Nada mais caricato do que um jovem de cabelos espetados trajando uma jaqueta de couro recheada de rebites. O norte-americano Craig O'Hara reforça as críticas aos estereótipos no livro ''A Filosofia do Punk Mais do que Barulho'', que acaba de chegar ao Brasil depois de receber traduções para o alemão, chinês, francês, russo e turco.
O autor enterra as imagens-clichês investigando a fundo a mais rebelde das subculturas geradas pelo rock. ''O punk evoluiu além da tática de choque dos cabelos coloridos e coleiras de cachorro para ter uma filosofia relativamente coesa que tem pouco ou nada a ver om um estilo de moda em particular. Embora tenha sido útil na época e ainda hoje seja divertido chocar as pessoas com a aparência é menos importante do que chocar com idéias'' salienta ele.
O autor não conta a história tantas vezes repetida do punk. Prefere mostrar as relações da música com a política apresentando um painel abrangente das várias frentes de batalha encampadas pelo movimento que se notabilizou originalmente pelo lema ''Do it Yourself'' (Faça você Mesmo), entre as quais a oposição à desigualdade econômica, à intolerância, ao militarismo, ao racismo, à censura, ao sexismo e à homofobia.
O livro está na quinta edição nos Estados Unidos, onde foi publicado originalmente em 1992, reproduzido em cópias xerocadas encadernadas com presilhas de argola. Lançado posteriormente na Lituânia, provocou a ira das autoridades locais, que tentaram impedir sua distribuição taxando-o de ''documento imoral, rebelde e repulsivo''. Na introdução, o autor conta que ''o mais bizarro'' foi sua tradução e publicação em Hong Kong.
Nascido na Pensilvânia (EUA), O'Hara atua há mais de duas décadas no movimento punk seja tocando ou produzindo shows. Foi um dos que levaram bandas como Green Day e Fugazi para se apresentar em salões de igrejas antes de conquistarem fama no resto do mundo. O livro, aliás, traz dezenas de fotos de shows clicadas pelo próprio autor ao longo dos anos.
Para a publicação, privilegiou imagens de bandas pouco conhecidas fora do ambiente punk, como Subhuman Dick & Fanatics, Circle of Shot, Citizen Fish, Scared of Chaka e Tribe 8. O volume, porém, não foi escrito apenas para os fãs de música, mas também avisa ele para o leitor interessado nas filosofias políticas e sociais de outras pessoas. ''Trato de idéias e não de estilos musicais específicos'' assinala.
De seu mergulho no underground ruidoso, descobre-se que o punk é um movimento multifacetado apinhado de tendências, cada qual com sua forma de organização, suas crenças e convicções. Mesclando depoimentos de músicos ao texto, o autor revela que a maioria das idéias reproduzidas nas páginas foi extraída das próprias publicações punk e não de jornalistas, acadêmicos ou outros intérpretes ''de fora''.
Protagonista da cena, O'Hara pôde acompanhar ''de dentro'' as várias mudanças ocorridas no movimento. E algumas delas, observadas em perspectiva, jamais poderiam ser previstas pelos pioneiros do rock de três acordes. Quem poderia imaginar que um dia, a exemplo dos hippies, uma facção punk adotaria a dieta vegetariana como um de seus postulados radicais?. ''O vegetarianismo e os direitos dos animais se tornaram elementos fundamentais da filosofia política do punk conscientizado'' escreve ele.
''Punks straight edge não são tão conscientes sobre mudar a sociedade quanto o são sobre acabar com as obsessões pessoais. Por esse motivo eles não tomam bebidas alcoólicas nem fumam, e em alguns casos se recusam a consumir cafeína e açúcar. Sua atitude em relação a comer carne é semelhante a de tomar bebida alcoólica: é desnecessário, insalubre e prejudicial''.
Mais adiante, ele acrescenta: ''As bandas novas e os fãs tornaram-se cada vez mais reacionários, conformistas e machistas. O straight edge tornou-se um mar de jovens brancos de classe média com pouco interesse em rebelião ou políticas radicais''. O'Hara não esconde as contradições do movimento punk como um todo. Dedica capítulos críticos também a outras vertentes, personagens e manifestações ligadas à cena.
Fala dos fanzines, ataca a representação negativa dos punks na mídia corporativa e traz à luz os desvios de rota de facções anarquistas, pacifistas, ambientalistas, skinheads e homossexuais. ''Em um show em Berkeley, Califórnia, testemunhei uma reação bastante negativa de aproximadamente um terço da multidão com respeito à banda Tribe 8, toda composta de mulheres declaradamente lésbicas. Embora a maioria das pessoas estivesse disposta a defender o direito delas de tocar, um grande número de homens e mulheres irados não estava aprovando abertamente aquelas 'sapatonas do c...'. Isso mostra que a ocorrência de ódio e tensão tão evidentes não abandonou a cena punk completamente'' anota num trecho.
O livro, que inclui glossário, foi adotado em diversos cursos universitários de sociologia nos Estados Unidos. É leitura fundamental para a compreensão de um dos fenômenos mais duradouros e influentes da cultura popular, quase sempre mal interpretado.

Serviço:
- Livro ''A Filosofia Punk Mais do que Barulho''. Autor: Craig O'Hara. Lançamento: Radical Livros (www.radicalivros.com.br tel. 11/3668-2060). Páginas: 204. Preço: R$ 34,00.

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