LANÇAMENTO - Retrato de Antônio Maria
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 17 de janeiro de 2006
Ubiratan Brasil<br> Agência Estado 
Em seu recente ''Quase Tudo'' (Companhia das Letras), a colunista Danuza Leão retrata com um misto de paixão e apreensão sua relação com o jornalista Antônio Maria (1921-1964), por quem se apaixonou em 1960, um escândalo para a época. Afinal, ela trocara Samuel Wainer, o todo-poderoso dono do jornal ''Última Hora'', homem refinado e influente, por um de seus empregados, o colunista da seção ''Romance Policial de Copacabana'', um pernambucano mulato, gordo, mal vestido, que suava muito mas era imbatível na lábia e na escrita. Para muitos, uma comprovação de que o amor pode realmente ser cego.
Danuza, porém, via nele um homem de personalidade exuberante, inteligente, sensível. A moldura de um quadro tão perfeito só começou a rachar quando Maria passou a mostrar sinais de ciúme doentio, capaz de protagonizar cenas absurdas como lhe dar bronca por se ''exibir'' para o locutor quando passava de trajes íntimos em frente do aparelho de televisão. ''Danuza flagra uma relação de casamento por dentro com uma sinceridade poucas vezes vista em pessoas tão famosas'', observa, em entrevista à Agência Estado, o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos, autor de ''Um Homem Chamado Maria'' (Relume Dumará), primoroso trabalho biográfico do cronista. ''Mas ela ressalta apenas os problemas dessa relação.''
Lançado em 1996 e há cinco anos esgotado, ''Um Homem Chamado Maria'' volta na quinta-feira às livrarias, agora sob a chancela da editora Objetiva (192 págs., R$ 33), acrescido de mais 50 páginas. É que Santos, responsável por uma coluna diária no jornal O Globo, aproveitou para conversar com amigos de Maria, que estranharam o perfil do cronista delineado por Danuza - segundo ele, Maria se isolara deles.
O material faz a diferença na nova versão do livro, escrito em texto refinado. A maior revelação, que Danuza omitiu em seu texto, é sobre a gravidez descoberta quando já estavam separados. Em férias em Paris, ela preferiu não se pronunciar sobre a obra, mas concorda com o homem traçado por Santos, um dos melhores cronistas brasileiros, pioneiro na televisão e parceiro de músicos em canções famosas como ''Ninguém me Ama'' ou ''Manhã de Carnaval'', homem, enfim, como ele mesmo gostava de dizer, com duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com dois dedos e amar durante a vida inteira. Leia a seguir trechos da entrevista com Joaquim Ferreira dos Santos.
Por que a inclusão dessas novas 50 páginas em ''Um Homem Chamado Maria''? Por que não constavam na edição original?
Desde a publicação da primeira edição do perfil de Antônio Maria, em 1996, surgiram muitas informações novas. Uma biografia é obra em constante reavaliação. É natural que surjam personagens dos bastidores da vida do focalizado com dados que numa primeira passagem ficaram de fora. Quando eu lancei o perfil de Maria, ele estava esquecido. Nenhum livro nas livrarias. Hoje ele tem três, mais a biografia. Uma fonte importante de informação foi o diário íntimo que ele escreveu a partir de 1957 e só em 2003 foi revelado pela família. Tive acesso a novos depoimentos de amigos, parentes, e no ano passado Danuza Leão, uma de suas mulheres, lançou uma biografia com novas luzes sobre a relação dos dois. Entrevistei Danuza e consegui informações, dramáticas, que ela preferiu não colocar no livro dela. Consegui também cartas inéditas de Maria, publiquei dois livros de crônicas dele, recuperando inclusive seu lado de grande escritor de humor. O perfil de 1996 estava esgotado, depois de vender 10 mil exemplares. Acho que hoje há muito mais interesse sobre Maria do que em 1996 e uma necessidade de levar sua vida aos leitores. Antes, as listas de cronistas clássicos parava nos mineiros. Agora todas, sem exceção, incluem Maria também.
Como você analisa a forma como Maria é apresentado no livro de Danuza Leão?
É a visão da Danuza, e não tem ninguém que possa analisar as cenas que ela narra. Maria, o outro que poderia, está morto desde 1964. Acho um livro extraordinário, de grande sensibilidade e texto de primeira. Flagra uma relação de casamento por dentro com uma sinceridade poucas vezes vista em pessoas tão famosas. Na visão de Danuza, Maria se sai extremamente mal. Um possessivo, ciumento. Todos achavam que eles tinham vivido um dos maiores romances do século. Ela agora diz que foi contrário e confirma a frase do Millôr: como são felizes esses casais que a gente não conhece bem. No livro, dou a versão dos amigos do Maria, que acusam Danuza de ter transformado Maria em outro homem. Falei também com gente surpresa de ela ter revelado apenas o lado complicado da relação. Pelo menos em público, as cenas eram de grande ternura.
Maria morreu mesmo de amor?
Maria morreu de um pacote de complicações. Era gordo, não se cuidava, adorava comida gordurosa, tinha tido um enfarte, trabalhava feito um louco. Ser abandonado pela mulher também não ajuda nada, mas ele antecipou seu fim trágico. Não foi por falta de aviso. Os médicos alertavam, ele mesmo cansou de escrever sobre sua cardiodisplicência. A chamada morte anunciada.
E a relação de Maria com a bossa nova? Teria sido ele um pré-bossa-novista?
Maria fazia samba-canção sofisticado num momento em que Tom Jobim também estava nessa. Eram todos personagens das músicas de boate do Rio do início dos anos 1950, todos tentando descobrir uma coisa nova, mas que ninguém conseguiu saber direito o que era até que João (Gilberto) tocasse no violão. Maria foi escolhido como alvo da bossa nova, principalmente por causa da frase ''ninguém me ama ninguém me quer''. A bossa nova era de garotões da zona sul que pegavam todas as garotas. ''Todas me amam, todas me querem''. Era o contrário. Acho que em breve, se Maria tivesse mais tempo, se encontrariam. Maria era amigo de Vinicius, tem composições com Bonfá que são tipicamente bossa nova. ''Sinfonia de Uma Cidade'' também tem um brilho solar da bossa nova. Maria era um cara invocado, brigou com Ronaldo Bôscoli, que era outro e, machões típicos dos anos 1950, se tornaram inimigos mortais. Bobagem. Iam acabar se aproximando. As letras do Maria tinham uma sofisticação que cabia na bossa nova. Mas não se esqueçam também que ele era mulato, nordestino, gordão e a turma da bossa nova era de garoto zona sul que fazia pesca submarina.
Como foi trabalhar com a escassez de maiores referências sobre Maria?
Fiz um perfil, mais do que uma biografia. Não sou leitor de biografias clássicas. Acho que enchem o leitor de um acúmulo de detalhes que atravancam o progresso da leitura. Fiz um perfil, ou seja: Maria está lá com tudo que lhe é de direito, com todas as informações básicas sobre sua vida e obra. Mas sem aborrecer o leitor com minúcias da infância, o nome do garçom que lhe serviu o primeiro drinque no Vogue. Tentei valorizar as informações mais saborosas e preciosas para que a leitura ficasse agradável. Não queria fazer uma biografia em que o leitor fica pulando trechos para ir ao que interessa. Tive muitas informações sobre Maria, a família foi gentil no acesso aos dados, os amigos ainda estão vivos por aí. Não tenho do que reclamar. Mas preferi apresentar a vida do gordo de um jeito mais seco e sem a impostação da biografia minuciosa em que o biógrafo está mais preocupado em exibir a pesquisa do que dar prazer ao leitor.
Restou pouco do tudo que Maria criou, mas, mesmo assim, ele continua como uma forte referência cultural. Como explicar isso?
A obra do Maria cronista e músico é bem conhecida. Eu gostaria de publicar novas seleções de crônicas dele. Caetano Veloso gravou recentemente ''Manhã de Carnaval''. ''Valsa de Uma Cidade'' foi eleita num concurso do noticiário RJTV a música mais bonita sobre o Rio de Janeiro. É uma pena que tenham desaparecido seus programas de televisão. Não há imagens de Maria em cena. Foi um grande homem de rádio, e há fitas em lojas do Rio com alguns de seus programas. Era um profissional do texto. Tudo que escreveu, com exceção do diário, tinha um editor fungando no cangote como inspiração. Não deixou baú de inéditos. Deixou milhares de crônicas, quase todas com algum interesse para os que gostam do bom texto leve e sentimental que caracteriza a crônica brasileira.


