''Dá licença, vou lá fora gritar e volto já''. É com o grito e com suas criações que ela diz salvar o mundo. O discurso ''delirante'' e as roupas criativas e repletas de simbologia acompanhavam essa mulher pelas ruas, mexendo com o cotidiano da pequena Bela Vista do Paraíso (Norte do Paraná). Jardelina da Silva, mais conhecida como Jarda, é uma senhora de 74 anos que recebeu a ''missão de tirar do mundo a fome, as guerras e a miséria''.
Diagnosticada como ''esquizofrênica paranóica'', a ex-costureira transforma palavras e roupas em arte. Desde 1986, Jardelina da Silva vem registrando seu trabalho criativo num estúdio fotográfico da cidade. O acervo chega a mais de 250 fotos. São dezenas de imagens que encobrem diferentes histórias. Algumas delas compõem uma série de cartões-postais que será lançada hoje, em Londrina. ''Bem Dita Seja Ela'' acontece a partir das 21h30, durante a performance sonora e literária do grupo Benditos Energúmenos, no Bar Valentino.
A série é uma iniciativa de um grupo de artistas que vem trabalhando com a obra de Jardelina: o artista plástico Rubens Pileggi Sá e as atrizes Maria Fernanda Coelho, Géssica Arjona, Camila Fontes e Carla Dyacov. Outras pessoas têm se unido a esse projeto para arrecadar recursos para Jardelina, que está com graves problemas de saúde.
Doente, ela já não pode mais gritar lá fora, mas está deixando seu recado para o mundo. Preparando-se para a ''passagem'', quer deixar tudo a seu modo. Ela se desfez de algumas peças, desmanchou roupas, rasgou fotos, tirou enfeites da parede. Sua história já está escrita.
Há anos acompanhando a trajetória de Jardelina, Rubens Pileggi conta que a conheceu em 1996, quando esteve em Bela Vista e viu uma mulher na rua, usando um chapéu e gritando. ''Perguntei porque ela tinha no chapéu cartas de baralho de um lado e caixas de fósforo do outro e porque o chapéu não tinha tampo. Ela me disse que era Deus e o diabo jogando cartas e que, quem ganhasse, poderia acender o fogo''.
Para Jardelina, tanto faz se o seu trabalho é ou não é arte. Assim como Arthur Bispo do Rosário, que tinha o projeto de ''salvar o mundo'' através de sua obra, ela usa suas performances para contar a sua e muitas outras vidas. ''Jarda vive de fato sua incorporação, seus personagens, criando uma poética pessoal para o seu mundo rodeado de dores e sofrimentos, que ela reconstrói em seus discursos e roupas com as quais desfila pelas ruas da cidade''. Pileggi lembra que Jardelina reafirma ter o ''dom'' e frisa que ''não pode deixar cair nenhuma letra, porque tudo estava assinado no Jornal do Mundo''.
Nascida em 1930 na comarca de Itabaiana (Sergipe), Jardelina da Silva chegou ao Paraná por volta de 1960 para trabalhar na lavoura. Teve oito filhos, dos quais três estão vivos.
A história e a obra de Jardelina da Silva vão ganhar, neste ano, dois projetos que serão executados com o patrocínio do Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic). Pileggi vai executar a edição de um vídeo, ''Jardelina e Sua Assinatura no Mundo'', com cenas do cotidiano criativo de Jardelina da Silva. Outro projeto, encabeçado por Géssica Arjona e Maria Fernanda Coelho, é a montagem de espetáculo teatral. ''Desde o começo do ano, quando ela passou por uma cirurgia, temos visitado e conversado com ela. Por enquanto é o que estaremos fazendo. Vamos estar com ela''.


SERVIÇO:
- Lançamento dos cartões-postais com obras de Jardelina da Silva. Hoje, a partir das 21h30, durante o espetáculo literário do grupo Benditos Energúmenos no Bar Valentino (Avenida Bandeirantes, 61), em Londrina. Dezoito modelos serão comercializados a R$ 2,00 cada. Pontos de venda: Ovelorque, J4 (Catuaí Shopping Center), Espaço 2 Arte Café (Rua Acre, 309), Funcart/Escola Municipal de Dança, Tomate Seco Café Teatro e Farmácia Norte.

mockup