LANÇAMENTO - Retrato falado de um bairro
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 19 de dezembro de 2003
Célia Musilli<br> Reportagem Local 
Mais de vinte anos depois de ter morado na Vila Nova, o escritor Márcio Américo lança ''Meninos de Kichute'', livro em que fala sobre a infância passada no bairro do centro de Londrina que, entre os 60 e 70, era considerado periferia. De volta à vila, onde deu entrevista à Folha na última quarta-feira, ele falou da transformação das ruas onde quase todas as casas de madeira cederam às de alvenaria. O trânsito continua intenso, como nos tempos em que trombadas de fuscas e DKWs faziam a festa da molecada, alguns bares e lojas mantêm a mesma fachada.
Márcio Américo, 39 anos, morou na rua Ivaí - hoje esquina com a Men de Sá - onde um bar de antigamente traz à lembrança as brigas homéricas que aconteciam por lá. A criançada na torcida encenava o que para o escritor é próprio do ser humano em qualquer idade: a curiosidade pelos espetáculos do cotidiano, pela discussão na vizinhança, pelo show dos bêbados, pelas mortes anunciadas que terminam em notas tímidas nos jornais ou nunca saem dos boletins de ocorrência das delegacias. Mas a população sim, essa espalha e participa da notícia daí, segundo Márcio, o sucesso dos programas de TV que hoje banalizam a violência.
''Meninos de Kichute'', que será lançado hoje, às 20 horas na Biblioteca Pública de Londrina, não é um livro que só aborda mazelas, antes é um livro sobre a amizade, tema que pontua os 14 capítulos com personagens em situações que poderiam estar inseridas em qualquer bairro do mundo, mas aconteceram ali, na Vila Nova, uma comunidade em que os meninos pobres e ricos conviviam com as diferenças. O universo das classes sociais era delimitado pelos quarteirões: ''...eu dividia a rua Ivaí em duas partes, a da rua Purus pra baixo morava a escória, os pobres: eu, o Zé Luis, o Barriguinha, o Pilico, os meninos perebentos, maltrapilhos, que tinham suas cabeças raspadas...que levavam em suas bolsas escolares uma caixa de apenas seis lápis de cor....Da Purus pra cima moravam os riquinhos, os garotos limpos, os que usavam tênis caros...que tinham Monareta, caixa de doze e até trinta e seis lápis de cor...'', relata Márcio construindo através do que possuia e, sobretudo, do que sentia, o retrato da vila nos anos 70.
No bairro, o autor viveu de 1968 a 1979, infância passada nos anos da ditadura militar que, aos olhos dos meninos, não tinha o peso político que, mais tarde, afloraria à consciência como o período da repressão, das prisões e das torturas. Para os moleques, naqueles anos em que a música brega dividia espaço nas rádios com ''hinos'' como ''Eu Te Amo meu Brasil'', o presidente Ernesto Geisel era apenas mais um personagem do álbum de figurinhas que eles colecionam disputando para ver quem terminava primeiro. ''Pra nós o Geisel não era o presidente da república - diz Márcio - era um personagem de quepe e completar a cara dele no álbum era fantástico''. Para a garotada, a Vila Nova era também a pátria, a referência de mundo e a organização social passava pela hierarquia instituída nas assembléias de fundo de quintal onde se votavam questões muito sérias como o valor das figurinhas: ''A do Pelé valia cinco pontos e uma vez votado virava lei, assim como era uma espécie de lei a proibição de entrar nas casas na hora do esconde-esconde'', conta.
''Meninos de Kichute'' é uma obra que expõe as vísceras de um bairro pobre num tempo em que o tráfico de drogas ainda não era ameaça constante para os moradores e o consumo de crack não roubava a infância. Situado no paradoxo da barra pesada da ditadura, o livro mostra uma comunidade fascinada pela TV em preto-e-branco, instituindo o fenômeno do ''televizinho'' como um ato de convivência entre as classes. Na época, Londrina tinha um único jornal, onde se noticiava a presença de tarados na cidade como o rumoroso caso do estupro e morte da menina Neila Ribeiro. À boca miúda, também corria a notícia de que o sorvete de maconha dava o maior barato, o que incendiava a imaginação da molecada assombrada com as novidades que começavam a rondar a cidade tornando os bairros cada vez mais perigosos. Na Vila Nova, por exemplo, ninguém queria fazer parte do time do Roberião, um cara banguela, com fama de pedófilo que, dizem, arrebanhava meninos para o futebol com segundas intenções, para fins libidinosos. Mas no território da vila, onde as ameaças da explosão urbana já ofereciam riscos aos moleques nos anos 70, ainda havia espaço para jogar bolinhas de gude, colecionar gibis, tomar Crush e Grapette nos bares, admirar a menina Kátia e suas calcinhas de renda, chutar bolas que estilhaçavam os vitrais da igreja Nossa Senhora Aparecida. Tudo isso está no livro de Márcio Américo que pode ser compreendido sob a ótica do retrato de uma cidade em transformação, com os conflitos de classes se inserindo em nuances inusitadas como a dos calçados que os meninos usavam para perambular pelo bairro. Um trecho do livro, elucida o título bem escolhido explicando a origem dos garotos através dos sapatos; ''Tênis Adida: rico, meio bundinha, não confiável, tem irmã bonita, ganha presentes no natal, bebe leite todo dia, escova os dentes. Kichute: pobre, legal, confiável, às vezes tem irmã gostosinha, às vezes ganha presentinhos de natal, bebe leite, alguns escovam os dentes. Chinelo Havaiana: muito pobre, desonesto, não tem irmã e quando tem é meio vagabundinha, não ganha presentes no natal, só bebeu leite materno, nunca escova os dentes''.
Em linguagem que oscila entre a elegância e a escatologia underground , ilustrado com fotos que resgatam cenários pontuados pela narrativa, ''Meninos de Kichute'' antes de mais nada é o documento de uma geração e um registro afetivo sobre Londrina, situando os anos ingênuos de um bairro no coração da cidade.
Serviço:
- Meninos de Kichute, de Márcio Américo. Publicação da Leia, Leitores e Escritores Interativos Associados. Projeto Gráfico: Hermen Schmitz. Capa: Eduardo tadeu com desenho de Agenor Evangelista. 219 páginas. Patrocínio: Programa Municipal de Incentivo à Cultura - Promic. Lançamento: hoje, às 20 horas, na Biblioteca Pública de Londrina. Preço: R$ 10,00 (no lançamento). O livro será colocado à venda nas livrarias de Londrina.


