LANÇAMENTO - Livro lembra os heróis da sinuca
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 12 de agosto de 2003
Ubiratan Brasil<br> Agência Estado 
A malandragem lendária do taco e das bolas se encontra em ''Pela Sete'', obra de Carlos Bittencourt Ferreira lançada pela Códex
A recomendação aparece logo na apresentação, escrita pelo cineasta Ugo Georgetti: a leitura do livro deveria ser iniciada pelo fim, justamente pelo capítulo intitulado ''Pequeno Glossário''. É que ali estão alguns termos técnicos utilizados pelo autor. À medida que se prossegue na leitura, porém, torna-se dispensável tal recurso: as histórias de ''Pela Sete'' (144 páginas, R$ 28), recentemente lançado pela Códex, envolvem o leitor em uma longa e aparentemente interminável partida de sinuca.
É justamente sobre esse tipo de jogo que, para alguns, é sinônimo de malandragem, o livro escrito por Carlos Bittencourt Ferreira. Não se trata obviamente de um manual, embora seu autor seja um hábil encaçapador de bolas - Pela Sete revela a luta do homem solitário, que precisa contar com todas suas habilidades para vencer os obstáculos. Uma luta que se assemelha aos mocinhos de faroeste, que dispõem apenas de um cavalo e uma arma para garantir a sobrevivência.
O próprio Ferreira anuncia seu propósito, na apresentação: ''O caminho triste, tortuoso e suado da sinuca a dinheiro. As feras se matando por trocados, a fumaça de cigarro no ar, o amargo travo da cachaça na boca, as noites insones, a dor nas costas, a dor da consciência, o medo. Está tudo aqui.'' É a porta de entrada para personagens míticos como Carne-Frita, Rui Chapéu, Da Graxa, Boca-Murcha, entre outros.
Histórias de sinuca remetem imediatamente a João Antônio, cuja linguagem crua, mas isenta de maniqueísmo na descrição de um ambiente tornou-se exemplar. Ferreira reconhece a genialidade do colega e, se não se atreve a copiar seu estilo dolorido e cru, consegue criar retratos de tipos cuja filosofia de sobrevivência é a de não dar chance ao inimigo ou à própria vida.
Depois de uma rápida apresentação do jogo e dos lugares que se tornaram míticos entre os praticantes da sinuca, Ferreira relembra os tipos que se transformaram em verdadeiros ícones. Como o legendário Praça, mulato de 80 e tantos quilos, cigarro pregado no canto da boca desdentada, calça, camisa e sandálias pretas. ''Praça parece o cavaleiro negro, mas não se engane: é o paladino do desacato e do baratino'', observa.
É o início de partidas épicas, acompanhadas por testemunhas que louvam aos deuses a oportunidade de estar naquele ambiente, naquele momento. Os duelos são travados de forma meticulosa e Ferreira reproduz apenas os detalhes necessários, conferindo velocidade e emoção à narrativa: ''A mesa estava aberta como um cofre. Frita nem olhou para o parceiro. Passou giz no taco e com um leve efeito matou a bola marrom no meio, colocando a branca a um palmo da cinco. Depois, empurrou a azul na ida e, na volta, matou a seis, a sete, voltou à seis e depois de ela cair no fundo, trancou a partida, matando a sete duas vezes.''
Um personagem não pode passar despercebido: Jesus, assim apelidado por ser um jovem de cabelos nos ombros, com a barba sempre rala. De dia, estudava comunicação; à noite, impunha-se como mestre na sinuca. A precisa descrição de seu jogo não é exercício de imaginação - trata-se do próprio Ferreira, que disputou e assistiu a jogos e partidas memoráveis pelos salões mais tradicionais de São Paulo.


