LANÇAMENTO - Orfeu brasileiro
PUBLICAÇÃO
domingo, 14 de dezembro de 2003
Mauro Dias<br> Agência Estado 
Não custa lembrar: Vinicius de Moraes tinha uma peça e precisava de alguém que a musicasse. Foi apresentado a um jovem pianista e compositor da noite, Antônio Carlos Jobim, em um bar, no centro do Rio. O encontro fez nascer uma das mais memoráveis duplas da canção brasileira. A primeira obra deles foi exatamente aquela peça - ''Orfeu da Conceição'', transposição da tragédia grega para a favela carioca.
Vinicius começou a escrever o ''Orfeu'' em 1943. O musical estreou em setembro de 1956, no Teatro Municipal do Rio, com cenário de Oscar Niemeyer, figurinos de Lila Bôscoli, violão (ao vivo) de Luís Bonfá. Djanira desenhou o cartaz. No elenco, Haroldo Costa, Daisy Paiva, Abdias do Nascimento, Léa Garrido. Foi a primeira vez em que um elenco negro subiu ao palco do Municipal carioca.
Na próxima quinta-feira, às 20 horas, na Livraria Argumento, no Leblon (Rua Dias Ferreira, 417), comemorando os 90 anos do poeta (Vinicius nasceu no Rio, no dia 12 de outubro de 1913), a editora Jobim Music lança ''Cancioneiro Vinicius - Orfeu'', primeiro de dois volumes abordando sua obra musical.
Com patrocínio da Icatu Hartford, o ''Cancioneiro Vinicius - Orfeu'' (200 págs., R$ 186,00) tem projeto gráfico de Elianne Canetti Jobim, apresentação de Suzana de Moraes, prefácio de Cacá Diegues (autor da segunda versão cinematográfica da obra; a primeira, de 1958, foi realizada pelo francês Marcel Camus e ganhou Palma de Ouro em Cannes e Oscar de melhor filme estrangeiro), texto de Sérgio Augusto sobre o mito de Orfeu, textos de Vinicius sobre o processo de escrita da peça (organizados por Maria Lúcia Rangel), fotos dos autores e técnicos e de cenas (assinadas por José Medeiros), cartazes - o nome do desconhecido Jobim não aparece em todos eles -, partituras, manuscritos, correspondência entre os autores, capas de discos, desenhos de Carlos Scliar e Carlos Leão e ainda as partituras, texto da peça e letras das canções.
E que canções. A primeira produção de Tom e Vinicius (o tempo inverteu a ordem de aparecimento dos nomes; escreve-se sempre, primeiro, o do compositor e, depois, o do letrista) rendeu algumas das mais belas canções de todos os tempos: ''Modinha, Lamento do Morro, Nome de Mulher, Se Todos Fossem Iguais a Você'' - e Vinicius acrescentou uma só dele, obra-prima, a ''Valsa de Eurídice''.
Para o filme de Marcel Camus eles comporiam ainda ''A Felicidade'', ''O Nosso Amor'', ''Frevo de Orfeu''. E, sim, a bossa nova começava ali, naquele momento.
Paulo Jobim fez a transcrição das partituras e assina os arranjos, com Aluísio Didier, Alfredo Cardim e Claus Ogerman.
Suzana de Moraes lembra, na introdução, que o Orfeu da Conceição foi escrito em duas etapas. Vinicius teve a idéia da transposição da tragédia no início dos anos 40, e pôs no papel o primeiro ato. Só 15 anos depois, em Paris, o poeta escreveria o segundo e o terceiro atos.
A filha do poeta identifica, no mito, temas recorrentes na obra de Vinícius: a morte e a impotência do artista diante dela; o tempo absoluto da relação amorosa; a impossibilidade da eternização da relação amorosa. E, naturalmente, a música.
Paulo Jobim analisa os arranjos (um cuidadoso trabalho de pesquisa remontou a ordem em que elas apareciam na peça, originalmente), anotou alterações que algumas harmonias sofreram ao longo dos anos e lançou mão de arranjos assinados por terceiros, queridos de Tom. Carlos Diegues lembra que era adolescente quando assistiu à estréia da peça, dirigida por Leo Jusi. ''E nunca mais fui o mesmo'', confessa.
Lembra que era um momento em que o Brasil estava começando a gostar de si mesmo - e talvez isso o levasse a não gostar nem um pouco da versão do Orfeu encetada por Marcel Camus, com o título de ''Orfeu Negro'': ''Apesar de seu sincero encantamento pela paisagem humana e geográfica do Rio de Janeiro, apesar mesmo de um certo carinho pelo que estava registrado, o filme envereda por visão exótica e turística da cidade, o que traía o sentimento da peça e passava muito longe de suas fundadoras e fundamentais qualidades. (...). Passei, desde então, a sonhar com o filme que veio a se tornar o meu Orfeu, realizado 40 anos depois.''
Sérgio Augusto, depois de erudito estudo sobre o mito de Orfeu e suas aparições na arte, ao longo dos séculos, conta que Vinicius, refugiado em Niterói, na casa do pintor Carlos Leão, insone, pegou da estante o libreto de Calzabigi para a ópera ''Orfeu e Eurídice'', de Gluck; um pouco antes, Vinicius ciceroneara o escritor norte-americano Waldo Frank pelo Rio. Frank, vendo os negros na favela, comparou-os aos gregos. Vinicius só soube o que fazer com a idéia depois de ver o libreto de Calzabigi.
E, numa carta de novembro de 1966, dirigida a ''Tonzinho querido, ou melhor, prezado Glasper, ou melhor ainda, Astenio Claustro Fobim'', Vinicius diz que está tentando, na Broadway, que o autor da versão das letras para o inglês não o passem para trás. De tudo o que eles fizeram relativamente ao Orfeu, só isso não deu certo.


