Uma atividade embrutecedora nem sempre consegue sufocar as inquietações intelectuais de um trabalhador. É o que revelam os diários do pioneiro e desbravador francês Ludovic Surjus, editados para o livro ''Ludovic Surjus: história, histórias'', que a professora e pesquisadora Raimunda de Brito Batista lança hoje, às 20 horas, no Museu Histórico de Londrina.
O livro de 318 páginas resgata o percurso de um dos muitos personagens que participaram da aventura da colonização no Norte do Paraná na década de 20. Surjus chegou à região com 14 anos. Trabalhou como agrimensor da Companhia de Terras Norte do Paraná (CTNP). Foi o fundador do distrito de Lerroville (zona sul). Enquanto abria picadas na mata espessa, anotava o que via no diário pessoal, que escreveu durante 41 anos até 1985, um ano antes de sua morte.
A autora descobriu os manuscritos nos arquivos do Museu Histórico enquanto organizava as cartas de George Craig Smith, outro pioneiro da região, para a posterior publicação de um catálogo. ''Quando vi o material, achei que se tratava de uma agenda comercial, um documento de prestação de contas ou algo parecido. Foi uma surpresa constatar que aquelas pastas traziam um relato voltado para o desbravamento sob o olhar de um estrangeiro. Ao escrever, ele foi se transformando num intelectual'' sublinha ela.
Raimunda é paraibana de Campina Grande (PB). Mora em Londrina desde 1972. Seu livro traz um testemunho das experiências, valores e do trabalho árduo de Surjus. Não apresenta uma história pessoal, uma biografia, uma narrativa cronológica da vida do personagem. Mostra, por outro lado, como um indivíduo reage às normas, aos padrões de comportamento e demais valores sócio-individuais que lhe são impostos por uma sociedade diferente daquela de sua origem.
Quando decidiu emigrar para o Brasil, sua família sofria dificuldades financeiras na cidade de Toulon. No início, pensaram em mudar-se para o Canadá onde eram oferecidas terras em quantidade três vezes maiores do que no Brasil, além de passagens para toda a famíia. As condições climáticas, contudo, levaram a família a optar pelos trópicos. Surjus conta o difícil momento de deixar o país de origem, enfrentando o grande enigma do êxodo, além da travessia do mar para uma terra distante.
Ele escreve os diários num português castiço, intercalando a escrita com eventuais passagens em francês. ''Nesses registros ele fala mal do governo, de Getúlio Vargas. Era como se estivesse se protegendo em outra língua'' observa a autora, que preservou os deslizes ortográficos do imigrante. Em seus testemunhos, Surjus desvenda alguns episódios da colonização do Norte do Paraná, da presença do capital inglês na região e dos investimentos aqui realizados.
Através deles, o leitor toma contato com elementos como a paisagem local, a hidrografia, o clima, a fauna, a flora e as mentalidades da época. Raimunda destaca as veleidades literárias do personagem. Lembra que, além de escrever, ele lia muito deixando uma rica biblioteca para seus herdeiros. ''Havia muito detalhamento em seus escritos, uma rara precisão para escrever sobre bichos. E é isso que chama a atenção: ele era um trabalhador envolvido com um dia-a-dia grosseiro e, mesmo assim, era capaz de escrever'' diz.
Surjus nunca voltou para a França. Trocou correspondências a vida inteira com suas primas. Cultivava uma visão fantasiosa da Europa. Raimunda ressalta: ''Nos diários, ele fala muito do lugar em que nasceu e pelo qual passaram grandes líderes como Napoleão Bonaparte, Carlos Magno e Anibal. Ele tinha uma ética calvinista sobre o trabalho e um olhar duro sobre o homem brasileiro. Criticava os trabalhadores locais, particularmente a imprevidência, a maneira como gastavam o que ganhavam com jogos e mulheres sem pensar em poupar''.
Segundo a autora, Surjus tinha posses, mas não acumulou. O livro, de acordo com ela, oferece um rico material para pesquisadores de várias áreas incluindo historiadores, antropólogos, sociológos e estudiosos da língua. A obra é fruto de sua tese de Doutoramento na USP e sua publicação contou com a colaboração do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic).

Serviço:
- Hoje: lançamento do livro ''Ludovic Surjus História, Histórias'', de Raimunda de Brito Batista. Horário: 20 horas. Local: Museu Histórico Padre Carlos Weiss (Rua Benjamin Constant, 900, tel. 3323-0082 e 3324-4641).

mockup