LANÇAMENTO - Nas linhas de Artigas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 31 de agosto de 2005
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Rua da Paz, 479. O endereço sugestivo esconde em Curitiba uma casa projetada por um dos mais importantes arquitetos brasileiros: João Batista Vilanova Artigas. Construída no início da década de 50, a residência teve um único proprietário. Quando ele morreu, a casa ficou abandonada, foi invadida por mendigos, que chegaram até a colocar fogo no interior da residência em busca de aquecimento. Mas em 2003, essa realidade começou a mudar. Naquele ano, a arquiteta Giceli Portela comprou a casa, na mesma época em que aconteceu o tombamento do espaço pelo Patrimônio Histórico do Estado. Durante um ano, a casa foi reformada até se transformar no Instituto G Arquitetura - Casa Vilanova Artigas. Todo o processo de restauração foi registrado em um livro, que tem lançamento hoje, no Museu Oscar Niemeyer.
O livro ''Casa Vilanova Artigas Curitiba'' é resultado do trabalho de um equipe grandiosa, mas teve iniciativa da nova proprietária do espaço. ''Quando eu comecei a reformar a casa, recebi inúmeras visitas de estudantes e arquitetos. Achei que eu deveria dividir essa experiência'', conta Giceli. Através de uma amiga, ela soube que o livro poderia ter apoio da Lei Municipal de Incentivo à Cultura. E foi com o apoio da lei que a publicação, cuja idéia era ser algo simples, de cerca de 30 páginas, foi produzida. O produto final tem 74 páginas editadas em inglês e português e traz fotos feitas pelos arquitetos e estagiários que participaram da reforma, além de imagens da fotógrafa e arquiteta Yaskara Florenzano.
O texto principal relata desde a concepção da residência até a sua realização e é assinado por Marcelo Saldanha Sutil, doutor em História da Arquitetura. Entre fotos e detalhes da obra, o livro traz ainda depoimentos de reconhecidos arquitetos brasileiros como Paulo Mendes da Rocha, Joel Ramalho, Marcos Carrilho, Irã Dudeque, Key Imaguire Júnior e Manoel Coelho. A apresentação do livro é assinada por Rosa e Julio Artigas, filhos de Artigas. A obra ainda traz croquis do arquiteto Roberto Gandolfi.
Construída entre 1953 e 1957, na Rua da Paz, a casa foi projetada para o médico João Luiz Bettega, em 1949. Com desenho e disposição arquitetônica incomum para a época, a residência criou polêmica e gerou críticas. Nela, todos os ambientes são voltados para a face Noroeste, que mais luz solar recebe em Curitiba. Um outro fator que levantou polêmica à época foi a cor vermelha incorporada ao projeto, associada inevitavelmente às convicções políticas de Artigas. Para muitos, a casa projetada pelo arquiteto, filiado ao PCB (Partido Comunista Brasileiro) era quase uma subversão. A casa de 500 m2 hoje é sede do Instituto G Arquitetura Casa Vila Nova Artigas e suas atividades são realizadas em parceria com a Fundação Vilanova Artigas, em São Paulo.
Distribuída em dois pavimentos, o piso térreo serve às principais atividades culturais como exposições, cursos e palestras. O pavimento superior é destinado à administração e serve de escritório para a arquiteta Giceli. ''É uma satisafação pode trabalhar nesse espaço'', anima-se. Mas sobre o fato da iniciativa da arquiteta ter contribuído para o resgate da história arquitetônica do Estado, Giceli é modesta: ''Qualquer um pode fazer o que fiz, só precisa vontade''.
A casa da Rua da Paz integra o quadro de importantes obras assinadas por Artigas. Nascido em Curitiba, em 1915, Artigas deixou cerca de 700 obras espalhadas pelo País, principalmente em São Paulo, Curitiba e Londrina. Ele foi responsável, por exemplo, pelos projetos do Estádio do Morumbi e pelo prédio da Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo (FAUUSP).
Em Curitiba, ele também assinou o projeto do Hospital São Lucas e da residência da família Niclievicz. Já em Londrina, projetou a antiga estação rodoviária, hoje Museu de Arte, a Casa da Criança e o Teatro Ouro Verde, que foi concebido para ser um cinema.
Concomitante ao lançamento do livro que resgata um das obras do arquiteto, o Museu Oscar Niemeyer abriga a exposição da cadeira ''Preguiça'', projetada por Artigas em 1945. Construída em madeira e couro, a cadeira está sendo reeditada pela empresa curitibana Desmobília e produzida de acordo com as especificações e os projetos cedidos pela Fundação Vilanova Artigas, em São Paulo. A produção é feita em pequenas séries, de 10 em 10 unidades, numeradas e com certificado de autenticidade. Uma delas permanecerá em exposição no Museu Oscar Niemeyer. Antes da abertura da exposição e do lançamento do livro, também acontece uma palestra sobre a obra do arquiteto.
Serviço:
- Lançamento do livro ''Casa Vilanova Artigas Curitiba'' e abertura da exposição da Cadeira '''Preguiça'', projetada pelo arquiteto. A partir das 19 horas, com palestra sobre a obra de Artigas. Hoje no Museu Oscar Niemeyer (Rua Marechal Hermes, 999), em Curitiba. Informações pelo telefone (41) 3350-4400


