Curitiba - Se você procura um roteiro ou um guia detalhado dos bares de Curitiba é melhor não entrar. Mas se você quer saber sobre causos saborosos e divertidas receitas de sucesso (para fregueses e proprietários) o endereço certo é o livro ''Chama o garçom - botecos de Curitiba e as histórias que não vêm na conta'', das jornalistas Marcia Luz e Simone Mattos com fotos de Kraw Penas. O livro tem lançamento amanhã, no restaurante Beto Batata, um dos locais contemplados pela obra.
''Chama o garçom'' traz histórias de 18 bares de Curitiba e ainda faz uma homenagem póstuma ao saudoso Bar 21, que fechou suas portas há quatro anos. A jornalista Simone Mattos explica o critério de seleção dos locais que entraram na publicação: ''escolhemos os bares que tinham personalidade, aqueles que mesmo jovens já nasceram botecos tradicionais''. O projeto começou a ser desenhado há cinco anos, mas só no ano passado, depois de vencidas as agruras burocráticas da Lei Municipal de Incentivo à Cultura, passou a ser concretizado. O tempo de espera pela aprovação do projeto, no entanto, foi responsável pela mudança no enfoque do livro.
''O que era para ser um guia ganhou um abordagem mais humana. Nós conversamos com os donos de bares, com os garçons e deixamos que eles nos contassem histórias'', revela Simone. Por questões de espaço e, principalmente, custo muitos bares ficaram de fora, mais ou menos o mesmo número de locais que entraram na obra. Mas pela riqueza do material publicado é possível perceber que o assunto é farto e rende muito mais que conversas no balcão. Simone conta, por exemplo, que uma das histórias mais emocionantes que ouviu foi a da Mercearia do Português.
Depois de entrevistar o proprietário Ricardo Terçarolli, viu uma foto na decoração do bar que chamou sua atenção e perguntou quem era. O proprietário foi logo contando a história de ''seo'' Raul Gabardo, de 84 anos, e ainda chamou o próprio para atestar o episódio que revela uma das maiores coincidências registradas no livro. Depois de uma temporada em Portugal, Terçarolli decidiu voltar para Curitiba e montar um bar cuja decoração lembrasse as antigas mercearias da década de 40 e 50. Terçarolli não sabia os antecedentes do imóvel que escolheu para instalar o boteco até conhecer o senhor Raul, antigo proprietário do Armazém Gabardo, uma autêntica mercearia, que funcionou durante décadas ali mesmo, onde hoje se degustam deliciosos bolinhos de bacalhau, na Mercearia do Português.
A história rendeu um capítulo especial, em homenagem a Raul Gabardo, com fotos do próprio. Aliás, as fotos do antigo Armazém Gabardo decoram hoje a Mercearia do Português. O interessante da obra é que o fotógrafo não se limitou a registrar os botecos, mas se preocupou com a personalidade do espaço, do proprietário e dos próprios garçons, congelando detalhes e imagens que transmitem o clima de cada local abordado. As histórias dos garçons, aliás, foram prato cheio também para as autoras do livro.
Como as que relataram um dos garçons mais conhecidos dos bares curitibanos, Gilvan Franciso de Souza, ou simplesmente Gil. Trabalhando há uma década como garçom, ele conta a divertida história de como começou a carreira. Ele estava na Ilha do Mel, Litoral do Paraná, quando escutou um cliente argentino perguntar para o garçom do bar, insistentemente, que onde era o mictório. O garçom, sem entender, disse que o ''mictório'' havia acabado. ''Não tem mais senhor. O último que tinha a gente vendeu ontem''. Foi quando Gil interrompeu para ajudar o turista e acabou convencido de que conversar com as pessoas, ser útil, e ainda ganhar um dinheirinho, poderia ser uma boa profissão.
São histórias pessoais que enriquecem a tradição dos locais visitados pelas jornalistas, de um bar secular como o Stuart ao ''jovem'' Jacobina, que apesar do pouco tempo de existência, já nasceu com tradição. As jornalistas passaram seis meses visitando os locais e colhendo depoimentos, mesmo tempo em que o fotógrafo Kraw Penas peregrinou pelos botecos em busca de boas imagens. E elas renderam tanto que o formato do livro foi até modificado e ampliado para poder acomodar (e mostrar) melhor as imagens captadas. As fotos que estão no livro podem ser vistas em tamanho família em exposição que abre também amanhã, junto ao lançamento do livro. E, ao que se sabe, bares ainda vão render muitas histórias. Londrinenses também já preparam um roteiro dos melhores botecos da cidade e dizem que vai dar o que falar.

Serviço:
- Lançamento do livro ''Chama o Garçom - botecos de Curitiba e as histórias que não vêm na conta'' e abertura de exposição das fotos de Kraw Penas. Amanhã, às 15 horas, no Beto Batata (Rua Professor Brandão, 678. Tel. 41 - 3662-0840).

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