Angela Maria, o mito, mantém-se de pé. Rainha do rádio na década de 50, continua atuante ao microfone, ostentando uma das mais fascinantes trajetórias da música popular brasileira.
Prolífica, é a cantora que mais gravou no Brasil. ''Disco de Ouro'', seu novo trabalho, é o 114º título de uma carreira marcada por álbuns desiguais e uma montanha de problemas provocados por maridos e empresários desonestos que a exploraram até zerar sua conta bancária.
Aos 75 anos, a diva volta ao mercado fonográfico para comemorar com atraso de dois anos seu jubileu de ouro. ''Quis gravar músicas que sempre gostei de cantar'' diz ela, por telefone. O CD chega às lojas pelo selo Lua Discos, pequena companhia dedicada à música de qualidade.
O encarte inclui pequenos depoimentos de Chico Buarque, Milton Nascimento, Elis Regina e Francisco Alves todos exaltando o talento de ''Sapoti'', apelido que recebeu de Getúlio Vargas. O repertório foi escolhido em parceria com o jornalista e pesquisador Thiago Marques.
Os arranjos ficaram por conta de Keko Brandão, que já trabalhou com Zizi Possi, Ivan Lins e Jane Duboc. Pela primeira vez registrou composições de Lulu Santos, Johnny Alf, Maysa e Cartola. Não deixou, contudo, de visitar velhos amigos como Tom Jobim, Dolores Duran, Djavan e Gonzaguinha.
Garimpou ainda faixas de Cazuza, Peninha, Luiz Melodia, Vicente Garrido (em versão de Thiago Marques) e da dupla Erasmo e Roberto Carlos. A tônica é o samba-canção, a dor-de-cotovelo e o bolero. Embora fiel ao timbre dramático de sua voz, que sempre se revelou em diferentes matizes, acomodou o vozeirão de peito em interpretações mais intimistas. Sobre isso e outros assuntos ela fala na entrevista que se segue.
''Disco de Ouro'' traz músicas de Lulu Santos e Cazuza. É a primeira vez que você grava compositores pop?
É a primeira vez que gravo o Lulu Santos. Gosto do estilo dele, de suas músicas, e especialmente de ''Como uma Onda''. Nos shows, essa música faz grande sucesso, é uma alegria total. Já o Cazuza sempre quis trabalhar comigo. Alguns anos atrás, ele compôs a canção ''Tapas na Cara'' para eu gravar. A música rendeu até um quadro no ''Fantástico'' (programa dominicial de variedade da Rede Globo). No meu novo disco, gravei ''Faz Parte do Meu Show'', que é uma parceria dele com o Renato Ladeira. Adoro essa música, assim como ''Brasil'', que pretendo gravar no meu próximo CD de inéditas.
Foi fácil escolher o repertório para o CD?
Selecionamos 100 músicas, depois reduzimos para 30 e depois para 14. As outras 16 ficaram para o próximo disco. São canções de colegas, de compositores maravilhosos, canções que sempre quis gravar e das quais algumas eu já cantava em shows.
O que significou para você sair de uma multinacional como a Sony e gravar por um selo independente como o Lua Discos?
A Sony tem um casting (não sei se ainda tem, porque quando saí a coisa estava meio fraca) de artistas famosos que é muito concorrido, no qual recebe mais atenção quem tem vendagens altas, quem está nos primeiros lugares das paradas. Então, resolvi sair porque ali não dava para eu fazer as coisas do meu jeito, não dava para gravar os discos como eu queria. E isso não aconteceu só comigo, está acontecendo com outros artistas em outras gravadoras grandes. O meio está estranho, a música brasileira está enrolada...
Enrolada?
O problema é que está todo mundo gravando, qualquer um chega lá e grava. E é uma coisa pior do que a outra. A gente se assusta. A gente liga a TV e vê a ''Eguinha Pocotó'', não dá. E tem coisas piores aí. É a desmoralização da música brasileira. Cadê os grandes cantores, as grandes cantoras, os grandes conjuntos? Todos foram colocados à parte.
Com mais de 50 anos de carreira, o que mudou na sua voz ou na forma de interpretação?
Antes eu cantava muito alto e destrambelhadamente. Não conseguia dominar a voz. Com o tempo, consegui esse domínio. Hoje em dia, canto meu repertório antigo em tons mais baixos. Antes era gritado. Nesse novo disco, gravei tudo em tom baixo porque são músicas românticas. Mas, nos shows, continuo cantando ''Babalú'' lá em cima.
O encarte do CD traz um depoimento de Elis Regina, no qual ela diz que começou a carreira ''imitando descaradamente'' você. Houve algum momento em que vocês trabalharam juntas?
Gravamos um programa na TV Globo na época em que ela era casada com o Ronaldo Bôscoli. Ele produzia e dirigia o programa. Na ocasião, a Elis ficou muito contente com a minha presença e eu fiquei satisfeita em estar ali. Na verdade, ela me acompanhava desde menina, quando ia aos programas da Rádio Gaúcha para me ver. Ela fica lá, sentadinha no palco e depois ia me beijar no camarim.
Você já ouviu a filha dela, a Maria Rita?
Ouvi e gostei muito. Ela é filha de peixinho, filha de um grande pianista e de uma grande cantora. E tem a técnica da mãe.
Das cantoras que surgiram depois da sua geração, tem alguma em especial que você goste mais?
Gosto da Marron (Alcione), que é maravilhosa, e tem a Fafá (de Belém) e a Gal Costa.
Você é a cantora que mais lançou álbuns no Brasil. Que avaliação você faz dessa vasta discografia ? Tem algum arrependimento?
Acho que não fiz um bom negócio em gravar tantos discos. Como praticamente todos foram feitos dentro de grandes gravadoras, estraguei muitas músicas que poderiam ser sucessos. É que não dava tempo para trabalhar as músicas, já que gravávamos um disco atrás do outro. Cheguei a gravar cinco e até seis discos por ano. E a gente tinha que dizer sim, tinha que obedecer ao chefão.
Tem algum disco que você renegue, que você ache ruim?
Com tantos discos, deve ter um ou outro. Mas não vou dizer quais são...
E tem algum disco que seja o seu preferido?
Eu considero o ''Amigos'' (álbum lançado em 1996 em que faz duetos vocais com Roberto Carlos, Ney Matogrosso e outros ilustres). Quando estava na Sony, pensei em gravar um ''Amigos 2''. Agora ficou mais difícil. Mas é um projeto para o futuro.
Você vai fazer turnê nacional do novo CD?
Por enquanto, e até o mês de novembro, vou apenas divulgar e dar entrevistas para jornais, rádios e tevês. Depois, vou ver uma agenda de shows com a gravadora. Até lá, continuarei me apresentando às terças-feiras no Bar Brahma, em São Paulo.
O lançamento do disco já repercutiu na frequência de público?
O pessoal tem ido aos shows. Ontem (terça-feira) ficou superlotado. Muita gente teve que voltar para casa.
Qual é a faixa etária da platéia?
Tem de 30, 40, 50 e até 200 anos (risos).

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