LANÇAMENTO - 'Saravah' com sotaque francês
PUBLICAÇÃO
sábado, 10 de setembro de 2005
Antônio Mariano Júnior<br> Reportagem Local 
O bate-papo é regado a muita cerveja, o suficiente para que Paulinho da Viola, com 27 anos incompletos, destrave a língua, fale e toque com vontade. Ao seu lado, uma Maria Bethânia aos 21 anos de idade, cabelos lisos, fumando um cigarro atrás do outros e abrindo o sorriso a cada música que o companheiro de trabalho e de mesa de bar tira ao violão. Novatos, a intérprete baiana e o cantor, compositor e instrumentista carioca interpretam pérolas como ''Pecadora'' (Jair do Cavaquinho) e a bela ''Rosa Maria'' (Aníbal Silva e Eden Silva), além de canções do próprio Paulinho (''Coisas do Mundo, minha Nega'', por exemplo). Sambas hoje clássicos.
O registro, feito num botequim carioca, integra o documentário ''Saravah'', do ator e diretor francês Pierre Barouh. O ano: 1969. Barouh já era conhecido mundialmente graças ao sucesso de ''Um Homem, Uma Mulher'' (1966), para o qual compôs alguns temas e atuou como coadjuvante. Na trilha sonora do filme de Claude Lelouch, ele canta a versão em francês de ''Samba da Bênção'', de Baden Powell e Vinicius de Moraes, responsável pela divulgação da Bossa Nova na França.
Pierre Barouh tinha vindo ao Brasil com o cineasta Pierre Kast para filmar os ritos do candomblé, mas a produção foi suspensa. Para não perder a viagem e de quebra reverenciar a magia da música brasileira cuja iniciação se deu através de Sivuca, no final dos anos 50, na Europa convocou e pediu indicações de nomes ao amigo Baden Powell (1937-2000) e, em três dias, filmou ''Saravah''. O documentário, disponível até então só na França e Japão, chega ao Brasil com 36 anos de atraso. O lançamento em DVD é da gravadora Biscoito Fino.
O áudio é um tanto precário, mas o caráter documental se sobrepõe. Em tom despretensioso, reúne mitos ancestrais como Pixinguinha (1897-1973) e João da Baiana (1887-1974), além do próprio e lendário Baden Powell e os hoje sagrados Maria Bethânia e Paulinho da Viola.
''Saravah'' abre com cenas do carnaval da Mangueira há também imagens do Império Serrano com seu histórico samba ''Heróis da Liberdade'' alguns trechos da letra sofreram cortes impostos pelo recém-criado AI 5, um dos mecanismos de censura do regime militar. Em seguida, garboso, aparece Pixinguinha relembrando bem-humorado a temporada parisiente, em meados da década de 20, com o grupo Os Oito Batutas. Raras também são as imagens do veterano compositor João da Baiana. Elegantemente vestido de branco e sapato bicolor e bico fino, ele dá um show de sapateado, raspa faca no prato para acompanhar-se em ''Yaô'' e ''Okekerê'' e fala um pouco sobre macumba e candomblé. ''Falei africano, cantei a macumba de Angola e agora falei de candomblé. Quem escutar já sabe'', afirma em determinado momento. Na edição, teriam sido extirpadas participações maiores de Clementina de Jesus ela passaria despercebida não fosse o close de alguns segundos durante as gravações com Pixinguinha.
Baden Powell a ponte entre a tradição e a contemporaneidade no documentário explica a influência africana na sua música, em especial nos chamados sambas afros feitos com Vinicius de Moraes. ''Sobre a evolução harmônica acho que teve um pouco da influência do jazz. Sobre a evolução rítmica não, as raízes são africanas mesmo. Então, unindo as duas coisas saiu assim, saiu bonito'', teoriza o instrumentista, que exemplifica com ''Canto de Iemanjá''. Momento inesquecível: o encontro do sax de Pixinguinha, o violão de Baden e a percussão de João da Baiana em ''Lamento''.
Dos 62 minutos do documento audiovisual Pierre Barouh destina um bom tempo à performance solo de Maria Bethânia em ambiente fechado. Cabelos soltos e encrespados, calça justa, camisa branca com nó na cintura e pescoço repleto de guias do candomblé, a cantora baiana solta o vozeirão em ''Baby'', ''Tropicália'' (ambas do irmão Caetano, então exilado em Londres) e ''Frevo Nº 1 do Recife'' (Antônio Maria), acompanhada do pianista Luis Carlos Vinhas e do trombonista Raul de Souza. Takes mostram toda a dramaticidade de Bethânia: caras, bocas, jugular estufada, gestos imensos, visceralidade. Mais cool, ela pega o violão e canta ''Pra Dizer Adeus'' (Edu Lobo - Torquato Neto). Um show à parte.
Para encerrar, uma jam session reúne Baden Powell e a cantora Márcia rodeados de músicos (a ficha técnica não traz os nomes) cantando clássicos como ''Formosa'' e ''Tempo de Amar''. Para finalizar, o próprio Barouh interpreta ''Samba Saravah'', versão de ''Samba da Bênção''. Nos 29 minutos de extras, o DVD mostra a visita de Barouh, hoje com 71 anos, ao morro do Cantagalo, no Rio de Janeiro, em 2003. Acompanhado do cineasta brasileiro Walter Salles Júnior, ele vai à casa do compositor Adão Xalebarada. Há também o registro audiovisual da cantora Bia Krieger, brasileira radicada no Canadá, acompanhada de Sivuca, cantando ''La Nuit de Mon Amour'', ou ''A Noite do Meu Bem'' (Dolores Duran), vertida por Barouh.
Mas o foco principal é mesmo ''Saravah''. Que além de além de imagens raríssimas e reuniões históricas, mostra o olhar embevecido de um estrangeiro sobre a música popular brasileira e alguns de seus mitos atemporais.
O DVD ''Saravah'', de Pierre Barouh, pode ser adquirido também pelo site: www.biscoitofino.com.br


