A historiografia da música pop no Brasil é tão indigente que mesmo quando um livro irregular como ''Emissões Noturnas - Cadernos Radiofônicos de fm'' (Grinta Cultural), do jornalista Fabio Massari, chega às lojas, é preciso comemorar. A obra reúne 25 entrevistas (ou trechos de entrevistas) com artistas de rock internacionais realizadas entre 1987 quando Massari começou a trabalhar na rádio 89FM, de São Paulo e 1996, quando chegou ao fim o programa Rock Report, comandado pelo jornalista desde 1991. Uma exceção é uma entrevista de 1998 com Wayne Kramer, ex-guitarrista da banda garageira MC5, do final dos anos 60, que não foi gravada para rádio e saiu na Folha de S. Paulo naquele ano.
No prefácio, o autor explica que ''Emissões Noturnas'' nasceu na verdade no processo de pesquisa para outro livro - um apanhado geral das melhores entrevistas sobre música que Massari realizou em toda a sua carreira, com passagens por vários veículos (além do rádio, colaborações para vários jornais e revistas, além do longo período em que o jornalista trabalhou para a MTV brasileira). Em certo momento da pesquisa, Massari percebeu que só as entrevistas realizadas para a 89FM já forneciam um material rico o suficiente. ''(Os arquivos) praticamente se impuseram como livro possível e, na verdade, já meio pronto'', argumenta.
Massari sempre foi identificado com o universo do rock alternativo, então é natural que figuras indie compareçam em maior número em ''Emissões Noturnas''. Mesmo os iniciados nas facções mais obscuras do 4 por 4 não se sentirão familiarizados com nomes como Young Gods, I Love You, Liquid Jesus ou Ozric Tentacles. Mas não faltam entrevistas com ícones mais ''acessíveis'' do indie: Kim Gordon, do Sonic Youth, Bobby Gillespie, do Primal Scream, Mark Arm e Steve Turner, do Mudhoney, Henry Rollins, ex-Black Flag, Nick Cave.
Ainda que centrado no alternativo, o espectro do Rock Report, entretanto, era mais eclético, o que se reflete no livro. O punk comparece com os Ramones, o Type O Negative representa o risível metal gótico, Alice In Chains e Guns N' Roses (entrevista com o guitarrista Slash) mostram a cara do rock americano milionário dos anos 90.
Entrevistas com artistas pop costumam ser bem mais interessantes quando os músicos não poupam farpas ou não têm pudores em assumir opiniões constrangedoras. Assim, em ''Emissões Noturnas'', fica divertido ler as hilariantes opiniões dos integrantes do Mudhoney sobre as outras bandas de Seattle (''Foi triste ver Andrew Wood terminar seus dias numa banda tão ruim quanto o Mother Love Bone'', aponta Steve Turner), as alfinetadas dos Ramones no punk inglês, ou a forma como Henry Rollins ''entrega''a falsa rebeldia do Nine Inch Nails no palco. ''Eu costumava vê-los consertando seus instrumentos para quebrá-los novamente nos shows. Costumava ouví-los dizer: Não temos um teclado novo para hoje, temos que quebrar uma guitarra! Só podiam quebrar algo que pudesse ser consertado'', diz Rollins.
De resto, as entrevistas de ''Emissões Noturnas'' soam datadas (pecado admitido por Massari na introdução): é sintomático ouvir Kim Gordon falar com entusiasmo sobre o então recém-lançado ''Dirty'', álbum do Sonic Youth de 1992, e constatar que hoje a banda rejeita esse disco. Sem falar que artistas de música pop são como jogadores de futebol, têm seus clichês na hora de conversar com a imprensa e raramente se livram deles: ''nosso último disco é o melhor da nossa carreira'', ''não fazemos punk rock, o único rótulo que aceitamos é rock'n roll'', ''música não tem que ter mensagem, tem que ter emoção''...
Dessa forma, aqui acabam se destacando os depoimentos de Michael Kocáb, músico tcheco que lembra das dificuldades que os roqueiros da então Tchecoslováquia tinham para adquirir discos e fazer shows sob a mão de ferro de Moscou nos anos da Guerra Fria, e de Danny Kelly, editor do semanário inglês New Musical Express, que lembra as épocas em que sua publicação louvava o progressivo em plena era de estouro do punk (final dos anos 70), ou pregava a morte do rock mesmo sendo um jornal sobre rock.
Mesmo com suas falhas (alguns erros de digitação são gritantes), ''Emissões Noturnas'' é leitura obrigatória para fissurados em rock. E tem sabor extremamente nostálgico para quem foi adolescente até no máximo os anos 90, época em que não havia mp3 e a única forma de conhecer aquela banda obscura que ia ''salvar'' a música era ficar na frente do rádio com fita a postos e dedo no ''rec'', e torcer para que algum radialista antenado tocasse alguma coisa do tal grupo...


Serviço
- ''Emissões Noturnas - Cadernos Radiofônicos de fm'', de Fabio Massari. Lançamento da Grinta Cultural. Preço médio: R$ 40. Site: www.grinta.com.br.

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