Não é de hoje que ela pede bênção ao samba. Desde o seu CD de estréia, lançado há quatro anos, Maria Rita se empolgou com o resultado de algumas gravações. Agora, em ''Samba Meu'' (Warner Music), a intérprete arrisca cantar na cadência do gênero em disco com produção de Leandro Sapucahy.
Durante a coletiva on line realizada na véspera do lançamento do álbum, na semana passada, a cantora revelou que suas ambições desviam do alvo de se tornar uma sambista - o que não a impediu de aproveitar a grande evidência que o samba vem conquistando.
Só para citar alguns nomes, Mariana Aydar, Virgínia Rosa, Roberta Sá e Marisa Monte lançaram recentemente discos dedicados a esta vertente musical. Sobre a última, ela explicou: ''A Marisa tem uma história com o samba muito mais intensa e orgânica do que a minha. Enquanto eu consumi muito o samba, ela o viveu. Quando Marisa lançou esse disco, eu não tinha o projeto na cabeça. Mas fiquei com um pouco de receio de estar fazendo modismo''.
Com ou sem aspirações, Maria Rita inicia o disco cantando à capela que seu samba ''vai tocar no infinito'', na faixa-título de Rodrigo Bitencourt. No repertório, seis das 14 música são de autoria de Arlindo Cruz. ''A minha história com o Arlindo vem de vários momentos. É como se ela tivesse que se concretizar de alguma forma, pois o Tom Capone me falava muito do Arlindo. O Tom faleceu, e somente três anos depois eu conheci o Arlindo pessoalmente'', contou.
Além do ex-Fundo de Quintal, o samba de Maria Rita também ganhou bênção de Paulinho da Viola, Velha Guarda da Mangueira - que participou dos vocais em O Homem Falou, de Gonzaguinha -, Fred Camacho, Franco e Picolé, entre outros bambas. Da nova geração, a assinatura do talentoso Edu Krieger surge em duas faixas: ''Maria do Socorro'' e ''Novo Amor'' - esta última já registrada de maneira mais sublime por Roberta Sá em seu último CD.
Para tentar se desfazer do protecionismo gerado logo que despontou como a filha de Elis Regina, a cantora buscou ousar ao compor um repertório exclusivo de sambas. ''Desde o meu primeiro disco foi criada a imagem de diva intocável que não corresponde com o meu dia-a-dia e estava me fazendo mal'', desabafou.
Paulistana radicada há pouco tempo no Rio de Janeiro, Maria Rita lembrou que sua musicalidade atual ''está lá e cá''. ''Eu comprei o último disco do Fundo de Quintal que tem a música Ponte Aérea, e ela fala justamente desse assunto. Então, eu tendo nascido em São Paulo e não na Lapa, ou no subúrbio do Rio, não impede o meu respeito e minha paixão pelo gênero'', categorizou.
O tradicional trio de jazz (piano, baixo acústico e bateria), presente nos dois trabalhos anteriores, se manteve para estofar o samba de Maria Rita. ''A escolha por manter essa base foi do Leandro, a princípio rejeitada por mim, mas ele me convenceu da necessidade de me manter fiel à minha sonoridade. E isso foi utilizado de uma forma construtiva, pois trouxe um pouco do que vinha dos meus outros trabalhos, o que é mais verdadeiro do que se fosse só o samba'', refletiu a intérprete.
Na tentativa de subir o morro, Maria Rita segue com produções e arranjos muito bem construídos, além da inquestionável voz melodiosa. Entretanto, para fazer samba em um cenário musical tão rico de originais interpretações, falta inovação e certa dose de manha. Ou seja, mais samba e menos bossa.

Serviço:
- Lançamento do CD ''Samba Meu'', de Maria Rita. Warner Music. Preço sugerido: R$ 28,00

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