entanto, a concentração.
Para acompanhar Bibi no CD e DVD, foram convocados a Camerata Santa Tereza (com 19 músicos) e o coral do Núcleo de canto Elena Zanotti. A direção musical, os arranjos originais e regências ficaram a cargo do maestro Nelson Melim. Através do repertório composto por 16 canções (algumas clássicas como ''Hymne à L'Amour'' e ''Non, Je Ne Regrette Rien'' e outras não tão difundidas como ''Milord'' ou ''Qu'est-ce Qu'on Attend Pour Être Heureux''), a artista brasileira dando voz a Edith Piaf.
Bibi Ferreira imprime dramaticidade na medida certa e mostra-se uma senhora cantora com extensão e volume impressionantes. Não teme as notas altas. Deleita-se, permite-se à entrega ao ponto de, por vezes, deslocar-se levemente da personagem Edith Piaf para ser o que é de fato: uma intérprete com autonomia de vôo, voz e vida. Aos 82 anos de idade, Bibi Ferreira mostra-se como sempre foi: imensa. A seguir os principais trechos que a atriz concedeu à Folha2



Como intérprete de palco em que a Piaf te pega mais?
Na emoção, na sinceridade. Ela era despojada de todos os vidrilhos, colares e brincos...Era uma mulher completamente desprovida de qualquer ambição material. Ela era simples, diria até muito pura dentro de suas esquisitices. Ela gostava de duas coisas na vida: cantar e amar.

Você chegou a conhecer, a ter algum contato com Piaf?
Nenhum.

O espetáculo foi montado há 20 anos. Foi concebido na intuição, no planejamento, como?
Foi um empresário chamado Pedro Rovai que assistiu à peça em Londres, comprou os direitos, trouxe ao Brasil e ficou escolhendo uma pessoa para fazer. E acabou escolhendo a mim. No começo, fiquei em dúvida de se aceitava ou não.

Por que?
Porque eu era fã, mas não ardorosa. Minha geração não era parisiense, era americana. A referência eram os musicais da Metro com Judy Garland. Essas coisas, sim, é que eram próximas, estavam à mão, muito prêt-à-porter, entende? A Piaf para mim era algo muito longe. Conhecia sim, quem não conhecia, não? Daí pensei que o repertório do espetáculo seria todo muito triste. Foi quando uma amiga minha me disse: ''escuta, não é assim, não. Sou fã de Piaf, tenhos os discos e vou te mostrar''. Desci ao apartamento dela e de cara era ela colocou ''Milord'' para tocar. Aí disse: ''eu faço, com essa música eu faço''.

No disco não há as versões e textos em português. Foi você quem fez?
São meus sim. O Chico Buarque foi assistir ao espetáculo 20 anos atrás e perguntou de quem eram os versos e eu disse que eram meus. Ele gostou muito.

Mas com razão, porque você fez alguns versos maravilhosos!
(rindo) Muito obrigada! Eu gosto muito também do que digo no início de 'La Ville Inconnue'' (De hotel em hotel/ de turnê em turnê/ um táxi que parou/ não desceu você/ tudo passa por mim/ como trem que passou/ a chuva que caiu/ um café que fechou)

No DVD você fala em coisas que não gosta da Edith Piaf, ao contrário de alguns projetos especiais em que o homenageado é apenas louvado, eximado de críticas.
Digo sim porque a falta de sinceridade é algo que me atormenta. Esse negócio de dizer que tudo é maravilhoso, todo mundo é maravilhoso, não é não.

Você está com um novo espetáculo, o ''Bibi in Concert III - Pop'' em que canta um rap. Como se deu isso?
Isso surgiu da minha observação diária sobre o mau uso da língua portuguesa, sobre os vícios da linguagem. Daí, junto com a Teresa Tinoco e Flávio Mendes, decidi escrever um rap

Canta um trechinho...
Você lembra antigamente quando apareceu a coisa/A coisa resolvia, substituia qualquer coisa/Não era bem a coisa, era o espírito da coisa/ A coisa foi elevada a verbo, virou substantivo/ Eletivo, advérbio e se não superlativo a pergunta agora é uma:/ o que é que fazem os políticos?/É, o que é que eles fazem:/coisíssima nenhuma!/A coisa é poderosa/tá em tudo o que é lugar é só abrir o jornal /e olha lá: a coisa tá lá/E como aqui na nossa terra coisa séria é hilária/ Alguém virou manchete/como coisa extraordinária/ Que no dia 31 de agosto de 2003/ no Jornal O Globo, Delfim Neto declarou assim:/ 'o Lula é uma coisa extraordinária'/ Né, não?/ Eu digo: sei lá foi o Delfim quem declarou/ não foi eu, meu irmão!

Como é dinâmica do espetáculo. Predominam mais textos ou mais músicas?
É tudo misturado, feito com muita habilidade. O ritmo do espetáculo parece um filme de ação, como disse um homem do som. Tem Chico Buarque, Tom Jobim, Antonio Maria, Dolores Duran, Orestes Barbosa tem tangos, Piaf, Amália Rodrigues, muita gente. O espetáculo foi eu quem bolou e tem direção musical de Flávio Mendes. Estou trabalhando com gente muito jovem. Somos quase 20 pessoas no palco.

De onde vem tanta vitalidade?
Vem de uma vida muito regrada. Meus grandes amigos são os meus médicos, tomo vitaminas, sais minerais, como bananas...

Não seja irônica!
Mas é verdade o que eu disse. Falo pouco, faço tudo muito devagar, faço tudo com muita tranquilidade. E ando diariamente 40 minutos sem parar em casa recitando tudo o que tenho que falar no espetáculo. Isso tudo me traz vitalidade.

Alguma superstição ou ritual antes de subir ao palco, Bibi?
Não, não. Apenas respiro e levanto o pensamento a Deus em agradecimento. Em seguida respiro mais forte e penso no primeiro texto ou música que vou dizer ou cantar, tomo um café morno com um pouco de manteiga, emborco isso tudo e lá vou eu para o palco.

Você tem dimensão da artista que você é?
Tenho a mesma dimensão que muita gente boa que está aí tem. É gente que trabalha tanto quanto eu.

Não seja modesta. Você é grande, só isso!
(riso) Tudo bem, eu acho que sou um pouco de exemplo de vida. Aos 82 anos de idade estou em pé, muito entusiasmada e tentando fazer o que faço da melhor forma possível.

E faz bem-feito. Um beijo!
Muito obrigada. Um beijo grande pra você também, meu filho!

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