LANÇAMENTO - Um gênio da raça
PUBLICAÇÃO
sábado, 29 de janeiro de 2005
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
Foi um homem elegante, inclusive nas vestes. Além de grande estilista da música popular brasileira, Ataulpho Alves, vejam só, foi citado como um dos homens brasileiros mais bem vestidos ao lado do também mineiro Juscelino Kubitscheck dois dos mais ''10 elegantes'' relacionados pelo mítico colunista Ibrahim Sued.
A fina estampa é apenas um breve adendo da biografia do cantor e compositor mineiro, que será lançada hoje, às 19 horas, na Livrarias Porto, em Londrina. É que o historiador e escritor Luizito Pereira, autor de ''Ataulpho Alves - Um Bamba do Samba'', ocupou-se em trazer a público o lado brilhante do gênio da raça. Ou seja, escreveu um livro que vasculha e detalha as origens, modos, conduta, o sucesso e, principalmente, a importância de Ataulpho Alves na história da MPB.
Foram três anos de pesquisas que resultaram numa biografia minuciosa com imagens históricas da trajetória bem-sucedida de Ataulpho Alves. Trata-se de uma iniciativa entre o Governo do Estado de Minas Gerais em parceria com a Companhia Força e Luz Cataguazes-Leopoldina e saiu com tiragem de 2,5 mil exemplares. Luizito Pereira, 60 anos, é natural de Miraí, cidade localizada na zona da mata mineira onde nasceu Ataulpho Alves. Sim, ele conviveu com seu biografado. ''Foram muitas prosas pela madrugada, troca de confidências e boêmia'', resume. Pereira é autor também do romance histórico ''Arraial do Brejo''.
Aos possíveis questionamentos, ele faz questão de frisar que a vivência pessoal com Ataulpho em nada arranhou a isenção e imparcialidade necessárias a um pesquisador. ''A experiência me ensinou que diante de informações e escritos tenho que conferir, espremer, filtrar e chegar ao mais próximo da verdade'', salienta.''No livro não existem duas linhas que eu tenha colocado sob minha vontade'', complementa.
''Ataulpho Alves - Um Bamba do Samba'' refaz em palavras a trajetória de um dos mestres da MPB e o cerca com fatos históricos do Brasil e de Minas Gerais, com relevada ênfase à cidade de Miraí. Foi lá, mais precisamente numa tarde de domingo do dia 2 de maio de 1909, num lugar denominado Córrego da Braúna, espaço físico da Fazenda Cachoeirinha, que nascia Ataulpho Alves de Souza com o tempo o ''ph'' do nome foi substituído, à sua revelia, pelo ''f''.
A trajetória de sucesso de Ataulpho começou a ser desenhada em meados de 1920 quando mudou-se para o Rio de Janeiro. Lá conheceu e casou-se com dona Judith com que teve cinco filhos: Adélia, Matilde, Adeílton, Adelino (que morreu muito cedo, ainda criança) e Ataulpho Júnior. Ao lado da esposa permaneceu até o fim.
O primeiro sucesso no rádio foi ''Saudade do Meu Barracão''(1935), samba-canção registrado pelo cantor paulista Floriano Belham. Como cantor, teve êxito em ''Leva Meu Samba'' (1941) aliás tornou-se intérprete por discordar da maneira pasteurizada com que seus sambas eram gravados. Foi compositor de 700 peças, relacionadas em ''Um Bamba do Samba''.
Além de grande defensor das raízes do samba de morro, foi o idealizador da União Brasileira dos Compositores, um dos pilares da fundação da hoje escola de samba Estácio de Sá. Quase que por necessidade sabia dos poucos recursos vocais que tinha , Ataulpho Alves foi o introdutor das Pastoras, jovens cantoras e dançarinas que sustentavam sua performance vocal. ''Para atingir tudo isso um simples mortal não conseguiria. A não ser que fosse envolvido por uma genialidade muito grande'', frisa Luizito Pereira.
No dia 20 de abril de 1969, aos 59 anos, Ataulpho Alves morria em consequência de uma úlcera do duodeno. A matéria virou pó. A alma elevou-se. Imortalizava-se através de sua arte. A seguir os principais trechos da entrevista que o escritor Luizito Pereira concedeu à Folha2.
Se fosse para resumidamente apresentar o Ataulpho, como você o faria?
O Ataulpho Alves não foi um mortal comum. Quem estuda a vida e obra dele vê que nascido no Córrego da Braúna, em Miraí, e chegando ao ápice do sucesso da música brasileira, ficou conhecido no Brasil e no mundo, lutando contra todas as adversidades sem receber nenhum empurrão, nenhuma facilidade. Acabou sendo um dos criadores do samba como o conhecemos hoje, criador da primeira escola de samba do Brasil, ''Fale quem Quiser'', um bloco que virou escola e que hoje é a Estácio de Sá.
Ah é?
É. O morro do Querosene era onde ficava esse bloco, junto do morro do Estácio, no Rio de Janeiro. O bloco Fale Quem Quiser juntou-se com a escola Deixa Falar, do morro vizinho, o de São Carlos, para hoje ser a escola Estácio de Sá.
Voltando, você estava dizendo que o Ataulpho não era uma mortal comum...
Ele foi um gênio. Um simples mortal não conseguiria atingir tudo isso, a não ser que fosse envolvido por uma genialidade muito grande.
Algum ponto da vida pessoal ou profissional que você evitou explorar, abrandar ou mesmo ignorar no livro?
(Pede pra desligar o gravador). Pode?
Se pudesse responder seria melhor...
São detalhes tão insignificantes que eu preferi não explorar.
Vou lhe fazer outra pergunta: pouco se sabe da vida pessoal, a não se ser que se casou com uma única mulher. Me diga: ele era boêmio, mulherengo, bebia, enfim, algum deslize?
É, o boêmio incorpora tudo isso que você disse. Mas na parte familiar ele foi exemplar.
Até gênios cometem deslizes...
É o tal negócio: esses deslizes que ele possa ter tido são... normais.
Então tá! Que traço expressivo você destacaria tanto em nível pessoal ou profissional?
Ele foi um homem de uma integridade muito grande. Ele foi fiel aos seus princípios morais, éticos, profissionais e familiares. Eu não consegui encontrar nas minhas profundas pesquisas nada que o desabonasse. Era de uma simpatia cativante. Enfim, muito correto no seu profissionalismo, junto à sua família. E também muito religioso.
Católico?
Era aquele católico misturado com o espiritismo. Umbanda, né? O que já é uma característica do povo brasileiro. Ele tanto frequentava a igreja quanto os terreiros.
O prestígio e o sucesso foram proporcionais às finanças?
Sem dúvidas. Segundo depoimentos, principalmente das Pastoras que conviveram com ele, era uma pessoa equilibrada, econômica. Morreu em pleno sucesso. Aliás, a vida dele foi um sucesso musical. Viajou pela Europa durante meses com a caravana cultural, foi à África num festival da música popular brasileira e com isso comprou quatro imóveis, que ainda estão com a família.
Vou tentar pela última vez: ele não cometeu nenhum deslize na vida pessoal?
(risos) Deslize de ponte quebrada, não. Deslize de andar pelo trilho, cortar uma voltinha, tudo bem. Agora, deslize de fazer a ponte outra vez, isso não! Foi fazer um atalho pelo mato e voltou e tudo bem. Rompimento não houve.
O Brasil foi justo com Ataulpho?
Foi mais que justo. O Ataulpho foi o único da sua época que morreu fazendo sucesso.
Serviço
- Lançamento do livro ''Ataulpho Alves - Um Bamba do Samba'', de Luizito Pereira. Hoje, às 19 horas, na Livarias Porto, do Catuaí Shopping Center de Londrina. O exemplar será vendido a R$ 35,00. Depois, o livro pode ser solicitado diretamente ao autor através do endereço: Praça Dr. Luiz Alves Pereira, nº 1, Miraí (MG), CEP: 36790-000. Ou pelo telefone (32) 3426-2203


