lançamento - Um livro na contramão
PUBLICAÇÃO
sábado, 13 de março de 2004
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
O carro, afirmam os publicitários, é uma das grandes paixões nacionais. Tornou-se, desde a implantação da indústria automobilística no País, objeto de desejo de milhões. Com a crescente invasão feminina ao volante, virou uma obsessão coletiva. Quem ousa criticá-lo, é condenado a pregar no deserto.
Mas foi o que fizeram pensadores radicais como Ivan Illich (1926-2002) e André Gorz. Nos anos 70, eles combateram o consenso escrevendo textos anti-carro, que até hoje inspiram rebeldes de todo o mundo. Dois deles, transformados posteriormente em clássicos da contracultura, estão acessíveis agora ao público brasileiro com a publicação do livro ''Apocalipse Motorizado A Tirania do Automóvel em um Planeta Poluído'' (Coleção Baderna/editora Conrad).
O volume é, salvo engano, o primeiro título lançado no Brasil reunindo escritos do gênero. Além de mapear teses anti-capitalistas, discute os efeitos colaterais nefastos provocados pelo carro, como poluição, dependência do petróleo, expropriação do espaço público comum e exclusão social. Organizado por Ned Ludd, traz reflexões apimentadas que problematizam inclusive a necessidade de possuir um automóvel nas cidades modernas.
No artigo ''Energia e Equidade'', Illich apóia-se em dados estatísticos para defender pedestres e ciclistas. Numa passagem do texto, ele assinala: ''O americano típico consagra mais de 1.600 horas por ano ao seu automóvel: sentado dentro dele, andando ou parado, trabalhando para pagá-lo e para pagar a gasolina, os pneus, os pedágios, o seguro, as multas e os impostos para as estradas federais e para os estacionamentos públicos. Consagra a ele quatro horas por dia, nas quais se serve dele, se ocupa dele ou trabalha para ele''.
Em outro trecho, escreve: ''Quem vai a pé ao trabalho chega a criar para si um ambiente ao longo do seu caminho. Quem percorre o caminho em um veículo está privado de uma variedade de opções: paradas, acessos, contatos''. Obviamente, alguns leitores zombarão dos textos compilados nesta coletânea, taxando-os de ingênuos, anacrônicos ou utópicos.
A contundência das estatísticas coletadas, entretanto, impressiona. Líder mundial em acidentes de trânsito, o Brasil oferece fartas razões para questionar o culto ao automóvel. O painel de números sombrios revela, por exemplo, que ocorre uma média de 40 mil mortes anuais por acidente de trânsito no País.
Nesse mesmo período, 300 mil pessoas ficam feridas, sendo que 60% delas com lesões permanentes. Outro dado assustador é que de cada dez leitos hospitalares, cinco são ocupados por acidentados nas ruas ou estradas. ''É interessante observar'' sublinha uma nota perspicaz ao pé de uma página ''que a principal justificativa para reprimir manifestantes e impedir manifestações na avenida Paulista (São Paulo), usada pela mídia e pelo governo, é de que se trata de uma importante via de acesso aos hospitais, e que por isso por questões humanitárias o trânsito não pode ser interrompido. Esquecem de dizer, no entanto, que muito provavelmente os feridos que as ambulâncias levam aos hospitais são vítimas do próprio trânsito (não interrompido)''.
No texto introdutório, Ned Ludd chama de ''doentia'' a relação de nossa sociedade com o automóvel. ''Pode ser espantosa'' ressalta ele ''a constatação de que boa parte da classe média brasileira investe mais em seus carros que em casa própria. Mas ainda mais divertido é ver que essa mesma classe média, que se põe histérica ante a idéia de que o filho adolescente possa ter acesso a um cigarro de maconha ou a um videogame 'violento', vê com declarado orgulho que o mesmo adolescente 'já sabe dirigir' aos 14 ou 15 anos. Como se carro não fosse algo muito mais perigoso que um baseado''.
Oportuno, o livro traça um panorama do movimento internacionalista ''Massa Crítica'' (Critical Mass), surgido há pouco mais de dez anos em San Francisco (EUA) e que consiste em reunir ciclistas para circularem uma vez por mês em bando. ''Grosso modo, a Massa Crítica é uma forma de reivindicar as ruas para os ciclistas e para as pessoas, uma forma de expressão antagônica à chamada cultura do automóvel'' explica o organizador da coletânea.
Mas o que começou como um passeio politizado de 60 bikes na cidade ensolarada da Califórnia, espalhou-se como uma epidemia pelo resto do mundo. No Brasil, ativistas de cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Brasília, Porto Alegre, Florianópolis e Petrópolis aderiram à iniciativa e já organizam pedaladas mensais. No exterior, o movimento já registra uma data memorável: fevereiro de 1996.
A ocasião foi marcada por diversas manifestações anti-carro que incluiu invasão de showroons de automóveis, protestos contra a construção de uma via secundária, ocupações de prédios do Departamento de Transportes e de escritórios de construtoras de estradas, além da paralisação do tráfego em 17 cidades. O volume traz ainda três apêndices: um mostra as mazelas ambientais causadas pelos veículos e estradas; outro apresenta propostas de interferências nas ruas para protestar contra a ditadura do automóvel; e o terceiro fornece dicas para quem deseja criar uma versão da Massa Crítica em sua própria cidade.
Provocativo, ''Apocalipse Motorizado'' é guia indispensável para rebeldes de todos os matizes.
Serviço:
- Livro ''Apocalipse Motorizado A Tirania do Automóvel em um Planeta Poluído''. Editora Conrad (tel. 11/3346-6088 www.conradeditora.com.br). Preço: R$ 22,00.


