LANÇAMENTO - Ouvidos afinados
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segunda-feira, 13 de setembro de 2004
Ubiratan Brasil<br> Agência Estado 
Enquanto se barbeava pela manhã, Mário de Andrade gostava de ouvir música em uma vitrola. Não se tratava, porém, de um simples divertimento - o escritor e pesquisador avaliava obras e tomava centenas de notas que alimentariam uma vasta coleção e um trabalho imprescindível sobre a musicografia brasileira.
Até sua morte, em 1945, Mário deixaria uma coleção de 544 discos, gravados em 78 rotações. Não bastasse a coleção ser valiosa apenas pelas músicas, o escritor a enriqueceu ao ordenar sua discoteca particular mediante a substituição da capa original de cada disco por outra de cartolina listada, numerando-a e nela escrevendo à mão suas observações de musicólogo, professor do Conservatório Dramático e Musical de São Paulo, folclorista e atento observador da pronúncia do português no Brasil.
Da coleção, a pesquisadora Flávia Camargo Toni elaborou um catálogo com 161 discos. E, junto das anotações de Mário, ''reinventou'' acréscimos para esclarecê-las e enriquecê-las. O resultado é o livro ''A Música Popular Brasileira na Vitrola de Mário de Andrade'', que a Editora Senac São Paulo lança em outubro, quando a TV Senac veicula a série ''Mário e a Missão'', sobre a missão organizada pelo escritor ao Nordeste nos anos 30. A obra virá acompanhada ainda de um CD com músicas originais da discoteca do escritor.
''Mário de Andrade acompanhava os lançamentos de discos com ouvido de estudioso de um fenômeno novo, o da criação de produtos sonoros dirigidos ao mercado de lazer urbano'', observa o crítico José Ramos Tinhorão, no prefácio do livro. ''E, como a partir de início dos anos 1930 passou a receber de um amigo, funcionário da fábrica Victor, com regularidade, todas as gravações de música popular saídas sob aquele selo, continuou até pelo menos 1937 a acompanhar de perto a evolução do fenômeno da criação de música popular.''
De fato, Mário ouvia de tudo e suas pesquisas permitiam o desenvolvimento de diversos trabalhos simultaneamente. A referência mais antiga de um texto seu sobre o conteúdo de um disco data provavelmente de 1927, quando organiza os dados que Pixinguinha lhe oferecera sobra a macumba do Rio de Janeiro. As informações são preciosas não apenas para a pesquisa musical como também para compor um trecho da rapsódia Macunaíma, lançada em 1928.
Dez anos depois, então diretor do Departamento de Cultura de São Paulo, o escritor organizou a Missão de Pesquisas Folclóricas, com o objetivo de fazer registros científicos do folclore musical antes que o rádio deturpasse as raízes da cultura brasileira. O trabalho de Flávia Camargo Toni mostra a depuração do raciocínio de Mário, como a descoberta da tristeza de um dos principais ritmos brasileiros: ''O samba é trágico e principalmente lancinante. Se já a percussão muito áspera, glosada pelo ronco soturno da cuíca, não tem disfarce que a alivie da sua violência feridora, não é dela que deriva a especial tristeza do samba, mas da sua melodia.''


