Todo disco de Tom Zé depõe, involuntariamente, contra seus pares de geração. É que, pela inventividade, parecem denunciar o vazio de idéias a que tantos parceiros se compadeceram após a diluição do tropicalismo. Seu novo CD, ''Estudanto o Pagode'' (Trama), mantém a dosagem de bizarrice que lhe é peculiar.
Traz uma opereta, ''Segregamulher e amor'', dividida em três atos Mulheres de Apenas, Latifundiários do Prazer e Amor Ampliado para o Teatro e para o País que discute a questão da arcaica dominação masculina e a condição feminina na sociedade moderna. O encarte apresenta o tema reproduzindo um texto da historiadora cultural austríaca Riane Eisler.
O título e a ilustração do disco remetem ao álbum ''Estudando o Samba'', gravado em 1976 e que foi responsável pela ''redescoberta'' do compositor ao ser reeditado para o mercado internacional em 1990 sob iniciativa do músico norte-americano David Byrne. O relançamento resgatou Tom Zé do ostracismo, quando ele já pensava em largar a carreira e voltar para o interior da Bahia.
Em material distribuído à imprensa, o compositor revela que a idéia de gravar pagode surgiu após incansáveis audições do estilo durante churrascos de vizinhos ricos no condomínio onde mora, no bairro Perdizes, em São Paulo. Curioso, pegou emprestado do porteiro do prédio discos de Belo e Netinho para ouvir mais detidamente em casa.
Assim como ''estudou o samba'' para lançar o célebre álbum de 1976, decidiu desta vez ''estudar o pagode'' para recriá-lo sem deixá-lo inacessível para o público. Convidou inclusive dois adolescentes Pedro José (de 17 anos) e Fernanda Del'Uomo (16 anos) para atuar como consultores, palpitando nas criações do artista.
Tom Zé escutou os colaboradores mexendo em melodias, ritmos e até no vocabulário utilizado nas letras. O material gravado, porém, não se diferencia em nada de seus trabalhos anteriores incorporando timbres inusuais à variação do samba que caiu no gosto popular. Além do formato opereta, raramente explorado na MPB, a exposição do tema e as próprias composições preservam as desarmonias melódicas que sempre marcaram sua obra.
Entre as excentricidades, o baiano de Irará gravou o som de folhas da árvore de fícus. Nas composições embutiu citações diversas como J.S Bach, Adoniran Barbosa, Beatles e Bossa Nova. Produzido por Jair de Oliveira, o disco contou com participações vocais de Suzana Salles, Zélia Duncan, Luciana Mello, Patrícia Marx, Edson Cordeiro, Mônica Fuchs e Luciana Paes de Barros (esta simula sons de jegue e de orgasmo).
Ainda no material distribuído à imprensa, ele alerta: ''Este CD não é um rompimento com o bom gosto, mas sim uma sofisticação de sua estética, conjugada a uma ampliação de suas fronteiras sociais. Existem os que propagam o pagode como ele está, o estilo cafona e a vulgaridade não sou um deles. Existem os que dizem que música popular deve ser banalidade e só pode tratar de banalidades não sou um deles. Fico na terceira margem''.
Aos 68 anos, o mais canibal dos tropicalistas continua insuflando subversões.

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