Inédito em vídeo e DVD no Brasil, ''Vidas Amargas'' está sendo lançado no pacote que homenageia James Dean, no cinquentenário de sua morte. Isso significa que não pode ser comprado sozinho, mas integrando o trio que se completa com ''Juventude Transviada'' e ''Assim Caminha a Humanidade''. São três grandes filmes, dos maiores da história de Hollywood, e é a eles que se deve o mito de Dean, que permanece, depois de tanto tempo, como o emblema do jovem rebelde na tela.
Pauline Kael diz que não existe outro filme que celebre mais o adolescente pirado. ''Vidas Amargas'' baseia-se no romance ''A Leste do Éden'', de John Steinbeck. Foi o primeiro filme de Elia Kazan após o Oscar que recebeu por ''Sindicato de Ladrões'' e se você é cinéfilo sabe que o outro filme ostenta a fama de ter sido feito por que o diretor queria se purgar da experiência da delação, durante o macarthismo.
Todo Kazan está presente em ''Vidas Amargas'', que retira de Steinbeck a parábola dos irmãos, fazendo de James Dean e Richard Davalos as modernas encarnações de Caim e Abel. Chamam-se, respectivamente, Cal e Aaron. Raymond Massey é Adam, o pai autoritário, que prefere um dos filhos, e Jo Van Fleet, que na época tinha apenas dois ou três anos mais do que Dean, é a mãe, Kate, que provoca escândalo ao abandonar a família para se estabelecer como cafetina num bordel. Julie Harris é a delicada Sabra, a única que percebe a necessidade de ternura por trás da agressividade neurótica de Cal.
Até os críticos que não gostam muito do romance de Steinbeck, considerando enfadonha a sua parábola sobre o ciúme e o relativismo do bem e do mal, rendem-se ao fato de que o roteiro creditado a Paul Osborn é um modelo de adaptação. Osborn eliminou toda redundância, inevitável num livro tão caudaloso, ao concentrar-se nos últimos capítulos e desprezar o resto. Ao fazê-lo, reduziu a tragédia da família Trask à sua essência e criou o que poderia ser o modelo de um roteiro bem adaptado. Cal talvez seja o melhor papel de Dean. Chegou a ser definido como flor do mal baudelairiano. A cena em que agride o irmão, levando-o para conhecer a mãe prostituta, é de uma intensidade rara, mesmo na obra do diretor.
Kazan fez grandes filmes para mostrar como a natureza humana se recusa a ser reprimida. Até por isso, e também por ter vindo do teatro, ele dirigia os atores numa histeria imensa, no começo de sua carreira. Só bem mais tarde descobriu a importância do menos, como forma de chegar ao mais, na tela. Dean, desengonçado, com suas frases inarticuladas e o olhar vazio, atua no limite do maneirismo, conforme a sua imagem de ator formado no Método de Stanislavski. Seu exagero poderia depor contra o filme, mas na realidade o enriquece. É difícil encontrar retrato mais acabado do que seja a angústia juvenil. ''Vidas Amargas'' também usa como poucos filmes as possibilidades da tela larga do cinemascope. Você sente o sopro lírico do diretor. É um grande filme.

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