LANÇAMENTO - Um sertão de imagens agora em livro
PUBLICAÇÃO
sábado, 08 de outubro de 2005
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
Dedicação e trabalho insano foram por um bom tempo companheiros da jornalista Maria do Rosário Caetano desde que ela, dublê de pesquisadora e organizadora, resolveu afrontar um assunto até então ao largo de interesse editorial específico. Ao longo dos anos, ninguém tinha se preocupado ainda em resgatar e sistematizar em livro, em que pese sua importância referencial histórica, social, política, econômica , as relações férteis entre cangaço e cinema, geradoras de um dos mais significativos ciclos temáticos de nossa antologia viva de imagens. Assim, um título como ''Cangaço O Nordestern no Cinema Brasileiro'', em lançamento independente e sistemático em todo o país, especialmente na trilha hoje fartamente sinalizada do circuito brasileiro de festivais (o próximo é Brasília, em novembro), deve ser encarado como dupla fonte de satisfação: pelo ineditismo do projeto e pela diversidade e qualidade do material reunido.
A coletânea reúne nove autorias e respectivos enfoques, plurais mas convergentes na busca de signos que afinal conduzem a uma identidade que se equilibra entre a saga do binômio sertão/sertanejo e sua reprodução nas telas a partir da década de 1920. Na trajetória proposta por Rosário há desde a grave crônica do diretor Ruy Guerra sobre a privacidade invadida do Coronel Rufino, o homem que matou Corisco, até o texto seminal e desconhecido por quase 40 anos, ''Cangaço Da Vontade De Se Sentir Enquadrado'', de Lucila Bernardet e Francisco Ramalho Jr., pertinente mergulho ideológico na estereotipia do cangaço plasmada em sete títulos de grande empatia popular e que durante determinado período alimentaram a mitologia do gênero, emblematizada na figura imponente deste grande ator característico que foi Milton Ribeiro.
O crítico e jornalista Luiz Zanin Oricchio ajusta seu enfoque no processo articulado por Glauber Rocha no ícone ''Deus e o Diabo na Terra do Sol'' e observa um comportamento (nem tanto) paradoxal do cangaceiro Corisco, personagem com a atitude ''aventureira'' subvertida pela dialética revolucionária glauberiana. Há ainda estudo do pesquisador José Umberto sobre as influentes imagens documentais de Lampião e bando tomadas pelo mascate Benjamin Abraão na década de 1930.
O impacto provocado pelo cangaço do mesmo Benjamin Abraão, reciclado por Lírio Ferreira e Paulo Caldas no ''Baile Perfumado'' de 1996, ficam por conta de outro pesquisador, Marcelo Dídimo. A organizadora do volume, Maria do Rosário, registra providencial entrevista com o cineasta Maurice Capovilla, sobre as ligações dele com o tema nas produções de cinema da Blimp Filmes para a TV Globo, idos de 1970. Já o pesquisador Luis Felipe Miranda faz longo inventário das imagens de cangaço & cangaceiros no cinema, enquanto outro pesquisador, Marcelo Dídimo, expõe as debilidades de ''O Cangaceiro'' da retomada, refilmagem caricatural realizada por Aníbal Massaíni em 1997.
Quanto ao termo ''nordestern'', neologismo que define a vertente cinematográfica do cangaço como o equivalente brasileiro do western americano. Maria do Rosário Caetano, ainda na introdução, informa sobre a paternidade do termo, utilizado pela primeira vez pelo pesquisador e crítico Salvyano Cavalcanti de Paiva em 1953, ao referir-se a ''O Cangaceiro''.
Serviço:
- ''Cangaço O Nordestern no Cinema Brasileiro''. Maria do Rosário Caetano (organizadora). Avatar Soluções Gráficas. 120 págs. Pedidos pela internet: [email protected]


