LANÇAMENTO - Literatura de mulheres
PUBLICAÇÃO
sábado, 06 de março de 2004
Karla Dunder<br> Agência Estado 
''Feminino'' (Editora Lazuli, 108 págs.) chega às livrarias e às bancas de revistas com a proposta de apresentar uma literatura feminina, ou melhor, uma literatura produzida por mulheres, que aborda temas pertinentes a elas na sociedade contemporânea.
Os 11 contos reunidos nessa obra foram publicados na seção de ficção da ''Revista E'', do Sesc, parceiro dessa publicação. ''Reunimos um grande material produzido para a revista. Escolhemos os contos escritos por mulheres para apresentar como elas enxergam o mundo e o seu comportamento frente a ele'', diz o organizador Miguel de Almeida. Como observa o diretor regional do Sesc São Paulo, Danilo Santos de Miranda, na apresentação, ''se o século 19 tivera um número tímido de intelectuais femininas, os cem anos seguintes registraram o avanço e a consagração de seus talentos''.
Para Almeida, a literatura foi um instrumento de militância do feminismo nas décadas de 60, 70 e início dos anos 80. ''Os livros eram instrumentos de luta. Após uma série de conquistas, essa luta passou a ser vivenciada de uma outra maneira, até mais sofisticada. A proposta é observar o que elas estão pensando neste momento.''
O livro é marcado pela diversidade estilística, autoras com trajetórias próprias e de pontos distintos do Brasil. No livro, a jovem Ana Paula Pacheco está presente ao lado de Nélida PiÀon. Apesar de todas as diferenças, uma certa tristeza e até mesmo o pessimismo dá coesão à obra.
Como observa a pesquisadora Nelly Novaes Coelho no prefácio, existe uma ''nova mulher'' desafiante, liberada e ao mesmo tempo perplexa diante da falência de seus ideais. ''Uma nova voz de mulher faz-se ouvir na contramão das lutas idealistas: a voz de uma mulher desencantada, que conquistou a liberdade, mas descobriu que esta não fora ainda incorporada pelo sistema.''
Ainda, segundo Nelly, o que resta é não levar o mundo a sério, sim com certa displicência e ironia. O vazio do dia-a-dia pode ser observado em ''Izildinha Fez um Café'' e ''Tudo Continuou Igual'', de Elvira Vigna. A apatia e a banalização das coisas é uma das denúncias do conto. Essa banalização dos valores está presente em ''Nada a Lastimar'', de Edla Van Steen. A busca por descobrir a própria identidade é o tema de Letícia Wierzchowski em ''Desaparição''. ''Creio que essas discussões reflitam uma época e conduzem à reflexão,'' avalia Almeida.


