As três décadas de resistência não passaram em branco. A memória do mais famoso salão de humor do Brasil está registrada agora no livro ''Piracicaba 30 Anos de Humor'', que chega ao público reunindo depoimentos e reproduções de dezenas de trabalhos premiados ao longo da trajetória do evento.
A obra, editada pela Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, foi coordenada pelo cartunista Paulo Caruso. É um volume luxuoso de mais de 200 páginas, destinado a perpetuar a mais importante amostragem de cartuns, charges e tiras do País. De bandeja, inclui imagens dos cartazes de todas as edições.
O resgate do acervo exigiu a colaboração do fotógrafo Christiano Dielh, já que muita coisa recuperada sofria ataques de fungos. Ele foi o responsável pela seleção de imagens e restaurações digitais. Nascido em plena ditadura militar, o Salão de Humor de Piracicaba tornou-se emblema de heroísmo combativo.
Em seu texto de apresentação, Caruso tenta colocar um ponto final nas controvérsias a respeito das origens do Salão. Lembra que houve duas iniciativas pioneiras para tentar criá-lo: a primeira, promovida pelo jornalista Roberto Cêra e pelo artista plástico Ermelindo Nardin, contou com um ''lobby'' da patota do tablóide carioca Pasquim.
A idéia era criar um espaço para o desenho de humor dentro do então consagrado Salão de Arte Contemporânea. O projeto ficou no meio do caminho. A segunda empreitada, liderada por Zélio Alves Pinto, reivindicava proposta similar. Foi esta que acabou logrando êxito com a realização do 1º Salão de Humor de Piracicaba, em agosto de 1974, quando o ciclo autoritário radicalizava a perseguição aos opositores do regime.
No texto ''Entre o humor e os homens de verde'', o jornalista João Maffeis Netto repassa toda a saga. Página após página, o livro restituiu ainda o espírito de cada época através dos desenhos. ''Eu estive em 29 edições do Salão'' lembra o cartunista Gualberto Costa. ''Apenas faltei propositadamente na de número 27 por uma chateação momentânea. Caí em tentação. Agora, do alto dos trinta anos de um dos maiores eventos do humor do mundo, lembro-me de uma das falas proféticas do Zélio: 'um evento realmente existe se sobreviver pelo menos dez anos'. Portanto, já passou para a eternidade''.
O livro sai da gráfica com uma tiragem inicial de 3 mil exemplares. Será distribuído a bibliotecas, escolas, secretarias estaduais de cultura, imprensa e artistas nacionais e internacionais que participaram do Salão de Humor. O público em geral poderá adquirí-lo por R$ 80,00 em livrarias, pelo Serviço de Atendimento ao Cliente (SAC) 0800-123 401 ou pelo site www.imprensaoficial.com.br (link livraria virtual).



No anos 70, no período da ditadura, os cartuns reproduziam as mazelas políticas e sociais, como nos trabalhos do paranaense Luiz Carlos Solda (acima) de 1976, e de Marcos Coelho Benjamin (1979) de Belo Horizonte (MG)

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