Os primeiros versos da faixa-título anunciam ''Certidão é papel que não preciso não/ pois o samba que hoje eu canto é íntimo e tem razão de ser''. Pudera. Eles não passam dos 28 anos e já experimentaram um bom punhado de críticas desde que o grupo Casuarina surgiu, em 2001. Como uma grande ironia, o segundo CD lançado pela Biscoito Fino foi batizado de ''Certidão'', fazendo lembrar que o samba é adepto da descontração dos bares e ruas, e não dos burocráticos cartórios.
Composto por Daniel Montes (violão 7 cordas), Gabriel Azevedo (percussão e voz), João Cavalcanti, (percussão e voz), João Fernando (bandolim e voz), e Rafael Freire (cavaquinho e voz), Casuarina, ao lado Tereza Cristina - entre outros nomes -, é uma das gratas surpresas da nova geração do samba oriundas da Lapa, bairro boêmio do Rio de Janeiro.
Embora levantada a bandeira de ''manifesto'', o CD também abre espaço para falar de relacionamentos - os malsucedidos, vale ressaltar. Nas faixas autorais (dez das 14), os novos sambistas revelam versatilidade na hora de compor as letras que falam de amor, rancor, intolerância, arrependimento, e, claro, samba e boemia. O humor inteligente, como já revelado no título e no belíssimo projeto gráfico da capa e encarte (um típico boneco de marionete, caracterizado de malandro, sendo manipulado com cordas), sugere um atrativo a mais na música do quinteto carioca. Samba dos bons!
A seguir, os principais trechos da entrevista que o vocalista João Cavalcanti concedeu à Folha2.

O grupo surgiu de uma região boêmia do Rio de Janeiro, que é a Lapa. Conte um pouco desse encontro entre vocês.
Nós já éramos aspirantes da música antes dessa história da Lapa ressurgir. A gente já tocava em outras bandas e já éramos amigos. Entre 1998 e 2000 a Lapa começou, de fato, a ressurgir. Em 2001 todo mundo estava fazendo um curso de extensão de percepção musical na UniRio e, ao fim do curso, tivemos que apresentar um número musical. Então, como a gente já se conhecia e como estávamos mergulhados neste ambiente da Lapa é que apresentamos uns sambas. Foi quando começou a surgir o Casuarina. Ainda muito informalmente e a título de brincadeira, a coisa foi tomando rumo e fomos convidados para tocar em alguns lugares. Isso já faz seis anos.

E o nome Casuarina, de onde vem?
É uma árvore que tem muito no Rio, na região dos Lagos. Mas, Casuarina também é o nome de uma rua do bairro Humaitá. E, o Rafael (que toca cavaquinho com a gente) mora lá e tem um estúdio de ensaio, bem informal, que o pai dele montou quando ele começou a tocar. O quartel general da gente sempre foi lá; para tirar repertório, ensaiar, fazer reuniões... Quando fundamos o grupo, a gente decidiu colocar esse nome pra homenagear a rua, o lugar onde começamos tudo.

O samba de vocês aponta algumas nuances de outros gêneros, que foge do estigma ''tradicional até a raiz''. Existe preconceito quanto a isso? Seja por parte da velha guarda do samba ou do público?
O disco acaba sendo até um vulto de manifesto nesse ponto. Na verdade, a velha guarda sempre foi muito solícita com a gente e muito positiva em relação a essa nova geração que está fazendo samba. O público, às vezes, tem ressalvas. Ainda existe um preconceito. Cada vez as pessoas têm mais pudor de revelá-lo, mas de uma maneira velada você acaba percebendo bastante. A gente nunca pediu pra ninguém pra ser sambista, é exatamente isso que a gente costuma dizer. O fato é: estamos mergulhadíssimos no repertório do samba, adoramos tocar samba, adoramos viver do samba. Não sei se isso nos faz sambistas, mas nos faz adoradores do samba.

Então, o nome ''Certidão'' da faixa-título do álbum seria uma ironia?
Eu encaro como uma ironia, inclusive na própria letra da música eu digo que certidão é um papel que não preciso, mas que o mestre me notou. Eu não preciso de papel porque o samba não é burocrático, o samba não frequenta cartório, mas a rua. Em contrapartida, tudo que a gente fez até agora foi na expectativa de que os mestres nos dessem aval, o que acaba sendo uma certidão. A ironia vem daí.

Como você enxerga essa retoma atual do samba com Tereza Cristina, Mariana Aydar, Roberta Sá, entre outros nomes, incluindo Marisa Monte e Maria Rita que gravaram CDs com repertório exclusivo do gênero? Você acha que é um modismo, tendência mercadológica...
Eu não vejo como um modismo, pois enxergo o samba como uma, se não a única, das matrizes fundamentais da música brasileira. Essas matrizes estão aí pra ser usadas. Eu tenho uma tese muito particular sobre isso. No início dos anos 90, o estouro mercadológico daquele samba romântico, que equivocadamente foi chamado de pagode, foi muito importante para uma série de coisas, entre elas resgatar o samba da maneira mais genuína, e também para se criar um preconceito muito grande em relação a isso. Hoje as pessoas estão gostando de fazer samba no sentido puro, mas não no sentido fascista do termo. Elas perceberam que ele funciona mercadologicamente. É um gancho de mídia, dizer que determinado disco ''é um álbum de samba''. Vale ressaltar que o samba está ressurgindo pra grande mídia e pra fora do Rio de Janeiro.

Você deve ter tido bastante influencia musical de seu pai, o cantor e compositor Lenine. Fale um pouco sobre essa relação.
Na verdade, o meu pai é mais preponderante na minha formação musical no que diz respeito ao rock e à música Pop mundial, apesar de ele ter sido o primeiro sambista que eu conheci e pelo qual me apaixonei. Meu pai fez uns quatro ou cinco sambas campeões de um bloco de carnaval tradicional aqui no Rio, ''Suvaco do Cristo'', que existe desde 1986. As pessoas, às vezes, comentam que eu faço samba, diferente do que o meu pai faz. Eu digo que não, pois ele foi quem me incitou a gostar de samba. A música nordestina passou por um outro caminho.

SERVIÇO
- CD Casuarina. Gravadora Biscoito Fino. Preço sugerido: R$ 29,00. Outras informações pelo site www.casuarina.com.br ou www.biscoitofino.com.br

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