Imagine a correria, quando uma boiada irrompeu na Avenida Paraná e terminou invadindo as Casas Pernambucanas.
Há quem lembre também de uma passeata de prostitutas carecas em protesto contra a polícia, que teria raspado seus cabelos para combater uma infestação de piolhos na cidade.
Outros poderão recordar uma manifestação de estudantes ocorrida na Concha Acústica, logo dispersada com o barulho de uma sirene. Na ocasião, sobraram meia dúzia de gatos pingados dispostos a enfrentar o que imaginavam ser a tropa de choque da polícia. Quando o veículo se aproximou e parou em frente à Centro de Saúde, veio a surpresa: era uma ambulância.
Os episódios citados acima estão presentes no livro ''Londrina Puxa o Fio da Memória'', que as jornalistas Célia Mussilli e Maria Angélica Abramo lançam hoje, na Biblioteca Pública. A sessão de autógrafos começa às 20 horas e contará com um show dos músicos Marquinhos e Marta Santos, cujo repertório será dedicado também a compositores revelados na cidade, como Arrigo Barnabé e Itamar Assumpção.
O livro, viabilizado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic), resgata a memória do Centro Histórico do município enfocando os costumes da população. ''Procuramos falar da ligação afetiva das pessoas com os lugares'' explica Maria Angélica. ''Já saíram alguns volumes sobre os prédios históricos, mas todos com abordagem arquitetônica. Nosso trabalho enfatizou o lado comportamental, buscando sinalizar as histórias e os fatos pitorescos que marcaram alguns locais do centro. É um livro despretensioso, jornalístico, um roteiro para futuros pesquisadores'' completa Musilli, que é editora do caderno Folha 2, da Folha de Londrina.
As autoras levaram oito meses para levantar os pontos históricos, recolher depoimentos, pesquisar em jornais e garimpar as fotografias para ilustrar as páginas. As fotografias, aliás, foram pinçadas de arquivos do Museu Histórico e da Folha de Londrina. Já as imagens atuais trazem a assinatura de Milton Dória. O ''passeio'' começa pelos trilhos do trem, com a primeira parada na estação ferroviária, cuja edificação abriga hoje o Museu Histórico.
No capítulo, elas lembram o ''mico'' que foi sua ''segunda'' inauguração, em 20 de julho de 1950, quando o barracão de madeira original deu lugar a uma imponente construção com telhados inclinados. Em razão de desavenças políticas entre o Governo do Estado, o município e os administradores da Rede Viação Paraná-Santa Catarina (RVPSC), o que seria uma festa virou uma solenidade vazia. As autoras escrevem:
''O Jornal Folha de Londrina, em 19 de julho, tinha feito uma edição especial sobre o acontecimento. Mas no dia seguinte, ao chegar na estação, o jornalista João Milanez, dono do jornal, percebeu que nenhuma manchete dissimularia a frieza do ato. 'Foi um fiasco', comenta, mais de 50 anos depois''. A Avenida Paraná, o Edifício Sahão, a Catedral, a Concha Acústica, a Santa Casa, o edifício Júlio Fuganti, o Bosque, o Colégio Mãe de Deus, a Agência de Correios e Telégrafos, o prédio do Museu de Arte (que já foi lugar da Estação Rodoviária), o Colégio Hugo Simas, o prédio da Biblioteca Pública (que já abrigou o Fórum) e a Rua Sergipe são alguns dos pontos históricos tratados ao longo das 100 páginas do volume.
Maria Angélica destaca uma passagem curiosa do livro no capítulo dedicado à Companhia Telefônica Nacional, inaugurada em 1947 num prédio da alameda Manoel Ribas, hoje desocupado. Através do depoimento da telefonista mais antiga, Eunice Carmelingo, descobriu a existência de mensageiros que localizavam as casas das pessoas chamadas logo que a ligação chegava ao posto. Eles tinham a função de levar o recado aos moradores para que estes se dirigissem até a Companhia de Terras onde funcionou uma telefônica provisória para atender a ligação.
O mensageiro tinha habilidades para localizar os usuários e ganhava por chamada, o preço era incluído na conta do telefone. Se a pessoa não estivesse em casa, ele saía a pé atrás dela. Ia procurá-la, inclusive, no legendário bar Brasserie, que era frequentado pela elite e ficava no meio da praça da Catedral, na Avenida Paraná. Quase sempre encontrava quem procurava.
Ao registrar a trajetória do prédio do Grêmio Litetário e Recreativo Londrinense (ocupado hoje por uma associação religiosa e um restaurante), as autoras remetem o leitor aos shows e bailes que se realizavam em seu salão na década de 50, comandados pelo hoje colunista social Oswaldo Militão. Curiosamente, resgatam um personagem que frequentou páginas policiais na década de 90: Valetina de Andrade, acusada de liderar uma seita satânica envolvida com a morte de crianças.
Mas cinquenta anos atrás, ela era crooner no Grêmio, onde cantava sucessos românticos como ''Besame Mucho''. No livro, há espaço também para críticas ao descaso dos poderes públicos para com o patrimônio histórico da cidade. As autoras lembram, por exemplo, a reforma malsucedida conduzida em 2002 pelo Governo-Lerner no Cine-Teatro Ouro Verde, que inviabilizou a projeção de filmes no local. Acusam o abandono da Praça Rocha Pombo, transformada em ponto de prostitutas.
Discutem também a necessidade de restaurar a arquitetura original do prédio onde está instalada a Secretaria Municipal de Cultura, que já abrigou a Casa da Criança e a Biblioteca Pública. ''Quando acrescentaram dois andares, descaracterizaram a obra'' dizem. ''Apesar de nova, Londrina já demoliu muita coisa. E demoliu não porque eram construções ruins, mas porque a cidade está sempre em busa de modernidade. Aqui, tudo é adaptado, e aí acaba se perdendo muita coisa'' completa Maria Angélica.
Pela temática e linguagem acessível, o livro já está sendo utilizado em sala de aula por alunos de uma escola do distrito de Guaravera, e também por detentos da Penitenciária Estadual de Londrina (PEL). O volume saiu da gráfica com uma tiragem de mil exemplares, que serão distribuídos a bibliotecas e à rede pública de ensino. Uma pequena conta será vendida hoje, durante a sessão de autógrafos.

Serviço:
- Lançamento do livro ''Londrina Puxa o Fio da Memória'', de Célia Musilli e Maria Angélica Abramo. Hoje, às 20 horas, na Biblioteca Pública de Londrina (Av. Rio de Janeiro, 413). Patrocínio: Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic).

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