LANÇAMENTO - Simplesmente bárbaros
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domingo, 05 de dezembro de 2004
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
A cena é engraçada! No estúdio, Gal Costa aguarda sentadinha a vinda dos demais companheiros de trabalho. Aos poucos, chegam Caetano Veloso, Gilberto Gil e, por fim, Maria Bethânia. Todos se sentam lado a lado. Caetano dá uma bocejada daquelas. Corte rápido. Bethânia se espanta ao constatar que cada um deverá cantar só ou em dupla determinada música. Ela quer cantar em uníssono, como na gravação original. Gil lhe diz que a divisão foi decidida nos ensaios anteriores. ''Eu estava em Miami'', esquiva-se Caetano. ''Então foi no primeiro dia de ensaio que eu não vim'', relembra Gal.
Bethânia continua retrucando enquanto remexe em seus papéis e constata a nova formação vocal. Caetano e Gal conversam. ''Então vamos organizar'', diz Bethânia, puxando o coro. Em seguida Gal, canta seu trecho num tom desconfortável e erra a letra. Caetano a corrige. ''É quem 'né' otário'', afirma Caetano. ''Você tava aqui Gal, a gente ainda disse: é 'não', não é 'né', não é o 'né'. Tava sim!'', esbraveja Gil. ''Ih, o 'né'' eu não lembro não'', devolve Gal. Bethânia ri da situação: ''Gente...''.
Todos cantam os respectivos versos sob instrução didática de Gil. Parece um coral chinfrim. Gal gargalha. Caetano ri do sorriso da amiga.
Tá parecendo colégio de freira, presídio de mulheres. Vamos embora, Gilberto, diz Bethânia.
Ô, minha filha, você estava aqui quando a gente decidiu... Se não querem assim, não faz assim. Eu só dei uma sugestão que foi aceita por você e Gal, repreende Gil.
Tá bom, Gilberto! Então, tá!, responde Bethânia já sem paciência.
Se não quiser, não faz, pondera Gil.
Não quero!, avisa Bethânia, com conivência de Gal.
Prevalece a vontade das mulheres e ''Os Mais Doces Bárbaros'', canção composta em 1976, é levada a público com os quatro artistas baianos cantando juntos. E felizes. A felicidade, bem como a hilária passagem do ensaio, está estampada no DVD ''Outros (doces) Bárbaros'' em que Maria Bethânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa voltam a roçar vozes, num mesmo palco, depois de 26 anos. A gravação audiovisual do reencontro dos quatro fantásticos está à venda dois anos depois de realizado, mais exatamente nos dias 7 e 8 de dezembro de 2002 no Parque do Ibirapuera (São Paulo) e no Posto 3 da praia de Copacabana (Rio de Janeiro), respectivamente. Trata-se de uma co-produção da gravadora Biscoito Fino e Conspiração Filmes. A direção é Andrucha Waddington com entrevistas e roteiro coordenados pelo antropólogo Hermano Vianna.
O DVD traz takes dos shows, mas evidencia os bastidores do espetáculo. Ensaios, diálogos, passagem de som, entrevistas a jornalistas, imagens contudentes e outras nem tantos foram captadas por discretas e bem posicionadas câmeras o resultado são registros de espontaneidade do convívio entre os quatro amigos, hoje mitos.
Claro, é inevitável o tom comparativista em relação ao espetáculo original, com o qual percorreram algumas cidades brasileiras e resultou num disco duplo de péssima qualidade sonora e um excelente documentário de Jom Tob Azulay. A turnê dos Doces Bárbaros culminou com a prisão de Gilberto Gil, em Florianópolis, no dia 7 de julho de 1976, por porte de maconha tudo registrado no filme, o que confere um cunho jornalístico. Na época, o músico chegou a declarar que o uso da ''erva maldita'', conforme palavras do advogado de acusação, o ''auxiliava sensivelmente na instropeção mística''. Hoje, o atual ministro da Cultura diz não mais encontrar barato ou sentido em fumar maconha. Diz ter ''perdido o hábito''.
Tá! As principais diferenças em relação à primeira incursão dos músicos: o quarteto está mais contido nas performances e as vozes mais encorpadas. O tempo, ao seu jeito, burilou favoravelmente a trajetória de todos.
''Outros (doces) Bárbaros'' abre com Gil ao violão cantando ''Máquina de Ritmo'', uma das duas canções inéditas dele compostas para o revival a outra é a tocante e bela ''Outros Bárbaros''. Ao suingue do amigo, Caetano rebola, mexe e remexe as cadeiras e se embevece com o que ouve. ''Maravilhoso. É daqueles sambas que deram no Djavan. É lindo'', diz ele, lembrando que o primeiro samba do amigo que ouviu foi ''Serenata de Telecoteco'', ainda na Bahia.
Na sequência, Gal, vestida de ''goiabada'', confessa a ansiedade na retomada do grupo, promovida pela série Pão Music, do grupo Pão de Açúcar: ''Eu deitei com as músicas na cabeça, decorando...''. Gal, diga-se, pouco fala quase que só canta. E como canta! Pose de diva, interpreta com preciosismo técnico, por exemplo, ''Eu te Amo'' (Caetano Veloso).
Ela interfere pouco nas conversas entre Caetano e Gil, que traçam comentários que vão desde o Fino da Bossa até preferências e críticas estéticas. Concorda com Caetano, por exemplo, que sua escola é a Bossa Nova e não se identifica com os glamourosos musicais hollywoodianos: ''Até hoje a Judy Garland não me emociona. Todo mundo diz: 'que maravilha'. Acho legal, mas não sinto nada''.
Um certo mistério calculado, talvez ronda a interação de Maria Bethânia nos ensaios. Nos primeiros contatos aparece sisuda, com óculos escuros e cabelos presos em coque. Aos poucos vai crescendo em cena, como acontece nos palcos dos teatros, e puxa as lentes para si. Foi ela quem sugeriu o agrupamento 26 anos atrás: ''Cada um já estava com sua carreira, com sua história bem definida. E eu tinha saudade do tempo do tempo na Bahia quando fazíamos juntos''.
O nome Doces Bárbaros, explica Caetano, foi uma espécie de resposta dele ao extinto jornal Pasquim, que na época falava da invasão dos baianos na MPB. ''Chamavam a gente de 'bahiunos', deplorando mesmo!''. Junto à imprensa, Caetano expõe seu imenso ego e chega a afirmar que briga contra a ''cafonice intelectual'' de setores que falam sobre supostas futricas artísticas aos detratores demonstra como ''enfia o pé''. Bethânia, nos bastidores, comenta ironicamente a excitação de Caetano e Gil diante de jornalistas. ''Nessa fase o pau quebra'', diz.
Entre falatórios e ensaios, o DVD apresenta canções abarcadas nos shows e ensaios gerais. Lá estão 15 títulos, a maioria composta para o primeiro encontro. ''Chuckberry Fields Forever'' (Gilberto Gil) não mais tem a levada rock em roll agora é pop, digamos assim. Bethânia e Gal podem não ter o mesmo visgo que as unia em ''Esotérico'' como antes, mas não deixam de emocionar platéia e telespectador.
Saibam: é prazeroso assistir a ''Outros (doces) Bárbaros''. Aos saudosistas, um alívio. Aos fãs, um reencontro antológico. Aos que não viram o primeiro encontro, uma boa oportunidade para sacar a importância dos quatro baianos. Jota, um amigo, sentenciou: ''Eu vi deuses!''. E viu mesmo!


