LANÇAMENTO - Livro faz balanço realista do comércio sexual
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domingo, 01 de fevereiro de 2004
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
''Quem é aquela garota? Quem é aquela garota? comentava o público. O burburinho masculino se intensificava a cada peça que caía no chão. O nervoso de Dora era tanto que ela mal conseguia se mexer, quanto mais dançar. Era a primeira vez que subia em um palco e sua única preocupação era seguir o conselho do que recebera do antigo DJ, chamado Paulo.
Qual é seu nome?
Dora.
Você é a próxima.
Eu não sei fazer isso adiantou.
Não precisa saber, basta subir no palco e arrancar a roupa''.
A londrinense Dora é uma das garotas de programa cujas vidas no submundo do sexo paulistano são relatadas no livro-reportagem ''Contos de Bordel'', que acaba de chegar às prateleiras pela Ferrenho Editorial. Dora é um nome fictício, assim como dos demais ''personagens'' entrevistados na obra.
Já os endereços, lugares e nomes de estabelecimentos foram mantidos pelas autoras Renata Bortoleto, Ana Laura Diniz e Michele Izawa. O livro investiga a prostituição feminina na famosa ''Boca do Lixo'', a região da Praça da República, o quadrilátero formado pela Rua Aurora e as avenidas São João, Ipiranga e Rio Branco.
O livro mapeia o comércio do prazer radiografando boates de strip-tease, teatros de shows eróticos, cinemas-pornôs, hotéis e esquinas do Centro Velho de São Paulo. Baseado em depoimentos e entrevistas, narra histórias colhidas com mulheres, clientes, empresários, cafetões, DJs e laçadores (sujeitos que ficam nas portas das casas assediando os pedestres para que entrem, assistam aos espetáculos e gastem com bebidas ou programas).
A maioria dos inferninhos funciona à noite, mas algumas casas abrem as portas em horário comercial. ''É um círculo vicioso. Depois que alguém entra, é muito difícil sair. Você vai de uma casa para outra. A rotatividade entre as garotas também é grande. É uma corrente, uma puxa a outra'' diz um dos entrevistados.
No café-teatro Orion, o chamariz é a ''hora da massagem'', quando as stripers desfilam no palco e descem para a platéia para formar pares com os espectadores. Depois de combinar a quantia e o tipo de contato que desejam (sexo oral, masturbação ou refregas), fazem tudo ali sobre as poltronas, à vista dos que não estão participando.
No American Bar, há reservados para quem busca mais do que bebidas e conversa. A taxa cobrada para a utilização de saunas é de 25 reais. ''Limpeza e arrumação não podem ser exigidas'' observam as autoras. ''Os usuários correm o risco de sentar nas bancadas de azulejo branco, onde outros homens acabaram de ejacular depois de toques mais atrevidos''.
Quem procura sexo gratuito, recorre ao Cine Art Palácio, localizado na Avenida São João. Ali, as pessoas trocam carícias e a masturbação é permitida. No Cine Los Angeles, as garotas de programa aproveitam a excitação dos homens para levantar dinheiro mais facilmente e economizar tempo, uma vez que os espectadores já estão estimulados pelos filmes pornôs.
No Cine Santana, são projetados filmes até duas horas da tarde. A partir desse horário, as garotas protagonizam os números do dia, espetáculos que são encerrados com uma ''grande atração''. Todas entram dentro de uma banheira. Sabonetes são distribuídos aos espectadores, que recebem o convite para ensaboar os corpos das parceiras.
Na boate Moinho Vermelho, eventuais problemas com clientes que se recusam ou não queram pagar são levados à delegacia. Outras, são resolvidos no próprio estabelecimento. Certa vez, um homem bebeu seiscentos reais e, na hora de acertar a conta, alegou estar duro. Desconfiados, gerente e funcionários deixaram-no de ceroulas. E as notas apareceram dentro do sapato dele.
Homens endinheirados são sempre bem tratados no mercado do sexo. ''Nesse mundo ninguém quer o bem de ninguém. Todo mundo age por interesse. O que puder ser arrancado, será arrancado. O cliente será bom enquanto o dinheiro for torrado'' afirma um gerente de uma das casas noturnas. Para a maioria das profissionais da luxúria, o beijo é proibido.
Teme-se o envolvimento emocional, que é acompanhado geralmente de machismo, ciúmes, intolerância e violência. Algumas das entrevistadas exibem marcas profundas no próprio corpo. Ao contrário do que se imagina, transar não é garantia de lucro para as mulheres que trabalham em boates. Uma boa conversa, várias latas de cerveja e drinques caros, sim.
Segundo as autoras, a capacidade da garota fazer o cliente beber, pode ser bem mais rentável que qualquer penetração. Dora, que vende o corpo há cinco anos em São Paulo depois de ficar desempregada em Londrina, fatura com as comissões a cada vez que o garçom é chamado em sua mesa. Diz que estabelece a meta de ''deixar o cliente somente com a passagem do ônibus''.
Aproveita-se de novos frequentadores utilizando técnicas, como despejar o líquido no chão, esvaziar o copo no banheiro ou deixá-lo cair de propósito. Em algumas ocasiões, combina com uma companheira de trabalho para se aproximar da mesa, pedir um gole e sumir com o copo. Os visitantes novatos nunca imaginam os altos cifrões que constam nas tabelas de preços. E se assustam quando os dois reais de duas cervejas do bar se multiplicam por sete.
A preocupação em vender bebidas é recorrente entre as garotas. Dependendo do cliente, nem precisarão ir para a cama. Uma cerveja de quatro reais ou um whisky de nove reais, nos badalados bares da região dos Jardins da capital paulistana, alcançam preços exorbitantes na Boca do Lixo. Na época em que o livro foi escrito, entre 2000 e 2001, cervejas custavam 13 reais e uma dose de whisky chegava a 8 reais.
''Quanto você cobra para realizar uma fantasia minha?
Que fantasia? Tocar em mim eu não admito respondeu Sarah.
Não, eu quero que você me chicoteie. Pago o preço que quiser.
Trezentos reais. É só chicotada?
Chicotada e você de salto.
Ah, hoje eu não estou de salto, mas amanhã eu venho.
No dia seguinte Sarah estava lá. De Luís VX, seus aproximados sessenta e cinco quilos fincavam no peito e na barriga do homem. Ela perguntava se podia sair. Mas ele, sangrando, ordenava que continuasse''.
Dos 6 mil reais que Sarah consegue por mês, muitos são obtidos atendendo a pedidos inusitados como esse. Em alguns casos, narrados em detalhes no livro, ela foi levada a participar de situações envolvendo coprolagnia (excitação sexual produzida pelo cheiro, visão ou contato de matérias fecais). Embora sinta nojo, não recusa os programas. Cobra mais caro pelas fantasias porque sabe que é só dar o preço que os clientes pagam.
As experiências de Sarah, Dora, Valesca, Janaína e Fabíola e alguns entrevistados masculinos norteiam os capítulos do livro. As autoras incluíram um ''making Of'' ao final, onde relatam alguns dos riscos que correram durante a pesquisa de campo, como quando foram perseguidas por um bando de skinheads ou quando uma delas teve a blusa rasgada pela faca de um homem enquanto conversava na rua com uma garota de programa.
A obra teve como ponto de partida o trabalho de graduação apresentado por Renata, Ana Laura e Michele ao término do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, em 2001. No mesmo ano, recebeu o ''3º Prêmio Volkswagen de Jornalismo'', na categoria Livro-Reportagem.
Serviço:
- Livro ''Contos de Bordel''. Autoras: Renata Bortoleto, Ana Laura Diniz e Michele Izawa. Lançamento: Carrenho Editorial (Tel. 11/5539-3378. E-mail: [email protected]). Preço: R$ 29,00.


